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Método que aposta no diálogo com pacientes psiquiátricos reduz uso de medicamentos

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Método que aposta no diálogo com pacientes psiquiátricos reduz uso de medicamentos

O diálogo, a escuta compreensiva e a valorização das experiências sócio-interacionais podem ser grandes aliadas do tratamento de pessoas que apresentam comportamentos psicóticos, favorecendo a redução do uso de medicamentos e a compreensão das causas do problema. Este é o fundamento do Diálogo Aberto, abordagem apresentada pelo psicólogo finlandês Jaakko Seikkula, no segundo dia do seminário internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas: Causas, Danos e Alternativas, realizado entre os dias 30 de outubro e 1 de novembro de 2017, na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz). O pesquisador abordou o comportamento psicótico e os atuais desafios para o tratamento, dizendo que o comportamento psicótico é mais comum do que se pensa.

“Não acredito na existência da psicose enquanto categoria clínica.  Não há nada que defina que essas pessoas que apresentam comportamentos psicóticos sejam qualitativamente diferentes das pessoas que não apresentam”, afirmou Jaakko. Ele defendeu que os sintomas psicóticos muitas vezes podem não estar associados a uma doença, mas a uma estratégia psicológica para enfrentar uma situação de estresse. “A psicose pode ser um comportamento reativo natural. O importante é entendê-la como uma reação a algo que aconteceu na vida do paciente, que, por não encontrar outros meios de lidar com aquilo, desencadeou aqueles sintomas”.

Uma abordagem clínica inadequada, segundo o pesquisador, pode prolongar os sintomas psicóticos. “A maioria dos tratamentos começa tardiamente. O nosso sistema de cuidados não está organizado de modo a tratar os pacientes precocemente. Geralmente, a pessoa fica psicótica dois ou três anos antes do primeiro diagnóstico. Dessa forma, a mente dela começa a criar estratégias de sobrevivência que, muitas vezes, a isolam”, explicou Jaakko. Ele observou que, além do diagnóstico tardio, muitos tratamentos partem de um entendimento inadequado da vida humana, o que pode levar a uma resposta insatisfatória do paciente. “É errado pensar que podemos reduzir os problemas mentais ao reduzir as funções mentais. Não é assim que nós seres humanos somos construídos. Somos construídos para viver em uma interação contínua com parte do nosso corpo, nossa mente e o ambiente social”, afirmou.

Pacientes retornam ao trabalho 

Essa visão de que o comportamento humano é um reflexo da interação social fundou, nos anos 90, uma nova forma de abordagem clínica do paciente psiquiátrico: o Diálogo Aberto. Por meio de uma escuta ativa e recíproca, o método tem como princípios ajudar imediatamente o paciente, na tentativa de evitar os diagnósticos tardios; a perspectiva em rede, em que psicólogos, pacientes, familiares e amigos interagem com vistas à condução do tratamento; a flexibilidade e a mobilidade, para adequar o tratamento a cada caso; e o dialogismo, que é apostar na escuta compreensiva e garantir que todas as vozes da rede sejam ouvidas.

Na abordagem do Diálogo Aberto, convida-se a família e outras redes sociais dos pacientes para aumentar os dados sobre ele e tentar compreender as origens das reações psicóticas. “Nos concentramos na geração de diálogo para fazer ouvir todas as vozes nas reuniões terapêuticas. Os clientes são abordados como seres humanos em sua plenitude e não como sintomas”, disse o pesquisador, explicando que o encontro pode ser conduzido por um terapeuta ou por todos.

 “De forma concreta, significa que quando alguém começa a apresentar ideias psicóticas em uma reunião, é necessário observar o problema mais importante relacionado a essa resposta de comportamento psicótico. O psicólogo para tudo, observa e, em seguida, pergunta: O que você disse? Você pode me ajudar a entender um pouco mais sobre o seu problema? Dessa forma, há um diálogo sobre este problema, no qual se tenta explorá-lo”, explicou Jaakko. O papel da medicação que altera o sistema nervoso central pode ser reduzido, o que, segundo o pesquisador, evita os efeitos nocivos dos remédios usados no tratamento de psicose e de depressão.

Uma pesquisa sobre a efetividade da abordagem do Diálogo Aberto em pacientes de Tornio, na Finlândia, mostrou que, em um período de cinco anos, 81% deles não apresentavam sintomas psicóticos persistentes e retornaram ao emprego integral. Citando o filósofo russo Mikhail Bakhtin, Jakko ressaltou a importância do diálogo na constituição do ser humano. “A vida humana é um diálogo aberto. Viver significa participar de um diálogo. Nele, as pessoas participam de forma completa com olhos, lábios, mãos, alma, espirito, corpo e ações. O diálogo é a primeira e última coisa que fazemos. O diálogo não é somente comunicação, é o processo pelo qual nos tornamos humanos em relação a outros, e em relação às respostas do outro”, concluiu Jakko. (Luiza Medeiros/CEE-Fiocruz)

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Diálogo com pacientes

tratamento ambulatorial e a Tragédia de Janaúba.

 

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O amor é lindo!

No caso da depressão. . .

No caso da depressão, um dos transtornos psiquiátricos mais comum, segundo um colega meu, em mais de 90% dos casos se deve a falta de dinheiro para a pessoa atender todos seus desejos de consumo, por isso o Brasil é um país de psicóticos.

