5 de junho de 2026

Vinte e cinco de agosto, 1983, por Jorge Luis Borges

Por Jorge Luis Borges

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Enviado por Gilberto Cruvinel

Vi no relógio da pequena estação que já passavam das onze da noite. Fui caminhando até o hotel. Senti, como das outras vezes, a resignação e o alívio que os lugares muito conhecidos nos infundem. O largo portão estava aberto; a casa de campo, às escuras. Entrei no vestíbulo, cujos pálidos espelhos repetiam as plantas do salão. Curiosamente, o dono do hotel não me reconheceu e estendeu-me o livro de registro. Peguei a pena que estava presa à escrivaninha, molhei-a no tinteiro de bronze e, ao inclinar-me sobre o livro aberto, ocorreu a primeira surpresa das muitas que essa noite me depararia. Meu nome, Jorge Luis Borges, já estava escrito e a tinta, ainda fresca.

O dono disse-me:

– Pensei que o senhor já tivesse subido.

Depois, olhou-me bem e corrigiu-se:

– Desculpe. O outro se parece tanto, mas o senhor é mais jovem.

Perguntei-lhe:

– Em que quarto ele está?

– Pediu o 19 – foi a resposta.

Era o que eu temia.

Larguei a pena e subi correndo as escadas. O quarto 19 ficava no segundo andar e dava para um pobre pátio desmantelado em que havia uma varanda e, lembro-me, um banco de praça. Era o quarto mais alto do hotel. Abri a porta que cedeu. Não haviam  apagado   o lustre.  Sob  a  impiedosa  luz  eu  me reconheci. De costas na estreita cama de ferro, mais velho,  enfraquecido e muito pálido, estava eu, os olhos perdidos nas altas molduras de gesso. Veio-me a voz. Não era precisamente a minha;   mas   a   que   costumo   ouvir   em   minhas   gravações, ingrata e sem matizes.

– Que estranho – dizia –, somos dois e somos o mesmo.

Mas nada e estranho nos sonhos.

Perguntei assustado:

– Então, tudo isto é um sonho?

– É, tenho certeza, meu último sonho.

Com a mão mostrou o frasco vazio sobre o mármore da mesinha-de-cabeceira.

Você terá, entretanto, muito com que sonhar, antes de chegar a esta noite. Em que dia você está?

– Não sei muito bem – disse-lhe aturdido. – Mas ontem fiz sessenta e um anos.

– Quando sua vigília chegar a esta noite, você terá feito, ontem, oitenta e quatro. Hoje estamos em 25 de agosto de 1983.

– Terei de esperar muitos anos – murmurei.

– Para mim já nada me resta – disse ele bruscamente.

– Posso   morrer   a   qualquer   momento,   posso   perder-me naquilo que não sei e continuo sonhando com o duplo. O fatigado tema que me deram os espelhos e Stevenson.

Senti que a evocação de Stevenson era uma despedida e não uma atitude pedante. Eu era ele e compreendia. Não bastam os momentos mais dramáticos para ser Shakespeare e dar com frases memoráveis. Para distraí-lo, disse-lhe:

– Sabia que isso ia acontecer com você. Aqui mesmo há anos, em um dos quartos abaixo, iniciamos o rascunho da história deste suicídio.

–   Sim   –   respondeu-me   lentamente,   como   se   amealhasse recordações, Mas não vejo relação. Naquele rascunho eu havia comprado uma passagem de ida para Adrogué, e já no hotel Las Delicias havia subido até o quarto 19, o mais afastado de todos. Ali eu me suicidara.

– Por isso estou aqui – disse-lhe.

– Aqui? Sempre estamos aqui. Aqui o estou sonhando na casa da rua Maipú. Aqui estou indo embora, no quarto que foi da mãe.

– Que foi da mãe – repeti, sem querer entender. – Eu sonho com você no quarto 19, no pátio de cima.

– Quem sonha com quem? Eu sei que sonho com você,  mas   não   sei   se   você   está   sonhando   comigo.   O   hotel   de Adrogué foi demolido já faz tantos anos, vinte, talvez trinta.

Quem sabe quantos.

– O sonhador sou eu – repliquei com certo desafio.

– Você não se dá conta de que o fundamental é averiguar se há um único  homem sonhando ou dois que  sonham  um com o outro.

– Eu sou Borges, que viu seu nome no livro de registro e subiu.

– Borges   sou   eu,   que   estou   morrendo   na   rua   Maipú.

Houve um silêncio, o outro disse-me:

– Vamos fazer a prova. Qual foi o momento mais terrível de nossa vida?

Inclinei-me sobre ele e ambos falamos ao mesmo tempo. Sei que nós dois mentimos.

Um   tênue   sorriso   iluminou   o   rosto   envelhecido. Senti que, de algum modo, esse sorriso refletia o meu.

– Nós mentimos um para o outro – disse-me ele – porque nos sentimos dois e não um. A verdade é que somos dois e somos um.

Essa conversa me irritava. Foi o que eu lhe disse.

Acrescentei:

– E você, em 1983, não vai revelar-me nada sobre os anos que me faltam?

– O que posso dizer-lhe, pobre Borges? Repetir-se-ão as desgraças às  quais você já está acostumado. Ficará sozinho nesta casa. Tocará  nos   livros sem letras  e  no medalhão   de Swedenborg e na bandeja de madeira com a Cruz Federal. A cegueira não é a treva; é uma forma de solidão. Você voltará à Islândia.

– A Islândia! A Islândia dos mares!

– Em Roma, você repetirá os versos de Keats, cujo nome, como o de todos, foi escrito na água.

