Do blog de Gilberto Cruvinel
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-m’-ei dizendo a menos parte;
Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.

Fonte: Berardinelli, Cleonice, “Cinco séculos de sonetos portugueses: de Camões a Fernando Pessoa”, p.24,25; 1 ed., Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.
jns
26 de janeiro de 2014 11:47 pmpatativa do assaré
O poeta foi autodidata, leitor assíduo. Leu dos populares aos eruditos: Zé da Luz, Catulo da Paixão Cearense, Juvenal Galeno, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Olavo Bilac, Guimarães Passos, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade (embora não apreciasse a poesia desse autor, por não ter o recurso da rima) e outros. Teve especial apreço pela obra camoniana. Ele acrescenta: “Eu fui apenas alfabetizado. Agora fui um leitor assíduo, cuidadoso, curioso pra saber das coisas. Aprendi a ler, queria ler tudo. […] lia revista, jornal, os poetas da língua… até Camões, aquele Os Lusíadas.” E compõe:
‘Aqui de longínqua serra / De Camões o que direi? / Quer na paz ou quer na guerra / que ele foi grande eu bem sei / exaltou a sua terra mais do que seu próprio rei / e por isso é sempre novo no coração do seu povo / e eu, que das coisas terrestres tenho bem poucas noções / porque no tive dos mestres as preciosas lições / só tenho flores silvestres pra coroa de Camões / veja a minha pequenez ante o bardo português.’
Observa-se que nessa composição o poeta se mostra pequenino ante a grandeza do bardo português. A lista “longínqua serra, poucas noções das coisas terrestres, não teve dos mestres preciosas lições” pode querer expressar o extremo entre o imortal português e ele. Embora diga só ter “flores silvestres para coroa de Camões”, o poeta mostra-se à vontade e íntimo com as palavras. Talvez por isso, atrás da modéstia quase enganosa ou falsa, brinque com aqueles que o consideram “analfabeto”, ignorante das letras. A evidência de sua habilidade com a poesia clássica, especialmente com os decassílabos camonianos, pode ser conferida em muitas de suas composições.
Um exemplo clássico é seu “O purgatório, o inferno e o paraíso”.
Fonte: http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/conexao/article/viewFile/133/124
lenita
27 de janeiro de 2014 12:19 amPatativa
excelente post. Não conhecia esse trecho do Patativa s/ Camoões.
Obrigado
Gilberto Cruvinel
27 de janeiro de 2014 1:15 amDica preciosa
Obrigado pela dica preciosa, jns
Patativa também é um dos meus poetas prediletos e ler dele texto sobre Camões é realmente um achado.