‘The Boys’ e ‘O Dilema das Redes’: esquerda precisa de hackers e ‘artivistas’, por Wilson Ferreira

Séries ficcionais como a segunda temporada de “The Boys” (2019-) e o documentário “O Dilema das Redes” (2020) mostram com a tática de viralização leva ampla vantagem sobre as estratégias tradicionais de propaganda.

‘The Boys’ e ‘O Dilema das Redes’: esquerda precisa de hackers e ‘artivistas’

por Wilson Ferreira

Ataques massivos de hackers de extrema-direita estão derrubando lives acadêmicas com temáticas progressistas revelando o campo mais bruto da guerra semiótica: os ataques cibernéticos em uma terra de ninguém no qual hackers agem livres como as gangs no deserto distópico de “Mad Max”.  Escandalizada, a esquerda ainda crê no senso de obrigação moral a direitos universais ou republicanos, simplesmente ignorando o paradigma comunicacional da viralização. Séries ficcionais como a segunda temporada de “The Boys” (2019-) e o documentário “O Dilema das Redes” (2020) mostram com a tática de viralização leva ampla vantagem sobre as estratégias tradicionais de propaganda. Restará à esquerda lutar no mesmo campo semiótico da extrema-direita, mesmo que seja nos limites da moral e da ética. Como mostra a “violência metafórica” do “Freedom Kick” do coletivo de artistas ativistas “Indecline”: vídeos de protesto com esculturas de cabeças hiper-realistas de Putin, Trump e… Bolsonaro – chegam aos países afetados pelas suas políticas para os seus opositores jogarem futebol com elas. A esquerda precisa de harckers e “artivistas“.

Eleições se aproximam e a guerra cibernética começa nas redes. Como sempre, com um único lado atuante no campo de batalha: a extrema-direita.

Nos últimos dias, foram mais de 20 alvos de “zoombombing” (massivo ataque de hackers em videoconferências na Internet pela inserção de material obsceno, discriminatório, ameaças etc., resultando no final da sessão) em transmissões online acadêmicas de temas como racismo, feminismo, preservação da Amazônia, violência policial, discussões sobre as relações polícia e sociedade etc.

As ações afetaram transmissões de universidades federais e estaduais de pelo menos nove Estados e do Distrito Federal. Os atacantes invadiram salas de aplicativos e passaram a exibir imagens pornográficas e a xingar os participantes. Fizeram barulhos, gritos e tocaram músicas para impedir que os debatedores fossem ouvidos. Foi o que aconteceu às 19h40 de 19 de agosto com a professora Maria Helena de Castro Santos, do Instituto de Relações Internacionais (IREL), da Universidade de Brasília (UnB) – clique aqui.

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De repente, a audiência na plataforma online dá um salto. Em segundos, começam os ruídos desconexos, a música alta, os xingamentos, gritos e pornografia.

A discussão sobre fake news, pós-verdades e fabricação de memes acabou nos últimos tempos monopolizando a discussão da utilização das mídias sociais no campo da guerra política semiótica. Chamaram a atenção para aqueles conteúdos virais que conseguem ultrapassar os limites das bolhas sociais criadas pelos algoritmos que criam as polarizações de opiniões nas redes.

Porém, os episódios descritos acima revelam outro campo mais “hard” da guerra semiótica: a guerra cibernética – hackers que deliberadamente criam ruídos nas comunicações do oponente. Grupos militantes com papel análogo ao desempenhado pelas SA, as milícias paramilitares nazistas: jovens desempregados que perambulavam pelas ruas e eram recrutados para criar tumultos, agitações e invasão de lugares nos quais reuniam-se opositores políticos de Hitler.

Guerra cibernética + guerra semiótica viral formam esse campo desértico no qual a extrema-direita atua sem embaraços, tal como aquelas gangs correndo livremente pelas terras desoladas pós-apocalípticas no filme Mad Max.

Série The Boys: a propaganda é patética!

A propósito, muitos filmes atuais estão conseguindo simbolicamente representar através da ficção essa disparidade de estratégias de comunicação: a tática de viralização levando ampla vantagem sobre as estratégias tradicionais de propaganda, publicidade e marketing – massificação, panfletagem, público-alvo, amostragens etc.

