Agradeçamos aos Nossos Irmãos Drusos

Agradeçamos aos Nossos Irmãos Drusos

Editorial de 27 de julho do jornal israelense Haaretz sobre a Lei do Estado-Nação

(Tradução de Ruben Rosenthal)

Dividir os residentes de Israel em ‘bons’ e ‘maus’ objetivou esfacelar a cultura da minoria, tornando o Sionismo uma doutrina racista.

O ministro das finanças do governo israelense (Moche Marlon) admitiu que a promulgação do Estado-Nação Judaico foi feito de forma açodada. ”Erramos e precisamos corrigir”.  Também o ministro da educação (Naftalli Benett), um dos apoiadores da perversa legislação, tuitou que compreendeu que a lei fere profundamente os sentimentos da comunidade Drusa, e recomendou que se encontre uma forma de reparar a fenda aberta com “nossos irmãos de sangue”.

Desta vez os membros do parlamento (Knesset) não podem reclamar da Alta Corte de Justiça ou da esquerda por obstruírem a governabilidade, ou pela falta de patriotismo. Quando eles sancionam uma legislação racista, que solapa os valores básicos de Israel, se tornam os únicos responsáveis. O único passo a tomar não é corrigir,  acrescentar ou emendar, e sim anular completamente a lei, a qual discrimina de forma flagrante contra parte dos cidadãos de Israel.

O clamor para adaptar a lei, tal que a mesma não afete aos Drusos, e talvez também aos Árabes Cristãos, Circassianos e Beduínos servindo no exército, portanto incluídos  na classificação de “árabes bons”, atesta mais que qualquer coisa a visão não democrática, não Sionista que caracteriza os legisladores da direita. Seus receios sem fundamento pela  identidade do estado Judaico fez com que eles esquecessem o significado do termo “cidadania”, que não distingue as pessoas com base na religião, origem e gênero.

Dividir os residentes do Estado de Israel em “bons” e “maus” objetivou esfacelar a cultura da minoria árabe, tornando o Sionismo, que defendia direitos iguais para todos os residentes de Israel, uma doutrina racista.

Por sete décadas Israel conseguiu manter sua identidade de estado democrático, Sionista, em que a maioria Judaica conviveu com uma minoria não Judaica. A lei até concedia uma aparência de igualdade de direitos, apesar de, em realidade, as minorias Drusas, Muçulmanas e  Cristãs serem discriminadas e destituídas.

A lei do Estado-Nação estipulou que a partir de agora, mesmo a ilusão de igualdade coloca em risco a identidade Judaica de Israel. Chegou-se à uma situação absurda em que os próprios Judeus que batalham por democracia e direitos humanos, que majoritariamente acreditam em um Sionismo esclarecido e entendem o Estado como um arcabouço igualitário para maioria e minorias, agora dependem do sucesso da luta das minorias contra a (nova) lei.

A responsabilidade de restaurar para todos os cidadãos de Israel a democracia que está sendo perdida cabe ao governo e ao parlamento, não às minorias. Sem ela, não só as minorias perderão a filiação a Israel, mas a maioria Judaica se tornará estrangeira em seu próprio país.

(acesse aqui o artigo original)

Notas do Tradutor:

  1. Em explicação bem simplificada, o Sionismo é um movimento internacional surgido ao final do século 19, com o intuito original de se obter um Estado Judaico independente, que possibilitasse o retorno de judeus da diáspora, sendo que muitos deles sofriam constantes perseguições em diversas regiões  da Europa. Isto veio a ser alcançado em 1948, com a proposta de divisão da Palestina em dois Estados, um Judaico e outro Palestino. Tendências de direita e de esquerda, com diferentes visões dos direitos das minorias, compõem o movimento Sionista com suas contradições internas. Apenas o Estado de Israel  foi formado em 1948, sendo que só uma pequena parte da população Palestina pôde permanecer, tornando a maioria que se viu desalojada e compelida a fugir, refugiados a espera de uma nação própria. Uma situação de conflitos, que envolve aspectos complexos, permanece até os dias atuais, sendo fonte de constante instabilidade no Oriente Médio.

  2. O governo do primeiro ministro Benjamin Netanyahu conseguiu aprovar no parlamento Israelense, em 19 de julho, por maioria de 62 a 55 votos, a chamada Lei Básica do Estado-Nação, que especifica que Israel é o estado-nação apenas do povo Judaico, e que somente os judeus têm o direito à auto-determinação. Dentre as modificações introduzidas pela lei, a língua Árabe deixa de ser considerada como língua oficial,  que agora cabe apenas ao hebraico. A aprovação da Lei Básica recebeu ampla condenação internacional, inclusive de expressivos setores de judeus da diáspora em diversos países.

  3. Quando Israel foi fundado não foi adotada uma Constituição, devido a questionamentos vindos dos judeus ortodoxos. A Declaração de Independência anunciou a fundação do estado Judaico, nominalmente o Estado de Israel, democrático, e prometendo completa igualdade de direitos para todos os seus cidadãos, indistintamente. Ao contrário, a Lei Básica, agora com validade constitucional, não se refere à democracia nem à igualdade de seus cidadãos. Um Estado dos judeus, para os judeus, pelos judeus (acesse aqui, Uri Avnery, Bloco da Paz)

  4. Segundo Rafik Halabi, especialista em identidade Drusa, e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, a nova lei põe fim à ilusão de que havia um destino compartilhado entre os dois povos, irmãos em armas, um “contrato de sangue”. Ainda segundo o autor, os Drusos foram anteriormente deserdados de parte de suas terras, dificultados de construir nas terras remanescentes, e barrados em empregos nas empresas do governo. O Dr. Halabi acrescentou ainda que a Lei do Estado-Nação não afetou os Drusos, pois veio apenas criar o arcabouço legal para uma situação pré-existente. O país ficou, no entanto, “difamado perante as nações esclarecidas”. (acesse aqui o artigo original)

  5. Os líderes da comunidade Drusa procuraram o primeiro ministro Netanyahu para expressar seu descontentamento com a Lei Básica e cobrando direitos iguais para todos os cidadãos (acesse aqui, Haaretz, 27 de julho, 2018).

  6. Milhares de Drusos fizeram passeata, em protesto pacífico contra o Estado-Nação Judaico  (acesse aqui, Haaretz, 05 de agosto, 2018)

 

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