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"A história da humanidade é a história das lutas de classes". Karl Marx

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André Rs t

o golpe quer trazer de volta

o golpe quer trazer de volta a prisão de diferentes como forma de isola Los da sociedade dos "normais"

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Serjão

Em tempos de mi$$hell, Frota e Bolsonaro

Até em seminários científicos o Brasil acelerado a caminho do atraso.

Método que aposta no Diálogo...um ótimo título para alguma conferência no ano da graça de 1877.

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Edna Baker

MARAVILHA. Vai demorar pelo

MARAVILHA. Vai demorar pelo menos, aqui no Brasil , um século até que os psicóticos sejam tratados dessa forma. SALVE a Finlândia!

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Grande novidade! O cara já ouviu falar de Freud?

Freud já sabia disso antes de 1900, nao é exatamente novo... Ora, ora.

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Antonio Victor

Você conhece a abordagem dele ?

Está pensando que basta sentar na frente de um psicótico e começar um alegre bate papo ? Não é assim que a coisa funciona, há técnicas específicas e cada linha tem a sua. Pra falar com conhecimento de causa tem que ler o que ele propõe. Não é só num breve artigo que se vai saber.

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Nao suponha tolice nos outros só porque vc é tolo...

Quem é que está levantando uma hipótese claramente falsa como essa?

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Abordagens novas

Tem sido nos últimos tempos recentes abordado este tema, incluindo o suicídio, por psiquiatras e médicos que se utilizam da terapias espiritualistas com relativo e crescente sucesso em seus tratamentos. Ver no Youtube.

Todos nós temos nestes tempos de concorrência materialista desenfreada (onde a grana & poder & mídia valem mais do que viver harmonicamente) a capacidade de desenvolver sintomas psiquiátricos ou tê-los adormecidos precisando uma "gota dágua"  para despertá-los.

Uma imagem pode ser visualizada: vivemos cercado de energia ( o universo é energia) que entra em nosso ser ( físico e mental) e se esta energia não fluir vai danificar alguns sensores de escape em nosso soma ( físico e mental) permitindo fluxos irregulares.

Hoje se diz que o mundo de 24 horas parece ter 16 horas - está mais rápido, invocam efeito Shuman.Alguns físicos contestam demonstrando que o relógio atômico está há anos corretíssimo e sem atrazos que validariam a proposição do tempo acelerado. Alguns dizem que a época em que vivemos, com o enaltecer do ter em vez do ser, a competição desenfreada, a destruição da família - imagine um pai de família desempregado; ou acidentado  e recebendo uma ninharia do INSS para a famíla sobreviver pagando colégio de filhos, condomínio, planos de saúde- .........será que esta hipocrisia moderna não contribui para acelerar estes sintomas ?

A proposta destes psiquiatras e de centros espíritualistas é de tratamento a base de conversação " fraterna", terapias e cirurgias  espirituais; e que tem se mostrado eficientes quando associadas aos tratamentos tradicionais conhecidos.O ser humano atual é carente e o melhor tratamento será ouvi-lo, dar atenção e compreensão e desejar que ele supere as dificuldades, pois assim a coletividade melhora e nos fazemos parte desta.

 

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MRE

"Tratamentos" espirituais até podem funcionar

Mas "pela tangente". Porque mexem com os significados inconscientes dos sujeitos.

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Ivan de Union

Sim, mas Freud lidava com

Sim, mas Freud lidava com problemas psicologicos e foi fundador da "ciencia" da Psicologia (e eu tenho varias razoes pra colocar essas aspas ai).

Problema psicologico nao eh problema psiquiatrico!

Isso dito, e mudando de assunto levemente...  lembro deum assassino em serie contando que  Tia Neiva "tinha conseguido" a liberdade dele, um assassino em serie -isso eh, ela foi testemunha pela liberdade ou coisa parecida.  Ele tinha sido policia militar que so matava pretos e pobres (nao vou poder dar detalhes, nem me lembro direito e isso foi ha mais de 40 anos atraz, meu irmao saberia mais se eu pudesse perguntar).  Eu conversei com o proprio uma vez, ou melhor, ouvi meu irmao conversando com ele, eu tinha 15 anos, o que vou adicionar a uma conversa dessas?

Sabe que eu nunca mais ouvi falar de "sociopata curado" em minha vida?  Muito pelo contrario:  hoje ate eu daria o kill order sem pestanejar, dormiria muitissimo bem, e ja teria dado varios se tivesse forum pra isso.

(Vou ter que parar, nao tenho permissao pra continuar!)

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Freud NAO fundou a Psicologia, fundou a PSICANÁLISE

Que é coisa completamente diferente... E NAO se pretende uma ciência. O que, segundo Lacan, seria impossível por princípio: um sujeito por princípio nao é um objeto, e ciências tratam de seus objetos.

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Problemas psiquiátricos sao sim problemas psicológicos

A diferença está na estrutura dos sujeitos. Os casos ditos psicológicos sao casos de sujeitos com estrutura neurótica, os ditos psiquiátricos sao de sujeitos com estrutura psicótica. Há ainda sujeitos com estrutura perversa (entre os quais vc pode incluir os sociopatas), mas esses raramente recorrem a qualquer tipo de tratamento. E todos os sintomas sao resultado de significados inconscientes.

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