O velho mundo, hoje, tem muito pouco e cada vez menos de gentil e cortês e, ao contrário, tem muito e cada vez mais de selvagem e grosseiro. Comparado ao mundo cuja perda Beethoven celebrava e lamentava, o nosso só dá motivos de lamento, e a vida de quase todos (e, por osmose solidária, a de todos) é nele ainda mais “solitária, pobre, repelente, brutal e breve” do que o Hobbes imaginava ser a do homem das cavernas.
Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo
Seguir no Google
Algumas coisas, porém, como as coreografias do Jirí Kylián, algo da música do Steve Reich ou do Philip Glass, a música popular latinoamericana, o Steve Marriott cantando “Black Coffee” ou o Saramago descrevendo o mundo em “Viagem a Portugal” e as ladeiras ainda humanas de Lisboa, valem a pena viver para serem vistas. Assim como as muralhas de Cartagena e a Acrópole, monumentos de um mundo ainda mais antigo que hoje, até na sua “conservação”, está sendo apagado da memória dos homens.
Esse ex-amigo talvez tenha sido um pouco mais leniente consigo mesmo e com o mundo do que eu estaria disposto a tolerar, mas hoje posso dizer que, mesmo não estando de acordo com o que ele disse, posso entender por que o disse. Não vou, como ele, “usar o que me resta de vida para desfrutar de todo o pouco que este mundo ainda tem a oferecer”, mas faço questão de usar o tempo que me resta para ver o máximo do que ainda é belo. Até, talvez (me engana que eu gosto?), para que o contraste com o lixo esmagador de todo o resto me faça ficar um pouco menos dividido do que o Beethoven quando o fim do mundo chegar.
Deixe um comentário