
VERTIGEM
Deu que naquela noite o eletricista tocou a campainha às 7 da noite.
Esquecera ela que o chamara para uma conserto urgente, logo pela manhã.
Ao abrir a porta, já meio lá meio cá, que bebera uns bons 2 copos de vinho tinto forte, surpreendeu-se: não era o cavaleiro das matas que viera com seu cavalo levá-la embora para aquela nuvem? Estaria bêbada então?
Olhou para o homem decepcionada, abriu a porta e encaminhou-o quase sem palavras ao serviço a executar.
Ele começou.
Enquanto isso, voltou para sua ágora diária a discutir cidadania com cidadãos gregos por sua Paideia imaginária.
O homem lá, entre fios, chaves de fenda, alicates, desfazendo e refazendo um circuito inteiro.

Em lua sobre lá que signo, a mulher aguardava lá e cá pela finalização do conserto e de um concerto, que ora ouvia também.
Foram assim, um com seus fios reparando a energia, e outra, com outros fios, tecendo as suas energias vitais.
Dado um tempo, encaminhou-se ele a ágora da mulher e reparou no que esta ouvia ali, no que via ali, no que lia ali.
Deslumbrado com aquilo tudo, que era homem simples – rude não – perguntou-lhe “ Quem fez isso que a senhora está vendo e ouvindo aí?” Respondeu do que se tratava, quem fizera, como fizera e quando, explicando-lhe em mínimos detalhes.
– Meu Deus, mas isso é muito lindo. Uma pessoa pra fazer uma coisa bonita dessas tem que ter muito tempo, né. Nem deve precisar trabalhar pra sustentar uma casa. Porque a senhora sabe, a gente acha tudo isso muito bonito, mas não tem tempo de ver nada disso acontecendo. A gente nem sabe que isso existe. A senhora é que é feliz.
“Sou mesmo, seu Inácio” – respondeu ela ao eletricista.
Pagou-lhe o serviço. Ele se foi. Mas pagou bem pouco ! Porque naquela noite, assim tão singelamente, ele havia dado a ela um dos mais belos presentes de sua vida.
Ele lhe entregara de volta a sua FELICIDADE!
Odonir Oliveira
https://www.youtube.com/watch?v=vqmn1YU3BsE
Odonir Oliveira
10 de setembro de 2015 6:39 pmA polêmica dos signos
Circula na internet a notícia de que uma mudança nas constelações alterou o signo de nascimento de cada um de nós. Balela e explico por que
Por Oscar Quiroga
A internet é uma representação menor de como funciona o Cosmo – infinito em que tudo se movimenta e acontece. Digo isso porque da mesma forma como ocorre no Cosmo, as informações virtuais vêm em ondas e retornam em ciclos, nos dando a oportunidade de consolidar o conhecimento que realmente vale a pena e de rejeitar aquilo que se comprove falso.
Quantas informações já atraíram sua atenção para depois você verificar a falsidade delas? Atualmente, voltou a bombar na rede uma nota originária, aparentemente, de meios científicos – o astronômico em particular – afirmando que, pelos cálculos atuais, a data de entrada e saída dos signos estaria toda errada e que, por isso, você teria nascido em um signo diferente daquele que a astrologia ocidental diz.
Pois bem, vou ajudar você a desintegrar definitivamente essa ideia mal-intencionada. Por falta de pesquisa, o que é um desleixo para um meio que se gaba de científico, confunde-se o zodíaco dos signos com o zodíaco das constelações – dediquei um capítulo de meu livro Astrologia Real (ed. Rocco) para esclarecer esse tema. Em primeiro lugar, é necessário entender o que é o zodíaco. Todos os planetas do nosso sistema solar, menos Plutão, que tem uma órbita diferente, giram ao redor do Sol sempre na mesma faixa do espaço sideral. É a essa faixa que chamamos de zodíaco. Do ponto de vista de nossa observação no planeta Terra, determina-se que o início do zodíaco seja o dia 20 de março, quando acontece o equinócio de primavera no hemisfério norte e o de outono no sul. A partir deste momento começa o signo de Áries e, então, divide-se o céu em doze partes iguais. Por que doze? Aqui entram em jogo as constelações. No pano de fundo dessa faixa do céu – o zodíaco dos signos –, encontram-se as doze constelações que emprestam o nome a cada um dos signos. No entanto, diferente do zodíaco dos signos, uns iguais aos outros em tamanho, as constelações são agrupamentos de estrelas de tamanhos irregulares. Portanto, signos e constelações nunca coincidirão totalmente.
