Uma vacina contra o pessimismo, por Aracy S. Balbani

O que já era insatisfatório para o consumidor antes da pandemia se tornou ainda mais desgastante. Em tempos de propaganda de ozônio retal contra o coronavírus, quem tem a obrigação de moralizar isso tudo prefere empurrar os problemas com as nádegas.

Uma vacina contra o pessimismo

por Aracy S. Balbani

“Você só descobre quem estava nadando pelado quando a maré baixa”.
Warren Buffett, megainvestidor norte-americano

Aos seis meses da pandemia de coronavírus, o momento é apropriado para cada brasileiro fazer seu balanço da situação. Aqui vai um ponto de vista, ou melhor, um desabafo, que não tenho nenhuma pretensão que agrade.

Sinto imensa tristeza e indignação nesta data em que o consórcio de veículos de imprensa aponta para a tragédia de quase 130.000 mortos e mais de 4.250.000 cidadãos infectados pela COVID-19 no país. O fato de dependermos de um consórcio de imprensa para termos noção do número de vítimas da doença é outra catástrofe. Que cientistas políticos nos expliquem se ambas resultam de incompetência ou má-fé do (des)governo a que estamos submetidos e dos financiadores e apoiadores deste.

Sim, política também é ciência. Acredito que as proporções da catástrofe sanitária seriam muito menores se não abundassem por aqui a ignorância, a irresponsabilidade, o preconceito e a ganância de inúmeras figuras públicas. A essas, fica a sugestão: vão estudar! Parem de espalhar besteiras. Não censurem quem expõe a verdade. Não tenham ojeriza à honestidade intelectual e material.

A maioria dos brasileiros não se engana com lágrimas de crocodilo, com a demagogia ao falar dos planos interrompidos das vítimas fatais e das sequelas físicas e psicológicas dos sobreviventes da COVID-19 e familiares. Sabe identificar quem de fato respeita a inteligência, os sentimentos e os direitos dessas pessoas. Respeito para com todos os seres humanos que habitam o Brasil é o que mais falta da parte de quem deveria dar o exemplo.

Nessa terra colonizada, news se tornou plural, entrega virou delivery, desconto é off, e nada está ligado, mas linkado por apps de esmalterias, massarias, coxinharias (sic) e congêneres. Nossos influencers, aqueles que têm algum destaque com seus selfies e inglês sofríveis, seriam apenas uns jecas se não fossem nocivos à humanidade.

As intoxicações e mortes por automedicação com cloroquina, azitromicina e ivermectina, a recusa do uso de máscaras em plena quarentena e o declínio da vacinação sinalizam o perigo da má influência dos covidiotas no comportamento da população em relação à saúde. Albert Sabin e Oswaldo Cruz, entre outros grandes nomes da Saúde, devem estar se revirando no túmulo.

A propósito, a sabedoria popular diz que ninguém carrega poder e riqueza material consigo quando morre. Um gaiato até afirma que se alguém conseguir levar dinheiro ou cartão corporativo para o céu não vai encontrar onde gastá-los, e não adiantará ameaçar dar carteirada, tiro, pancada e bomba por lá. A contabilidade post-mortem é outra.

O fracasso estrondoso do neoliberalismo ficou escancarado entre nós muito antes da explosão do preço do arroz. Sem regulação de preços, há seis meses o pessoal da saúde que ainda recebe remuneração gasta cerca de um terço do dinheiro com EPI´s, desinfetantes e produtos de limpeza para continuar sobrevivendo ao coronavírus. Paga-se cada vez mais caro para trabalhar. Nenhum varejista de produtos de saúde e higiene acena com “patriotismo”.

Nas raras horas de descanso entre o trabalho insalubre, o estudo para atualização científica, e a limpeza e desinfecção do lar, os bancos e outras firmas atazanam com ligações telefônicas sequenciais para oferecer… empréstimo consignado. Não adianta bloquear no celular as chamadas originadas de um desses telefones. As firmas passam a usar outros números para continuar nos importunando um dia sim e o outro também.

Não há ilusão. Na melhor das hipóteses, receberemos um diploma (de parasita?) em papel A4 e uma medalha (de faca na caveira?) em cerimônia pública para os veteranos brasileiros da COVID-19. Na pior, viraremos nome de rua ou de alguma outra coisa, em homenagem póstuma.

Serviços privados de telefonia e Internet andam batendo cabeça como nunca. Não resolvem problemas técnicos e não têm capacidade sequer de efetuar o débito automático das próprias faturas. É preciso acordar às quatro horas da madrugada para conseguir assistir aulas na Internet sem que a conexão lenta pare de funcionar. Cabos de fibra óptica passam pela rua, mas nenhuma empresa oferece esse acesso à Internet para o endereço residencial. Temos de desperdiçar tempo insistindo em pagar pelos péssimos serviços prestados antes que as empresas incluam nosso nome no SPC indevidamente.

O que já era insatisfatório para o consumidor antes da pandemia se tornou ainda mais desgastante. Em tempos de propaganda de ozônio retal contra o coronavírus, quem tem a obrigação de moralizar isso tudo prefere empurrar os problemas com as nádegas.

Apesar dos pesares, há pontos positivos no balanço parcial da pandemia. Superado o primeiro impacto, quando a gente se perguntou se seria capaz de assimilar tantas informações desencontradas sobre uma doença nova, avançamos muito. Poucas vezes estudamos e aprendemos tanto em tão pouco tempo. Reavaliamos repetidamente tudo o que fazíamos em termos de segurança sanitária. Aprimoramos diagnósticos e tratamentos. Ficamos orgulhosos de colegas de profissão, de outros profissionais e de cientistas que têm se dedicado a vencer desafios. Muitos obtiveram destaque merecido na comunidade científica internacional.

Ainda não podemos baixar a guarda e abandonar as medidas de proteção sanitária. Algumas rotinas provavelmente permanecerão para sempre em nossas vidas. Mas, além das pesquisas promissoras contra o coronavírus, há outra razão para fortalecer nossa coragem e esperança. Em respeito às crianças e jovens que aqui estão, e aos que ainda virão, não temos o direito de nos resignar com a impunidade de rebanho na maior tragédia sanitária da História nacional.

A maré ainda nem baixou, mas já dá para ver com nitidez quem está nadando pelado. Os atuais e futuros jovens cidadãos brasileiros não admitirão que os tomem por otários. Não se contentarão com um “So what?” (“E daí?”). Portanto, vamos do luto à luta, apartidária e laica, pela dignidade da vida humana.

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