Toca pra Juventude!, por uma jovem petista

O presidente de honra do PT tocou pra Juventude no último Conselho Político “assumir a responsabilidade de fazer aquilo que acham que ele ou outros políticos deveriam fazer”.

Toca pra Juventude!

por uma jovem petista

Até os mais antigos membros, lastreados daquele título capaz de silenciar qualquer desavença, os lendários “fundadores do PT” já estão a sinalizar; é hora de pendurar as chuteiras. Ao passo que distribui entrevistas com orientações, o dirigente máximo e presidente de honra do Partido tocou pra Juventude no último Conselho Político “assumir a responsabilidade de fazer aquilo que acham que ele ou outros políticos deveriam fazer”.

Fica então para a Juventude do PT interpretar e pôr em prática mais uma orientação de ninguém menos que Lula, e sua imponência que mais intimida do que encoraja. Porque ao achar que Lula deveria fazer algo, implica dizer que Lula pode ter errado em alguma coisa.  E a aura que o barba carrega, ainda maior depois de sair da prisão, não particularmente admite tal entendimento. A impressão é que Lula subestima o seu próprio cetro, ao acreditar que exatamente aquela juventude dirigente que o cerca (e venera) vai fazer algo diferente do que ele mesmo já fez, ou fará.

É como se por um momento Lady Gaga descesse do palco e dissesse a alguma jovem cantora amadora do fã clube ali no front stage (tão caro quanto uma passagem de avião pra SP), que suba no palco e cante uma música dela. Quem se aventura?

Claro, hoje temos a idade que ele tinha quando pensou o PT. Mas, se todo treinamento que tivemos de fato se resume à reprodução do discurso populista de defesa dos governos petistas, o qual repetimos incansavelmente a cada eleição, o que esperar dessa Juventude na hora de formular política? É de fato bem improvável que esta terá ideais e políticas para além da distribuição de renda, e, mais recentemente, da defesa de grupos minoritariamente representados pelo poder. Com raras exceções, de brilhantes formuladoras de política que por acaso foram sistematicamente excluídas dos cargos da direção do Partido e da Juventude no último processo interno através de práticas indubitavelmente tóxicas, a imensa maioria dos dirigentes de Juventude é nada além de uma cópia fiel de seu próprio dirigente.

Ah, os dirigentes. Com uma olhada bem por cima é possível atrever-se a sistematiza-los em três tipos característicos, porém não necessariamente distintos. Temos os Lulas, dirigentes forjados na prática, mas sem muita teoria; os Zé Dirceus, com muita teoria social-democrata e uma prática imperialista (vide PED); e os Zé de Oliveiras, que se apegam a teorias de pautas “minoritárias” desprezando conhecimento teórico de outras e achando que tudo gira em torno de sua própria pauta, este tipo de dirigente tem uma prática demagoga, pragmática e oportunista. Recentemente identificamos ainda um novo tipo, o tipo que tem conhecimento teórico suficiente pra encantar os ouvidos de jovens corações revolucionários da esquerda petista, mas na prática faz a mesma coisa que os outros, catalogado como os Paulo Teixeiras. Todos eles têm muito a dizer e ensinar, mas só ensinam até onde lhes for de interesse na disputa pelo poder e pelos espaços do partido.

O resultado disto é uma juventude tutelada, sem avidez, impetuosa na disputa pelo poder, mas conformada com o empenho deste por outrem. Feliz em desempenhar as funções por este Partido atribuídas e, sutilmente ou não, por seus dirigentes. Uma juventude que se contenta com respostas esguias e esquivas pontuais, uma juventude que se perguntar, pergunta pra confirmar, nunca pra refutar. Talvez, justamente pela falta de preparo seja a vontade desta Juventude da consistência de uma gelatina, capaz de se liquefazer à menor resposta direta e fria como o pragmatismo é.  

É por seleção natural estomacal, ou seja, quem aguenta engolir mais, que vão ficando por ali, pro futuro do Partido dos Trabalhadores, as juventudes. Por um lado, é bom, que se prepara pra ouvir a Direita falar, friamente sem cometer um fascicídio. Pelo outro, vamos engolindo certas condutas, de certos dirigentes, acreditando que é por um bem maior. Desta forma vamos nos acostumando a nunca desobedecer e sempre reverenciar.

Marx tinha nossa idade quando concluiu sua tese de Doutorado, e esta será a única menção ao filósofo-economista a ser feita por aqui. A pontuação é apenas pra reafirmar que a idade não é e não deve ser imposta como um fator limitante para o entendimento e formulação das estratégias do partido. E por falar em referências, dizem que em seu leito de morte, Darcy Ribeiro chorava e repetia incessantemente que as pessoas iriam se esquecer do que ele escreveu. É através de sua obra máxima, O Povo Brasileiro, que a gente pode por exemplo se perguntar se é justo que as populações originárias deste País, que tanto sofreram com a chegada do povo branco, não sejam pensadas nas práticas políticas do mesmo.