Por esse motivo, a notícia de que, de acordo com cálculos astronômicos, os signos estariam todos errados é enganosa. O cálculo do início e fim dos signos é feito de acordo com as estações no planeta Terra, e a posição de cada signo é fixa. Como a Terra se movimenta constantemente e de inúmeras maneiras, as constelações ficam defasadas em relação aos signos. Mas em astrologia, isso é tido em conta. Então, não se preocupe; nós, astrólogos, cuidamos bem do saber que servirá para orientar você. Seu signo está muito bem calculado. Ah!, dizem por aí também que não haveria doze constelações, mas treze, porque entre a de Escorpião e a de Sagitário haveria a constelação do Serpentário, agregando mais um signo ao zodíaco. Balela. As constelações que emprestam seus nomes aos signos correm paralelas ao zodíaco e se encontram dentro dessa faixa. E a do Serpentário a atravessa perpendicularmente. Fim do engano.
http://bonsfluidos.uol.com.br/noticias/espiritualidade/a-polemica-dos-signos.phtml#.VfEdExFVhBc
Odonir Oliveira
10 de setembro de 2015 9:11 pm” Não hei de ver envelhecer meu coração…”
[video:https://www.youtube.com/watch?v=e9aQ3NK2arI%5D
Odonir Oliveira
10 de setembro de 2015 9:51 pmESSA MANIA
[video:https://www.youtube.com/watch?v=7ilinqMBZYo%5D
ESSA MANIA
Mart’nália e Moska
Hoje o meu coração mudou
Já não sei porque vim, quem sou
Mas sinto e sou capaz
E o resto tanto faz
Foi só eu descansar
Junto ao pé de uma árvore que me acolheu
E depois me ocorreu
Vi que a vida que vivia em mim
Agora vive aqui nesse lugar
Em volta das sombras
Essa ilha é a reunião das infinitas direções
Que o vento traz com as ondas
E é quando me vejo a garimpar
As pedras, a montanha, o seu olhar
Essa mania, essa mania, essa mania
Essa mania de viver
Apesar de saber
Que nem tudo que eu quis eu pude conhecer
Nem deu pra mais prazer
Se cheguei até aqui
Bem no topo do vulcão, não posso mais descer
Mas tem como escorrer
Porque a natureza do amor
Esta contida na beleza e na surpresa das manhãs
Dias que parecem tão iguais
Mas de repente têm sinais de uma nova magia
Depois desse encontro singular
O Mato, o rum, o vinho, o mel e o mar
Essa menina, essa menina, essa menina
Essa menina vem me dizer
Essa mania, essa mania, essa mania
Essa mania de viver
Rest la maloya, Rest la maloya, Rest la maloya, Rest la maloya
Rest là-même
Odonir Oliveira
11 de setembro de 2015 5:54 pmUm doce de pimenta
[video:https://www.youtube.com/watch?v=1n8R9xEy5LU%5D
Odonir Oliveira
11 de setembro de 2015 7:18 pmThis comment has been deleted.
Odonir Oliveira
11 de setembro de 2015 11:20 pmThis comment has been deleted.
Odonir Oliveira
16 de setembro de 2015 2:58 pmEu deleto, tu deletas, ele deleta, nós deletamos, vós deletais,
eles deletam.
Odonir Oliveira
16 de setembro de 2015 3:01 pmAmores trôpegos, borboletas que se dão
[video:https://www.youtube.com/watch?v=hst9QDXdlds%5D
Vânia
10 de setembro de 2015 9:13 pmPor pouco não sou virgem… sou do Erê !
Odonir Oliveira
10 de setembro de 2015 9:15 pmObrigada, Vânia
Sou carioca da gema também.
Vânia
10 de setembro de 2015 9:29 pmTambém?
Também, nada… Eu sou carioca só de coração 🙂
Anna Dutra
11 de setembro de 2015 2:35 amNas Estrelas
[video:https://www.youtube.com/watch?v=I-Ta53RSRK8%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=6Fx5CHMwWDU%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=N9oq_IskRIg%5D
E a que eu adoro, daquele “filminho” (sim, eu não sou sofisticada!) chamado Crepúsculo. Bela garota!
