Terremotos na Venezuela
por Heraldo Campos
“Os popularmente chamados terremotos, tremores de terra ou abalos sísmicos podem ser originados, de modo simplificado, por três diferentes processos. Podem ocorrer devido à evolução de cavidades no subsolo através da dissolução de rochas pelas águas subterrâneas, provocando afundamentos ou desmonoramentos na forma de colapsos catastróficos como os que aconteceram em 1986 na cidade de Cajamar (SP). Outro tipo de terremoto pode estar associado as atividades vulcânicas. Resultam, principalmente, de explosões internas no edifício vulcânico. Exemplos mundiais, tanto no passado como no presente, são vários. Um terceiro tipo é motivado pela separação das placas continentais que acabam se chocando umas com as outras. É como se fossem objetos em uma ‘esteira rolante’ em movimentação continua. As placas movem-se cerca de dois a dez centimetros por ano dando origern aos terremotos.” [1]
“A Tectónica de Placas é um ramo da Geologia que trata das deformações da crosta terrestre devidas ås forças internas que sobre ela se exerceram. A teoria de que os continentes não estiveram sempre nas suas posições atuais foi elaborada muito antes do Século 20. Este modelo foi sugerido, pela primeira vez, em 1596 por um fabricante holandês, Abraham Ortelius. Ortelius sugeriu de que as Américas ‘foram rasgadas e afastadas da Europa e Africa por terremotos e inundações’ e acrescentou ‘os vestígios da ruptura revelam-se, se alguém trouxer para a sua frente um mapa do mundo e observar com cuidado as regiões costeiras dos três continentes’. A ideia de Ortelius foi retomada no Século 19.
Entretanto, só em 1912 é que a idéia do movimento dos continentes foi seriamente considerada como uma teoria científica designada por Deriva Continental, escrita em dois artigos publicados por um meteorologista alemão chamado Alfred Lothar Wegener. Wegener argumentou que, há cerca de 200 milhões de anos, havia um supercontinente (Pangea) que começou a fraturar-se. Alexander Du Toit, professor de Geologia na Universidade de Joanesburgo e um dos defensores das idéias de Wegener, propôs que este supercontinente (Pangea), primeiro, se dividiu em dois grandes continentes: Laurásia (no Hemisferio Norte) e Gondwana (no Hemisferio Sul) que continuaram a fraturarem-se, ao longo dos tempos, dando origem aos vários continentes que existem hoje.” [2]
Nesse cenário, quando as placas se chocam, as rochas de suas bordas enrugam-se e rompem-se originando os terremotos, os dobramentos e os falhamentos. No caso específico da Venezuela, que sofreu dois terremotos recentes (24/06/2026), vitimando mais de 1.400 pessoas.
Como escrevi em artigo de 10/01/2026, trabalhei para a Organização dos Estados Americanos (OEA), entre o período de outubro de 2005 a julho de 2007, no “Projeto Sistema Aquífero Guarani” como Facilitador Local do Projeto Piloto Ribeirão Preto e juntamente com outros colegas da área de hidrogeologia, fizemos uma viagem de estudos na Venezuela.
“Um dos objetivos dessa viagem foi o conhecimento, principalmente nos trabalhos de campo, de como os técnicos do Ministério de Energia e Petróleo Bolivariano da Venezuela utilizavam a aplicação de isótopos ambientais na datação de águas e que, mais adiante, pudessem ser aplicadas na datação das águas subterrâneas do Aquífero Guarani no CONE SUL. Sem dúvida, foi uma experiência muito rica em termos do conhecimento técnico-científico além, é claro, do contato com as populações que viviam nos pueblos (pequenas vilas) ao longo dos trajetos percorridos em duas semanas em território venezuelano.” [3]
Pesquisando o relatório técnico gerado na época dos estudos para a OEA, no ano de 2006, verifiquei que transitamos, em superfície, num setor bem próximo do epicentro (mais ou menos 10 km de profundidade) dos abalos sísmicos ocorridos, recentemente, na região de costeira de La Guaira, distante cerca 30 km da capital Caracas. Apesar de saber da existência das placas tectônicas de Cocos, do Caribe, de Nazca e Sul-Americana na região como sendo, provavelmente, as principais responsáveis pelos terremotos que atingiram o território venezuelano, fiquei bastante impressionado com a magnitude (7,5 na escala Richter) do evento corrido, que não se manifestava há mais de 100 anos com essa intensidade .
Isto posto, gostaria de desejar, nesse momento difícil, com muitas perdas de vidas humanas e de materiais, NOSSA SOLIDARIEDADE AO POVO VENEZUELANO!
Fontes
[1] “Terremos em Ribeirão”. Artigo de Heraldo Campos de 26/08/2007. Jornal Gazeta de Ribeirão. Ribeirão Preto (SP). https://alumni.usp.br/coletanea-de-artigos-por-onde-a-agua-passa-de-geologo-ex-aluno-da-usp/
[2] “Tectônica de Placas”. Artigo de Heraldo Campos de 15/11/2007. Jornal Gazeta de Ribeirão. Ribeirão Preto (SP). https://alumni.usp.br/coletanea-de-artigos-por-onde-a-agua-passa-de-geologo-ex-aluno-da-usp/
[3] “O quintal para maldades”. Artigo de Heraldo Campos de 10/01/2026. https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2026/01/o-quintal-para-maldades.html
Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, 1976), mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).
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