10 de junho de 2026

Tombamento de terreiros em São Paulo valoriza os movimentos negros, por Mariana Nassif

Devemos aos negros, devemos sim. Não podemos tornar essa história mais uma a ser enxergada pelo prisma cristalizado e embranquecido

Tombamento de terreiros em São Paulo valoriza os movimentos negros

por Mariana Nassif

Sobre o tipo de homenagem ao qual vale, e muito, se engajar: o tombamento de espaços diretamente ligados à cultura negra. O CONDEPHAT determinou o tombamento de cinco terreiros na região metropolitana de São Paulo. Ainda é pouco, claro, visto que respeito e igualdade são valores rotineiros e devem ser profundamente alterados, evoluídos. Mas é importante frisar a relevância de episódios como estes que, mesmo isolados, acalantam os corações de axé. 

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Uma das críticas que recebi por conta da defesa dos espaços negros, esta que imprimo inclusive aqui no GGN, dá conta de eu não ser negra e, portanto, estar roubando lugar de fala. Vale dizer que além de estudar e conversar bastante sobre os temas com pessoas íntimas que me servem de boa baliza antes da abordagem pública, nunca ouvi dizer que só sendo negro é possível estabelecer uma relação onde o respeito é exigido. Sou branca e, nos espaços onde caminho, a devoção ao que vem da ancestralidade é premissa. Seja na religião ou nas relações que me cercam, o exercício do louvor ao que me é precioso é feito com capricho. Ainda mais para espalhar e ampliar as vozes daqueles que defendo, abro espaço de diálogos possíveis – e alguns impossíveis mesmo, tem racistas que se armam com discursos tão cheios de ódio que fazem faltar argumentos, além de paciência, para a conversa.

Mas sigo aqui, tanto quanto ali e acolá, falando e abrindo lacunas nas conversas para que cada vez mais o preto e aquilo que é preto sejam enxergados e percebidos como pessoas merecedoras de muito, mas muito respeito. Isso se constrói também na rotina, em alterações no uso de palavras e expressões que “não têm nada de mal”, mas que com um minuto de sua atenção nitidamente tem relação com a diminuição cultural do que é negro. A palavra denegrir, por exemplo; a expressão a coisa tá preta, dando outro exemplo corriqueiro – vale o engajamento também neste tipo de observação, algo tão simples e que já aponta cuidados essenciais quando tratamos de feridas, ainda mais feridas tão profundas, antigas e enraizadas como estas.

Devemos aos negros, devemos sim. Não podemos tornar essa história mais uma a ser enxergada pelo prisma cristalizado e embranquecido daqueles que prestam suas homenagens cultivando a mantendo as diferenças raciais que dizem ter abolido. Precisamos estar atentos, curiosos e atentos às questões levantadas pelos grupos negros: precisamos estar de orelha aberta e em pé para o que dizem os negros que nos cercam, e também por aqueles com quem não temos contato direto: precisamos nos inteirar sobre as questões da periferia e, quem sabe assim, olharemos com mais afeto nossas próprias questões de empatia e privilégio: precisamos, de uma vez por todas, parar de discutirmos sobre quem pode defender determinada questão por ser assim ou assado: precisamos nos unir e reunir, e não partir uma briga tão válida como esta, pela erradicação do racismo: precisamos, especialmente os brancos, e enquanto isso não for uma determinação básica pra mim e pra você, a batalha segue sendo difícil. Haja terreiro tombado pra dar conta de tanta reza.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
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  1. Paulo Eduardo A. C. Cruz

    14 de fevereiro de 2019 7:45 pm

    Muito bom Mariana! Aqui em SP, no governo Haddad, a extinta SMPPIR tentou fazer um mapeamento dos terreiros de religiões afro brasileiras. Mas, infelizmente, não houve apoio, nem financeiro e nem institucional.

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