[video:https://www.youtube.com/watch?v=EGn8dxochbQ%5D
Odonir Oliveira
11 de setembro de 2015 5:23 pmDo Êxtase à Vertigem
ÊXTASE
Tocam a campainha. Quem seria naquele momento tão especial. Não poderia abrir a porta naqueles trajes, com aquela expressão inequívoca no rosto, descendo-lhe dos olhos à boca qual um derramamento incontrolável.
Era ele que lhe entregava sofregamente um toque na nuca, um gesto suave no cotovelo, um ralar de suspiros anteriores. Era ele. E agora ter que abrir a porta assim de repente.
Por que interromper aquele ritual quase fluído de sonhadora presença? Por que quebrar o par mágico da situação inesperada com um toque de campainha? Por que deixar de auscultar-lhe o peito e saber-lhe a respiração? Por que desgrudar-se do onírico, da ideia, da sensação suprema?
Ora, atender a campainha. Quem poderia trazer notícia melhor, quem poderia derramar-lhe outros embevecimentos? Quem no roçar de pelos saberia adivinhar seus excessos e devaneios naquele momento em evolução? Quem no emudecimento das explicações estaria ali fora a tocar aquela campainha? Não importava quem fosse, seria menor. Seria pior. Seria insuficiente.
Do meio do corredor até ao sofá, ouviu uma, duas , três vezes a campainha. Resolveu não deixar entrar ali nada que fosse inferior a ele em si mesma. O bônus reiterava o prazer, a satisfação com a visita etérea do corpo magro e retilíneo a lhe pressionar todos os músculos.
Quem poderia ser melhor que aquilo que sentia em seu corpo naquele instante?
A insignificância de se estar com.
Além, a plenitude da ideia, o apreço pela invenção, a graça pela fantasia. Elementos complexos e sem filtro da razão.
Que tocasse a campainha mil vezes que do sonho não sairia por nada.
Depois de algum tempo, olha pela janela e descobre que fora ele, o cavaleiro da fantasia, que estivera ali tocando duas, três vezes a campainha.
VERTIGEM
Acordara bem cedo. A noite havia sido curta. Encontrara-se pela madrugada de uma, duas ou três maneiras com ele. Em uma delas perdera a respiração como que engasgada e numa apneia orgástica, sufocara.
Água fria, não gelada para não espantar de todo o companheiro de viagem que a cama ainda estava quente.
Computador, músicas, leituras, versos, notícias. Vontade de dormir a continuação daquele sonho anterior. Não daria que Virgínia era exigente pra cacete. Em sua boca só palavras de alto calão. Em sonhos… em sonhos…outras palavras.
Voltou pra cama em olhos fechados e imagens distorcidas.
Tudo lhe vinha misturado agora; muitas figuras, muitas vozes, de Dioniso um aviso, acorda, acorda. De Morfeu outra, dorme, dorme . Afrodite ainda, fica, fica, espera, espera, chove, chove, chove, fica.
Confusão etílica de vinho tinto bom. Queijos pouco aprovados que desejava apenas a companhia de seus deuses hoje, ontem, amanhã.
De pé de novo, escreve. Escreve não, pois que psicografa dez poemas, uma crônica, uma ode, dois recados e uma apelo.
Exílios, ainda sem forma e estilo. Psicografa.
exílios voluntários; exílio de coxas quentes; exílio de costas largas; exílio de pés enormes; exílio de mãos atrevidas; exílio de ventre berço; exílio de braços laços; exílio de membro aderente; exílio de pescoço salgado;exílio de orelhas atraentes; exílio de olhos mudos; exílio de cabelos outros; exílio de língua sonora; exílio de lábios profanos; exílio de boca sagrada; exílio de corpos nus; exílio de corpos nós; exílio de medos; exílio de gozo;exílio de tantos.
Não consegue mais dormir. Precisa dormir. Não sabe mais a quem ouvir se a Safo, a Baco, a Dioniso, a Afrodite ou até até mesmo a Zeus, ó pai.
Tem visões alucinadas de estradas, automóveis, flores, barcos, trens, vozes surdas, convites vagos, interpretações múltiplas. Estaria Virgínia enlouquecendo com aquele jogo de dá e toma dos deuses, com aquelas gestalts interrompidas todas. Muito mais do que falar, a ensandecida adormecida queria ouvir. Impossível. Estava dentro de um sonho, repleto de imagens fugazes, inefáveis, pouco táteis.
Decidida a levantar, fossem que horas fossem. Pegou o carro, entrou num bar , havia ali três ou quatro caras acompanhados, e mais um, de rosto moreno, braços fortes no balcão.