Qual juventude vai questionar se a implementação de Belo Monte, uma usina com capacidade de sustentar 40 milhões de pessoas, foi uma coisa boa para as populações tradicionais da Volta Grande do Xingu? Qual Juventude vai pesquisar sobre o tema? Vai querer saber se as promessas do Relatório de Impacto Ambiental estavam sendo cumpridas, ou quando o dinheiro que prometeram deixou de ser pago? Vai questionar se é Justiça Social impor a um povo de cultura secular, o modo de vida eurocentrado que traz consigo as relações de produção que oprimem a classe trabalhadora, e o estilo de vida que está destruindo o planeta? Com certeza não será a Juventude que ouve de Lula: Eu tenho orgulho de Belo Monte. 

Assumo a responsabilidade de fazer o que eu acho que outros políticos, que a juventude e que outras pessoas que pensam como eu deveriam fazer; cobrar a autocrítica sobre Belo Monte. A juventude não tem como fazer a autocrítica de um projeto que ainda era adolescente quando o então recém-nomeado diretor do Ibama autorizou. Essa bola não tem como tocar pra gente, Lula. É preciso tomar pra si a responsabilidade de ter assumido o risco de implementar uma obra tão grandiosa, primeiro por escantear o documento do partido que versava sobre o papel da Amazônia no desenvolvimento do Brasil e segundo porque Belo Monte, além de não cumprir o acordado e comprometer o fluxo de água da Volta Grande, é o motor que gerará energia para a exploração da maior jazida de ouro a céu aberto do Brasil, com consequente maior barragem de rejeito de mineração do País, com cianeto, em pleno Xingu. 

Já que tocaste, ta aí a cobrança. Sem caçar gol, fazendo meio de campo pra você ficar esperto no ataque adversário. Então confia e bate essa falta antes dos 45’, só não pisa na bola. 

Por:

Uma Jovem petista, recentemente golpeada

Mas jamais silenciada

P.S.: atendendo a pedidos, este texto apócrifo como forma de combate ao personalismo, é assinado pela CNF 646354.

Jovem pernambucana, residindo no Sul do Pará.

Hasta la Vitória, clara siempre.

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4 comentários

  1. Tal como o “Exército do Stédile”, fora do contexto, o “Toca pra Juventude!” retorcido utilizado, servem aos que pretendem atingir os que consideram ‘inimigo’, nos casos, Lula e por tabela o PT e nesse em particular, pior ainda que identificados e nomeados inimigos, a ‘triste’ anônima figura que golpeia vende-se ‘amiga’.

    Não há nada de JOVEM nela, mesmo que a idade permita, e com absoluta certeza, menos ainda de PETISTA, mesmo com carteirinha de fundadora.

    • De fato, desde que tenho 13 anos, minha vó me chama de mulher de 40.
      Petista sim, governista nunca, nem no papel.

  2. Como velho e fundador clandestino do PT, quero saber o nome desta ilustre jovem petista. Diga-se simbolo do que deveria ser a juventude de um partido reconhecidamente freiriano por lutar pela emancipacao. Pelo menos isto está sinalizado em sua esquecida carta de fundação! Estes ditos dirigentes esqueceram das origens orgânicas democráticas do partido de bases, como base, antes de tudo, participativa, para consistência à representação! Quanto ao Dirceu, principal gestor totalitário deste viés eleitoreiro mercantilista, creio estar estampado em sua trajetória individualista o fato de ter externalizado sua prepotente alusão à sua consultoria ser personalíssima aos clientes do porte do mexicano Slim (financiador de golpes)! Interessante o alçaram a condição de herói, um subproduto do lobby, tão comum em Brasília e São Paulo, na seara conservadora!

  3. Como velho e fundador clandestino do PT, quero saber o nome desta ilustre jovem petista. Diga-se simbolo do que deveria ser a juventude de um partido reconhecidamente freiriano por lutar pela emancipacao. Pelo menos isto está sinalizado em sua esquecida carta de fundação! Estes ditos dirigentes esqueceram das origens orgânicas democráticas do partido de bases, como base, antes de tudo, participativa, para consistência à representação! Quanto ao Dirceu, principal gestor totalitário deste viés eleitoreiro mercantilista, creio estar estampado em sua trajetória individualista, o fato de ter externalizado sua prepotente alusão à sua consultoria ser personalíssima, aos clientes do porte do mexicano Slim (financiador de golpes)! Interessante o alçaram a condição de herói, um subproduto do lobby, tão comum em Brasília e São Paulo, na seara conservadora!

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