20 de junho de 2026

Entrevista com Anita Leocádia Prestes


Anita Prestes (no alto). De volta do exílio, passeando com o pai, L.C. Prestes, e a infância sem a mãe, Olga Benário Prestes (abaixo).

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

https://www.youtube.com/watch?v=kUA32E5z0bU align:center]
OLGA BENÁRIO PRESTES


Olga Gutmann Benário (na última fileira) com a Liga Juvenil Comunista na Alemanha.

Olga Gutmann Benário nasceu em Munique, na Alemanha, em 1908, numa família judia de classe média. Ingressou ainda jovem no movimento comunista, em 1923, com apenas quinze anos, juntando-se a organização juvenil do Partido Comunista Alemão (KPD), a Liga Juvenil Comunista da Alemanha (KJVD). Pouco depois, mudou-se para Berlim com o então namorado Otto Braun, experiente militante comunista. Membro do Partido Comunista alemão desde 1926, Olga foi acusada de atividades subversivas e presa em 1929. Depois de libertada, foi para a União Soviética, onde passou a trabalhar na Internacional Comunista e conheceu Luís Carlos Prestes, importante líder revolucionário brasileiro. Olga fez parte do grupo de estrangeiros destacados para acompanhar Prestes em seu retorno ao Brasil. Prestes deveria liderar uma insurreição armada que instalasse um governo revolucionário. Olga e Prestes chegaram ao Brasil em abril de 1935 e viveram meses na clandestinidade. Na época, o nome de Prestes era aclamado nas manifestações populares promovidas pela ANL (Aliança Nacional Libertadora), frente antifascista que reunia diversos setores de esquerda, entre eles os comunistas. Em novembro de 1935, um levante armado aconteceu na cidade de Natal, e Prestes ordenou que a insurreição fosse estendida ao resto do país. O apoio militar prometido a Prestes não foi concretizado. Apenas algumas unidades de Recife e do Rio de Janeiro se levantaram contra o governo brasileiro, que rapidamente controlou a situação, reprimiu e prendeu oposicionistas e revolucionários.  Durante alguns meses, Olga e Prestes mantiveram-se na clandestinidade, até que, em março de 1936, foram capturados pela polícia. Mesmo grávida, Olga foi deportada para a Alemanha nazista seis meses depois. A deportação de Olga Benário Prestes e Elise Ewert, ambas militantes comunistas alemãs. Olga foi enviada para um campo de concentração, onde deu à luz Anita Leocádia Prestes.  Olga seria transferida para outra prisão, em condições muito piores, e mais tarde para o campo de concentração de Ravensbruck. Em abril de 1942, era assassinada numa câmara de gás no campo de Bernburg. Segundo os testemunhos de companheiras do campo de concentração, Olga jamais se entregou ao desespero nem ao conformismo, lutou até o último momento de sua curta vida, infundindo coragem e confiança no futuro em todos aqueles que a rodeavam. 

A PRISÃO DE OLGA E LUÍS CARLOS PRESTE NO RIO DE JANEIRO, 1936

https://www.youtube.com/watch?v=eaF0euutVxs align:center

CARTA INÉDITA DE OLGA BENÁRIO PRESTES À ERMELINDA FELIZARDO (Avó de Luís Carlos Prestes)*


Casa de Detenção – Rio de Janeiro, 12/8/36

Dª. Ermelinda.

Afetuosos cumprimentos.

Conhecendo-a há bastante tempo, pelas muitas vezes que o Carlos se tem referido a seu nome, resolvi escrever-lhe, não só para lhe dar notícias nossas, como também para iniciarmos as nossas relações mais íntimas, pois tenho a esperança que nós ainda nos encontraremos e mesmo que a senhora irá conhecer o seu bisneto.
Quero dar-lhe notícias nossas, somente as principais, pois será difícil descrever-lhe todos os incidentes dos nossos longos meses de prisão. Numa das vezes em que fui chamada à Polícia Central, o Dr. Belens Porto, encarregado do inquérito, me disse que a Senhora havia escrito uma carta ao Carlos. Não sei, porém, se tal carta terá chegado às mãos do destinatário, nem se a Polícia terá permitido que ele respondesse.
O Carlos continua no quartel da Polícia Especial, numa incomunicabilidade completa, que já dura há mais de 5 meses. As autoridades não consentem que ele leia jornais e nem mesmo livros. Ele se encontra isolado, numa sala, a porta daquela ficando sempre aberta, para permitir aos guardas uma vigilância permanente. – A Senhora poderá bem imaginar quanta energia deve custar ao Carlos enfrentar todas estas torturas morais. – Talvez os antigos companheiros e amigos do Carlos possam auxiliar no sentido de que pelo menos livros e revistas lhe sejam entregues.
Da Europa, D. Leocadia já me escreveu, mas sob o pretexto de minha incomunicabilidade, a Polícia impediu a entrega da carta, como também não tive a possibilidade de escrever-lhe. Soube, porém, que ela tem desenvolvido uma grande atividade no sentido da defesa do Carlos.
Quanto a mim, estou, nestes últimos tempos, mais confortada pela presença de várias companheiras de prisão, que já se tornaram minhas amigas. No começo estive também incomunicável. Ultimamente, porém, fui transferida para a sala das mulheres, presas políticas, na Casa da Detenção. Assim é que vim a conhecer entre outras, a Rosa, irmã do Silo, e a Maria Werneck, cujo marido está também preso e que descende de uma família gaúcha.
De saúde, tenho tido bastantes abalos, provocados de um lado pela gravidez (agora já no sétimo mês) devido às condições da prisão, como ainda mais pelas aflições que me dá a inquietude sobre o estado do Carlos. Até hoje e depois da nossa prisão não tive a possibilidade de vê-lo e só recebi algumas cartas dele, em que falava do nosso filho e das providências relativas à nossa defesa.
Corre um processo de expulsão contra mim, por ter eu nascido no estrangeiro. Numa de suas cartas o Carlos comenta este passo do Governo da seguinte maneira: “Tu compreendes que o teu processo de expulsão é a forma jurídica encontrada pelo atual governo para tornar efetivo mais um ato de perseguição política contra mim… Preciso assistir com coragem aos golpes que, impotentes para assestarem diretamente contra mim, dirigem contra as pessoas a quem dedico o meu maior afeto.”
Enfrentando tais perseguições absurdas e diante dos golpes da reação, asseguro à Senhora que, com a mesma coragem com que anteriormente acompanhei o Carlos na luta, mostrar-me-ei, agora, digna do nome dele.
A respeito da minha expulsão, estou confiante que a simpatia pública impeça este ato completamente fora da lei e espero que darei à luz ao filho do Carlos aqui em terra brasileira.
Era o que de essencial eu tinha a dizer nessa primeira carta, que lhe escrevo.
Queira receber um afetuoso abraço de sua neta
Maria**