Sentou lá ao lado dele. Ele perguntou seu nome. Ela disse. Bebeu pinga. Ele pagou.
Saíram dali para casa dele.
Surpresa.
O cara sabia dos desejos de uma mulher. Falou nada.
Talvez um oferecimento de um isso ou de um aquilo. E só.
Vertigem. Em poucas palavras.
Estranhou ela tudo aquilo e que tivesse alcançado tanto prazer naquele encontro casual.
Sentiu falta de um Vinícius, de um Drummond, de um Caetano, de um Pessoa, de um Baleiro, talvez. Mas nem tudo pode ser perfeito, não é.
Se bem que tinha sido, viu.
Odonir Oliveira
[video:https://www.youtube.com/watch?v=3UdwqszgFxo%5D
Odonir Oliveira
11 de setembro de 2015 5:41 pmXico Sá- o cara, sempre !
A fila do sexo anda, a do amor… tartaruga
No amor, a fila empaca como um jegue teimoso, para usar uma imagem do meu sertão/veredas
A mensagem de Lili a Sérgio em Juazeiro do Norte. /REPRODUÇÃO (TWITTER)
Essa história demasiadamente otimista de que “a fila anda” vale para o sexo casual, o sexo do aplicativo, o sexo dos tarados da objetividade… Serve para o desprotegido sexo dos anjos e para os que se fantasiam de demônios com tridentes carnavalescos. No sexo do “book rosa” da novelaVerdades Secretas, a fila avança conforme os dedos, levemente umedecidos na saliva do desejo, tocam as páginas para mudar de figura. A fila avança, perversamente, entre modas & modinhas.
No amor, todavia, a fila anda mais devagar do que a de um novo emprego em tempos de crise terrena; mais devagar do que a fila do velho INPS, o extinto Instituto Nacional de Previdência Social –os mais antigos recordam e se benzem. Mais devagar do que as filas privadas de companhias telefônicas que vendem os mais moderníssimos aparelhos e serviços…
A fila do amor sequer existe. Parece mais um lance do acaso, umgame over em um jogo de coincidências, parece mais aquela brincadeira de onde está Wally. Para cada amor à primeira vista, centenas de tentativas de amores a prazo que acabam não dando certo –nem dando de maneira alguma, mesmo que toda forma de amor valha a pena.
No amor, a fila empaca como um jegue teimoso, para usar uma imagem do meu sertão/veredas. Onde o jegue, aliás, e isso não tem nada a ver com o drama amoroso, ficou obsoleto, substituído pelas motocicletas. Em muitos casos somos esse lerdo jegue parado no tempo, com a cara mais enfezada do que a fuça do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905-1980).
Turismo sexual
A fila anda… no Tinder. Aí sim. Corra, Lola, corra. Como me diz aqui em um grupo de WhatsApp uma amiga de Salvador, a onda é fazer “turismo sexual”. Para não correr o risco de se deparar com os mesmos manjados marmanjos de outras aventuras provincianas, com muitos colegas de firma e até com os primos da infância no interior, a danada viaja somente com a intenção de baixar os aplicativos da pegação em outra praça.
As Irenes do Tinder têm motivos de sobra para dar suas risadas. Mesmo quando o desapego deixa alguma ressaquinha moralizante –está para nascer uma criatura à prova total de culpa, sempre fica uma zoeira cristã no juízo, um INRI tatuado no inconsciente maluco. As Irenes, no entanto, riem, se divertem mesmo.A destemida soteropolitana fez a festa no final de semana passado em São Paulo: “três homens, com direito a um incrível e dois mais ou menos”, conta. O mais louco: o tal do macho incrível era um novo baiano que passeava sob a garoa. “Irene ri, Irene ri”, diz ela, brincando com o seu apelido emprestado da canção do conterrâneo Caetano.
Enquanto isso, na fila do amor… Olhares baixos, homens e mulheres fingem que não é com eles, mascam o papelzinho da senha no canto da boca, demoradas senhas dificilmente piscadas no painel de atendimento. Essas estranhas figuras que ainda acreditam e querem algo mais sólido do que o pinga-pinga do amor líquido.
Enquanto Irene ri, o tempo passou na janela e só Carolina, para variar, não viu. Carolina e seus zolhinhos tristes na fila de um quase impossível amor. Como dizem os mineiros, menina Carolina, o trânsito “garrou”. Engavetamento geral na avenida Afonso Pena, BH, hora do rush, José para onde?