Tempestade versus Capitão Pátria: Propaganda X Viralização

 

Um exemplo é a série da Amazon The Boys (2019-), agora na segunda temporada. Para quem não conhece a série, ela é baseada na HQ escrita por Garth Ennis: um universo alternativo no qual os super-heróis se transformaram em objeto de um vasto aparato corporativo que cuida das suas imagens, com uma equipe de relações públicas e advogados. Prontos para abafar qualquer escândalo decorrente de seus “efeitos colaterais” – o principal deles, o projeto de golpe político para que a empresa que os assessora tome o poder do Estado.

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A megacorporação Voight controla o grupo de super-heróis chamado “The Seven”, liderado pelo Capitão Pátria (um mix de super-homem e Capitão América imaturo, hipernarcisista e amoral) – o Cinegnose já analisou a série: clique aqui.

Até que surge uma misteriosa super-heroína chamada Tempestade (“Stormfront”) que rouba a liderança e o sucesso do Capitão Pátria.

Desafiado em sua liderança, Capitão Pátria vê o crescente sucesso da sua rival nas redes sociais e na opinião pública, roubando totalmente a cena e se tornando a nova líder feminina dos The Seven. Indignado, Capitão Pátria chama Tempestade às falas, em linhas de diálogo que explicitamente refletem o sucesso das estratégias comunicacionais atuais da extrema-direita:

Capitão Pátria: Tentando puxar meu tapete, roubar minha equipe… não vai funcionar, eu sou o rosto dos Sete! Eu ainda sou o melhor em todas as faixas demográficas… de 18 a 38, de 18 a 49, de 25 a 54… TODOS ME AMAM!

Tempestade: essa necessidade de ser amado por todos é patética!

Capitão Pátria: Eu criei essa equipe do nada, não vou permitir que ninguém tire ela de mim.

Tempestade: Você gastou 273 milhões de dólares com a bobagem dessa campanha “Salvando os EUA”… eu botei você no bolso! Com apenas cinco caras produzindo memes em meus computadores… e o salário deles pago apenas com lanches. Você não pode mais conquistar o país todo, ninguém pode. Você não precisa de 50 milhões de pessoas que amem você. PRECISA DE CINCO MILHÕES DE PESSOAS PUTAS DA VIDA!… Raiva vende. Você tem apenas fãs, e eu tenho SOLDADOS!

Tempestade fatura em cima das denúncias de corrupção na corporação Voight que explodem na mídia. Ela recruta seus “soldados” putos com as denúncias que acabam criando uma espécie autogolpe dentro da corporação Voight, mantendo tudo como está – a corporação e seu projeto secreto de assumir o poder do Estado.

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Capitão Pátria ainda raciocina dentro do velho paradigma da propaganda nas mídias de massas, enquanto Tempestade prefere criar um núcleo duro, pequeno, mas atuante, de “soldados” que militam na guerra cibernética e na viralização de memes, e não mais na massificação de slogans.

São dois campos semióticos excludentes: massificação versus viralização. Capitão Pátria não consegue entender esse novo paradigma: para ele, tudo não passa de “puxada de tapete”.

Tempestade e seu grupo de hackers (pagos com lanches) exploram os interstícios do sistema, a “terra de ninguém” desregulamentada do ciberespaço na qual os algoritmos das gigantes tecnológica como Facebook ou Google mineram o Big Data dos usuários, criando vício, dependência e o subproduto político: polarização e percepção da realidade a partir de bolhas virtuais.

Continue lendo no Cinegnose.

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1 comentário

  1. O campo progressista precisa se atualizar e melhorar a militância nas redes sociais. A estrema direita está nadando de braçada nesse campo. Infelizmente será necessário deixar certos escrúpulos de lado e brigar com os fascistas nas redes. Sobre hackers de esquerda: Sim, concordo. Temos de lutar, com ética, mas temos de lutar. Sobre invasão em lives universitárias: As salas virtuais do mestrado de sociologia da UNB já foram invadidas várias vezes por fascistas que, aos gritos, tentam impedir as aulas e encontros virtuais. Gritam obscenidades, acusam os participantes das aulas de “comunistas”, gritam slogans pró Olavo de Carvalho, etc. É preciso reagir.

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