17 de junho de 2026

Velho e desdentado, mas com vontade de morder

Há uns dez anos, briguei com um amigo quando ele me disse algo neste mesmo estilo, mas acho que estou ficando velho. Acho que estou chegando à mesma condição que o Beethoven no concerto em Ré maior para violino, que podia celebrar o fim do velho mundo com a chegada das tropas revolucionárias do Napoleão à Alemanha e, ao mesmo tempo, lamentar a perda de tudo o que o aquele mundo tinha de gentil e cortês.

O velho mundo, hoje, tem muito pouco e cada vez menos de gentil e cortês e, ao contrário, tem muito e cada vez mais de selvagem e grosseiro. Comparado ao mundo cuja perda Beethoven celebrava e lamentava, o nosso só dá motivos de lamento, e a vida de quase todos (e, por osmose solidária, a de todos) é nele ainda mais “solitária, pobre, repelente, brutal e breve” do que o Hobbes imaginava ser a do homem das cavernas.

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Algumas coisas, porém, como as coreografias do Jirí Kylián, algo da música do Steve Reich ou do Philip Glass, a música popular latinoamericana, o Steve Marriott cantando “Black Coffee” ou o Saramago descrevendo o mundo em “Viagem a Portugal” e as ladeiras ainda humanas de Lisboa, valem a pena viver para serem vistas. Assim como as muralhas de Cartagena e a Acrópole, monumentos de um mundo ainda mais antigo que hoje, até na sua “conservação”, está sendo apagado da memória dos homens.

Esse ex-amigo talvez tenha sido um pouco mais leniente consigo mesmo e com o mundo do que eu estaria disposto a tolerar, mas hoje posso dizer que, mesmo não estando de acordo com o que ele disse, posso entender por que o disse. Não vou, como ele, “usar o que me resta de vida para desfrutar de todo o pouco que este mundo ainda tem a oferecer”, mas faço questão de usar o tempo que me resta para ver o máximo do que ainda é belo. Até, talvez (me engana que eu gosto?), para que o contraste com o lixo esmagador de todo o resto me faça ficar um pouco menos dividido do que o Beethoven quando o fim do mundo chegar.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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