Outdoor da Lili
Óbvio que vocês leram aquele caso, nesta semana mesmo, da Lili, a ex, a exemplo da tirinha genial, sexy e vingativa de Caco Galhardona Folha. O amor está nas coincidências. Lili, no episódio da vida real, é aquela mulher que exibiu, em um outdoor em Juazeiro do Norte, terra do mitológico padre Cícero, os seguintes dizeres:
“Sérgio, suas escolhas destruíram nossos sonhos de vivermos juntos. Agora tenho outro no lugar”.
Muita gente, inclusive o pessoal do serviço de publicidade, jura que se trata de uma bela vingança com o canalha que pisou na bola, não seria um golpe publicitário, como a gente sempre suspeita nessas ocasiões.
Esse “tenho outro no lugar”, cá entre nós, é que não me convenceu muito. O urso do tipo ostentação, o cara que, na pisada macia, fez a fila do amor de Lili andar lindamente, não me pareceu tão crível. Tomara que eu esteja cronicamente errado.
A maioria das pessoas, no badalo das redes sociais, vibrou com a atitude de Lili. Tomara Deus que seja isso mesmo realidade. Desconfio, porém, de uma chantagem pública. Um blefe. Muitos homens só reagem e voltam a amar loucamente uma ex depois de um chifre anunciado. Só o chifre humaniza o macho.
Cabras bíblicos e pródigos retornam ao lar doce lar com o tesão de outrora e o rabinho entre as pernas. Viram, se transformam em uma espécie de corno-goteira -aquele que espera, debaixo da tempestade, a mais torrencial das chuvas passarem para ter direito a se abrigar de novo sob o mesmo teto.
No que indago Lili, a ex de Juazeiro: se está satisfeita assim com o novo amor, por que ainda pensar no desalmado, o traste-das-costas-ocas que ficou no retrovisor da estrada? Por que dizer tudo como se o mundo a quisesse ouvir?
Será que Lili viveu o luto amoroso antes de pegar a senha na fila? Sem luto amoroso não há cura de um amor que doeu pra cacete. Lili, me escreva, Lili, me conte tudo. Talvez Lili tenha sido muito humilhada publicamente e, por que não?, agora deu seu justo e possível troco.
Foi a tartarugosa fila do amor que andou, Lili?
A sempre sábia dona Maria do Socorro, que mora a menos de 2 km do barulhento outdoor juazeirense, me disse ontem à noite por telefone:
“Safadeza, meu filho, ela só quer voltar para o outro ou fazer propaganda de alguma besteira que essa gente mais besta ainda compra, esse povo só pensa no shopping.”
Donde Maria do Socorro vem ser a minha santa mãezinha, viva meu freudiano Cariri, região, ventre e juízo de origem. E aí está outra fila que não anda: ter Complexo de Édipo por uma mãe alheia é uma tremenda safadeza. Prefiro não inventar essa moda, né? Mãe, te amo, só te amo.
http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/11/opinion/1441971675_793346.html
Odonir Oliveira
13 de setembro de 2015 10:11 amDITADOS DE MAMÃE
Era o ano de 1973, a cidade era São Paulo.
Uma república de estudantes até que bem recatada , com três rapazes: um deles chegado de Manaus fazia arquitetura na maior universidade do país, assim como o outro cursava engenharia lá também. O terceiro fazia cursinho. Os dois últimos eram de Corumbá.
No andar de cima Sofia, que bonita, peituda, morena, de pernas torneadas os via entrar e sair. Inconformada, por pouco ou quase nada ver mulheres ali, perdia-se em hipóteses.
Nada conclusivo, apaixonou-se pelo manaus, que de arquiteto nada tinha. Fazia poesia, era zen, e com um aspecto cubano de ser, barba e bigodes espessos, agradava-lhe bastante.
Era virgem. Ela, não eles. Acreditava Sofia que fadas até poderiam existir, mas Papai Noel, não né.
Sempre se lembrou dos ditados de sua mãe “Cuidado, homem é bicho perigoso”. Havia nela uma peculiaridade, quando namorava , mês sim outro não., via-se livre de cólicas menstruais. Então, como confiara à amiga, numa dessas conversas de alcova, quando uma dorme no quarto da outra depois de uma festa, namorar além de bom negócio era também um bom negócio. A amiga, surpresíssima, que na faculdade ninguém mais era virgem “liberação sexual, pílulas, amor-livre, que qué isso, menina?”. Era virgem, embora já tivesse 21 anos.