*Carta escrita na Casa de Detenção (RJ), onde Olga estava presa desde março de 1936, antes de ser extraditada para a Alemanha nazista pelo governo de Getúlio Vargas, em setembro daquele ano, no sétimo mês de gravidez.
**Olga nunca reconheceu, perante a polícia, seu verdadeiro nome e sua verdadeira nacionalidade; com firmeza revolucionária, reafirmou sempre o nome que constava no passaporte – Maria Vilar.
Arquivo Alfredo Felizardo (RS)

Instituto Luiz Carlos Prestes
_
__

COMÍCIO DO PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO EM SÃO PAULO, 1945


Grande comício do PCB com mais de 80 mil pessoas, em 1945, no Pacaembu/SP, realizado por Luís Carlos Prestes na presença de Pablo Neruda. Prestes foi eleito senador de 1946 a 1948, quando o registro do Partido Comunista foi cassado, voltou à clandestinidade.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=kUKJMdCdynA align:center
___
Créditos: WikiOlga Benário (1908-1942) 
Fotomontagens: Do autor/Internet
___

Jota Botelho

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

4 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Oráculo

    23 de abril de 2015 9:49 pm

    Um vídeo precioso

    Anita Leocádia dá uma senhora lição de história do Brasil. Não é à toa que ela é historiadora. Que bom que ela tenha escapado da fúria dos nazistas.

    Como é bom ouvir as pessoas falarem a verdade, mesmo aquelas pessoas com as quais não nos afinamos ideologicamente. Este vídeo (Anita Leocádia Prestes, uma entrevista) é uma preciosidade. Vou arquivá-lo com carinho.

  2. bfcosta

    24 de abril de 2015 12:00 am

    cuidado ao citar a wikipédia !!

    Ultimamente, tem havido uma onda recente de contribuições de usuários de extrema direita na wikipédia, sendo que a mesma não tem dado a devida atenção ao problema que eles mesmos reconhecem existir e que chamam de Civil Pov-pushing (algo como empurrar um ponto de vista não neutro). Leiam com cuidado o que tenha sido dito sobre Olga na wikipédia e sempre vejam se existe alguma controvérsia colocada na página de discussão. Um dos exemplos mais grotescos do que estou citando é este artigo aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/A%C3%A7%C3%B5es_da_KGB_no_Brasil

    1. Jota A. Botelho

      24 de abril de 2015 3:12 pm

      Estou sabendo, pode ser um fato verdadeiro…

      e todo cuidado é pouco, mas mesmo assim, obrigado meu amigo. A Wiki foi usada apenas para alguns complementos, nada mais. Embora a Wikipédia foi uma das grandes criações na internet e tem pessoas seríssimas trabalhando nela, apesar das denúncias as quais você se referiu, realizadas por ‘piratas’ mal-intencionados. Mas o não menos importante é a entrevista da filha de Olga, Anita Prestes, que merece todo o nosso carinho. Um grande abraço.

      PS.: Não quis me estender na matéria, pois os profissionais do GGN já haviam noticiado a data da morte de Olga, mas, no entanto, existe diversos sites e blogs na internet, sobretudo dos comunistas (nada melhor do que eles para tratar do assunto) que os mais interessados podem pesquisar com mais profundidade.

       

       

  3. Mara L. Baraúna

    24 de abril de 2015 3:12 am

    Bela homenagem

    Parabéns pela lembrança da data da morte de Olga! Homenagens a ela sempre serão importantes, como é importante divulgar a trajetória dessa mulher!

Recomendados para você

Recomendados