VAR no país da Lava Jato transforma futebol em esporte quântico, por Wilson Ferreira

Ao pretender remover a suposta subjetividade de um esporte essencialmente interpretativo, a “objetividade” do VAR pode ser uma farsa.

VAR no país da Lava Jato transforma futebol em esporte quântico

por Wilson Ferreira

“Existe Justiça no Futebol?”, pergunta o Globo Esporte depois das polêmicas envolvendo o VAR nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro. Diferente da Europa onde a ferramenta tecnológica é um mero assistente do árbitro no campo, aqui foi contaminada pelo paradigma do moralismo ao estilo Lava Jato: teremos que passar tudo a limpo – política, economia, esporte… tudo deverá ser regido pelos princípios da Transparência, Verdade e Justiça. Então, o VAR é o instrumento para encontrar o “quantum” da Verdade que deve estar em algum frame infinitesimal da mecânica cinemática. Ao pretender remover a suposta subjetividade de um esporte essencialmente interpretativo, a “objetividade” do VAR pode ser uma farsa. Em busca do último frame, do quantum da Verdade, o VAR transforma o futebol em um “esporte quântico”. Porém, a separação dos frames, a resolução da imagem e interferência humana no processo para determinar o instante exato do passe ou posição dos atletas envolvidos na sucessão dos quadros esquece do “Princípio da Incerteza” de Heisenberg: o olhar do observador sempre altera aquilo que é observado.

Lá pelos idos de 2017 o então apresentador do Globo Esporte, Ivan Moré, lançou em pleno programa “Bem Amigos” (apresentado pelo apoplético Galvão Bueno), uma trepidante ideia: o “Projeto Lance Limpo”. Ansioso em mostrar serviço ao substituir Tiago Leifert na editoria de Esporte, resolveu pegar uma carona na audiência da cruzada anticorrupção da Lava Jato (aliás, muita gente também foi eleita assim) e lançou o Projeto que consistia em apresentar “exemplos nobres”, “atitudes que influenciam positivamente o comportamento das pessoas”, “lealdade, companheirismo e honestidade” no esporte.

E toca a apresentar exemplos edificante que, claro, estavam fora do Brasil – no futebol alemão, no futebol chinês etc. Jogadores que admitiram para o árbitro que cavaram o pênalti e o clube chinês que penalizou de forma exemplar seu jogador que agrediu o adversário.

Corta para o Globo Esporte da última sexta-feira! – 04/09/2020.

No cenário da Lava Jato em crise com a debandada em massa de procuradores e as polêmicas levantadas contra o VAR no futebol (nos três últimos jogos do Santos e no último do São Paulo no Campeonato Brasileiro, as decisões do VAR teriam prejudicado os times paulistas) o programa apresentou no quadro “Crônica do Jogo”, do jornalista Marco Aurélio de Souza, com o tema “Existe Justiça no Futebol?”. Para discutir a polêmica da anulação do gol do São Paulo pelo VAR, contra o Atlético Mineiro.

É interessante perceber a diferença da aplicação do VAR (Árbitro Assistente de Vídeo) no futebol europeu e no brasileiro. Enquanto lá o dispositivo foi encarado apenas como uma ferramenta tecnológica para auxiliar a arbitragem (afinal, o árbitro é ainda autoridade máxima em uma partida, como diz a regra), aqui foi contaminada pelo clima histérico de uma, por assim dizer, “Pan Lava Jato”: um panteísmo histérico no qual doravante teremos que passar TUDO a limpo! – a política, o esporte, a economia, as relações familiares, pessoais. Qualquer atividade humana deverá ser regida pelos princípios da transparência, verdade e justiça.

Justiça no esporte? Se o termo “justiça” no âmbito jurídico é algo substantivo (“equidade”, “exatidão”, “bondade”, “benignidade” etc.), no esporte vira retórica – demonstra essa moralização histérica no qual um grupo de assistentes de arbitragem diante de monitores de campo passam a ser uma “força tarefa” para moralizar o esporte.

“Juiz ladrão!”

Por que moralizar? Porque aqui a figura do árbitro é colocada sob suspeita – culpado até que se prove o contrário. Modus operandi que os processos legais da primeira vara de Curitiba acabaram normalizando.

Chamar juiz de “ladrão” ou de “chiclete de urubu” é um clássico do “futebol raiz” das arquibancadas no futebol brasileiro. Mas nos últimos anos, com a profissionalização da arbitragem, tornou-se outra coisa. Principalmente num contexto de pan moralização nacional no combate midiático à corrupção: árbitros tornaram-se covardes diante de uma ferramenta tecnológica investida de poderes como fosse mais uma “força tarefa” que surge turbinada pela grande mídia.

Com o VAR pretende-se encontrar o “quantum”, o “grão” da Verdade nos frames de imagem, na decomposição da mecânica cinética quadro a quadro. Isso num esporte que é intrinsecamente interpretativo cujos lances são de alta velocidade e performance.

Não estamos falando de corridas de cavalos ou de 100 metros rasos, provas lineares decididas pelo photochart ou photofinish, mas de jogadas com mecânica cinética infinitamente mais complexa, em muitos momentos mais próxima da dança do que da explosão do atletismo ou do páreo no turfe.

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