De outras vezes, convidava umas amigas para umas reuniõezinhas em seu apartamento. Os rapazes da república compareciam. Conversavam. Política sempre. Na cozinha, uns beijos uns. Na sala uns beijos outros. No banheiro até uns beijinhos, achava ela, que não via.
Mas o quarto era dela. Começava na cozinha, fazendo umas bebidinhas com manaus, uns papinhos mais tolinhos de risos contidos, toques de cotovelos, há, há, há, achou, hem! outras conversas, manipulações de diálogos , de corpos, de posicionamentos de esquerda e de esquerda, claro- ninguém ali gostava de coxinha, no máximo de um mais proleta assim, assim. Chico de Zezinho da Adelaide na vitrolinha…mixuruca que Deus deu- eles nem vitrolinha, só curtinho a rádio Eldorado do Estadão, o Jornal da Tarde, as melhores pratas da casa da década de setenta, pois.
Esse enlevo político, esse idílio poético ia até a página 2. “quer escrever o poema da última capa da revista nova da FAU? Pode ser uma coisa assim metalinguística, falando da morte da poesia…, talvez, se você quiser. ” “Ei, ei, é de encomenda, cara? Escrevo o que quiser, como quiser, pode ser?”
Pode com beijo na boca era muito bom e qualquer Sofia esquecia de ágoras, Medeias, Demóstenes e Hesíodos.
Eles, no quarto, as amigas na sala. Ela em meio a uma batalha grega, decidindo se entregava o Cavalo de Tróia ou não, lhe apareceu um colar enfileirado de pérolas com os ditados de mamãe que lhe percorriam as saboneteiras, os seios, o ventre. “Homem não gosta de mulher inteligente” . “Tem que conduzir o homem, deixando que ele pense que é ele que está conduzindo, como na dança.”
“Não. Não quero. Não posso.”
O da arquitetura, revoltado com aquela atitude de Sofia, que acreditava a mais cabeça das mulheres de sua lista de gostoso da universidade, dá um chega pra lá nela.
” Repressão não. Já chega a ditadura aí fora!
Naquele momento tinham expectativas políticas iguais e, emocionais, diferentes.
Nunca namoraram depois.
Admiraram-se.
Abandonou a arquitetura e é um desses Prêmios Jabuti da vida aí.
Sofia, contudo, fez o poema e a ele deu o nome de Poetação. Como também deu esse mesmo nome a muitas atividades que realizou pela vida afora.
Encontraram-se muitos e muitos e muitos anos depois. Beijaram-se e escreveu-lhe uma linda dedicatória em seu último livro publicado.
Odonir Oliveira
[video:https://www.youtube.com/watch?v=8LeIg-TtHQw%5D
Odonir Oliveira
13 de setembro de 2015 10:13 amEram primos, é?
PRIMOS
Viveram sempre em cidades diferentes, desde crianças.Passavam férias de verão no mesmo lugar.
Ali, sempre amiguinhos, descobriram-se adolescentes e apaixonados.
Armando, lindos olhos verdes, tímido, um poço dos afetos todos com a prima. Tanto afeto que, uma vez quando ela quebrara a perna, tinham os dois doze anos, cuidara as férias inteirinhas dela, dando-lhe preparação de água, esquentando-a, colocando em outro recipiente água gelada para que ela banhasse várias vezes ao dia a perna e o calcanhar ainda inchados, depois do gesso retirado. Era de uma gentileza que beirava à submissão.
Ah, mas quem nunca brincou de médico com primas! Eles não. Cuidava dela como de uma flor do campo, frágil, mimosa. Para ela buscava o que fosse necessário, mesmo sem que pedisse. Lembrava Peri e Ceci em O Guarani, tamanha adoração.
Mesmo sozinhos, com todos os hormônios em ebulição, jamais efervesceram paixões neles mesmos. Nem um beijo roubado sequer. Eram primos. Filho de pai irmão da mãe dela. Jamais poderiam ficar juntos e se casassem e tivessem filhos, como seriam?
Que casar nada. Doze anos. Ouvindo o Lobo bobo de João Gilberto, disco do primo mais velho, jogando pedrinhas e batalha naval. Férias.