– Nunca estive em Roma.

– Há outras coisas também. Você escreverá nosso melhor poema, que será uma elegia.

– À morte de… – disse eu. Não me atrevi a dizer o nome.

– Não. Ela viverá mais do que você.

Ficamos em silêncio. Prosseguiu:

– Você   escreverá   o   livro   com   o   qual   sonhamos   tanto tempo. Por volta de 1979, você compreenderá que sua suposta obra   é   apenas   uma  série   de   rascunhos,  uma  miscelânea   de rascunhos, e você cederá à vã e supersticiosa tentação de escrever seu grande livro. A superstição que nos infligiu o Fausto de Goethe, Salammbô, o Ulysses. Inacreditavelmente, enchi muitas páginas.

–  E, afinal você compreendeu que havia fracassado.

– Algo pior. Compreendi que era uma obra-prima no sentido  mais  opressivo  da   palavra.   Minhas   boas   intenções   não haviam  passado  das  primeiras   páginas;  nas   demais  estavam os labirintos, as facas, o homem que se crê uma imagem, o reflexo que se crê verdadeiro, o tigre das noites, as batalhas que retornam ao sangue, Juan Muraria cego e fatal, a voz de Macedonio, a nave feita com as unhas dos mortos, o inglês antigo repetido durante as tardes.

– Esse museu me é familiar – observei com ironia.

– Além disso, as falsas recordações, o duplo jogo dos símbolos, as longas enumerações, o bom manejo do prosaísmo, as simetrias imperfeitas que os críticos descobrem com estardalhaço, as citações nem sempre apócrifas.

– Você publicou esse livro?

– Brinquei, sem convicção, com o melodramático propósito de   destruí-lo,   talvez   pelo fogo. Acabei   publicando-o em Madri,  sob  pseudônimo.  Falou-se  de  um   inábil  imitador  de Borges, que tinha o defeito de não ser Borges e de haver repetido o aspecto exterior do modelo.

– Isso não me surpreende – disse eu. – Todo escritor acaba sendo seu discípulo menos inteligente.

– Esse livro foi um dos caminhos que me conduziram a esta noite. Quanto aos demais… A humilhação da velhice, a convicção de já haver vivido cada dia…

– Não escreverei esse livro – disse.

– Você vai escrevê-lo. Minhas palavras, que agora são o presente, serão apenas a memória de um sonho.

Incomodou-me seu tom dogmático, sem dúvida o mesmo que uso em minhas aulas. Incomodou-me que nos parecêssemos tanto e que ele se aproveitasse da impunidade que a iminência da morte lhe propiciava. Para revidar, disse-lhe:

– Você tem tanta certeza de que vai morrer?

– Sim – replicou. – Sinto uma espécie de doçura e de alívio que nunca senti. Nem posso expressá-lo.  Todas as palavras requerem uma experiência compartilhada. Por que o que digo parece incomodá-lo tanto?

–  Porque nos parecemos demais. Detesto sua cara, que é minha caricatura, detesto sua voz, que é arremedo da minha, detesto sua sintaxe patética, que é a minha.

– Eu também – disse o outro. – Por isso resolvi suicidar-me.

Um pássaro cantou lá na casa de campo.

– É o último – disse o outro.

Com um gesto, chamou-me para seu lado. Sua mão procurou a minha. Recuei; temi que as duas se confundissem.

Disse-me:

– Os  estóicos  ensinam  que  não   devemos   queixar-nos  da vida;  a porta  da prisão está aberta. Sempre entendi assim,  mas a preguiça e a covardia me detiveram. Há uns doze dias, eu estava dando uma conferência em La Plata sobre o Livro VI da Eneida. De repente, ao escandir um hexâmetro, descobri qual era meu caminho. Tomei esta decisão. A partir daquele momento,   senti-me   invulnerável.   Minha   sorte   será   a   sua,  

você receberá a inesperada revelação, em meio ao latim e a Virgílio, e já terá esquecido inteiramente este curioso diálogo profético, que transcorre em dois tempos e em dois lugares.  Quando voltar a sonhar com isso, você será o que eu sou e você será meu sonho.

– Não esquecerei isso e vou escrevê-lo amanhã.

– Ficará   no   fundo   de   sua   memória,   debaixo   da   maré dos sonhos. Quando você  o   escrever,  pensará  estar urdindo um   conto   fantástico.   Não   será   amanhã,   ainda   lhe   faltam muitos anos.

Parou de  falar,  compreendi que  havia  morrido. De certo modo eu morria com ele; inclinei-me angustiado sobre o travesseiro e já não havia ninguém. Fugi do quarto. Do lado de fora não havia o pátio, nem as escadas de mármore, nem a grande casa silenciosa, nem os eucaliptos, nem as estátuas, nem o caramanchão, nem os chafarizes, nem o portão da grade da casa de campo no povoado de Adrogué.

Fora outros sonhos esperavam-me.

 

………………………………………………………………………………………………………………

Jorge Luis Borges, “A Memória de Shakespeare”, Obras Completas, volume III, ©1998 by Maria Kodama Copyright ©1998 das traduções by Editora Globo S.A. . Tradução de Bella Jozef. Edição baseada em: Jorge Luis Borges – Obras Completas, publicada por Emecé Editores S.A., 1989, Barcelona – Espanha.

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  1. Marcos Luiz Ribeiro de Barros

    10 de setembro de 2016 12:36 pm

    Genial. Mágico. Um dos

    Genial. Mágico. Um dos melhores escritores do Mundo!

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