Tempos e tempos se passaram
Ela casara com seu engenheiro. Ele, com sua vizinha, tendo com ela uma filha. Separara-se, casara-se de novo tenho aí mais dois meninos.
Ela soubera pouco de Armando por mais de duas décadas. Até que voltaram a frequentar os mesmos lugares. O olhar dele sempre o mesmo por ela. Divorciada, livre, sequer demonstrava qualquer atenção a ele, homem casado pai de dois filhos então.
Os olhares dele, encadearam-se em palavras mais adocicadas, mais atenciosas. Uma balançada geral nela.
Tempos e meses depois, tudo é Carnaval na praça principal, onde sempre passavam as férias.
Na barraquinha em que se vendiam bebidas, os dois se esbarraram. Ela já estava ali, bebendo cerveja com parentes e amigos há horas. Ele, pescando. Chegou depois, bem depois de as escolas de samba e blocos terem desfilado.
Sozinho, olhou para ela que meio ali meio lá na casa dele, recuou.
Anos e anos de tesão reprimido, agora o sabiam.
Por que não beijar na boca, rir muito e relembrar o quão tontos sempre haviam sido. Lembrou-se Mário de Andrade apaixonado por sua impossível prima Luísa e resolveu aceitar aquele desafio de décadas atrás.
Lendo seus pensamentos, Armando puxou-a pelo braço, aquela música “me dá um dinheiro aí”, levou-a para uma calçadinha com jardim e, na frente de quem quisesse ver, beijou-a com três décadas de atraso.
Dali foram se amar como se jamais tivessem se conhecido, mas com uma intimidade tal, que pareciam terem estado juntos por todos aqueles trinta anos também.
Depois só rezando na Igreja da Matriz um três padres-nossos e umas três ave-marias a pedir perdão a Deus pelo sacrilégio cometido.
Odonir Oliveira
[video:https://www.youtube.com/watch?v=OB74bbRKw1w%5D
Odonir Oliveira
13 de setembro de 2015 10:16 amA escola era particular
O PROFESSOR
Era um garoto daqueles de perder qualquer mulher, experiente ou não. Cabelos cinza, 16 anos, baterista de banda de rock, inglês perfeito, meio sardento, pele clara, nascido na Argentina, criado na Alemanha e morando naquela época no Brasil. Um sorriso de covinhas, com calça jeans esburacada num tempo em que isso não era pedigree ainda. Por ele todas as adolescentes eram apaixonadas. Aquelas brincadeiras todas de me pega e me deixa acontecendo na entrada das aulas, nos intervalos, na hora da saída. Ele, doce, de lábios doces, sorriso doce, pele clarinha. Doce.
Aula de artes, construção do corpo, dimensões, recriação de modelos estéticos, leituras, interpretações, visitas a mostras. Tudo que um adolescente criativo, vivo, vibrante gosta de fazer.
A aula acontecendo, a professora Rosana de saia curta, de pernas grossas senta-se na mesa. Alan olha direto para aquelas pernas, com tanto ímpeto que ela se sentiu despida por aquele olhar. Aula no fim. Alan pouco se dirigia à professora, o que a deixava intrigada se por querer evitá-la ou temer ter que enfrentá-la.
De repente ela começou a sentir seu faro feminino direcionado a Alan. O que seria aquilo… um rapazinho quase quinze anos mais novo que ela. Maluquice, carência afetiva produzida por uma voluntária ausência de parceiros. Devia ser isso.
Outra aula, sala escura, projeção de slides. Olhares que se cruzam entre ambos. Tesão sob a blusa fina, sob o avental, que agora vinha preparada para possíveis bicos de seios enfarolados de repente, como ocorrera de outra vez.
Ele, seguro, um verdadeiro professor. Olhava, retirava o olhar. Jamais cafajeste com as meninas suas amigas, jamais fazendo qualquer joguinho para despertar ciuminho tolo no plantel que o envolvia, di-a-ri-a-men-te !
Nadava com destreza, jogava os cabelos longos de um lado para o outro, ao sair da piscina. Ela assistia a tudo sem esboçar reação.
Visita a Bienal, quem vai com quem , no carro de quem. Na volta, uns alunos entregues em suas casas, outras levados por seus pais. Ele, o último no carro dela. Sábado à noite.
“Para o carro aí” . “O que houve, esqueceu alguma coisa?” Não conseguiu terminar a frase. Beijou-a com uma segurança pouco vista até ali. Alisou seus cabelos, sem falar uma palavra sequer. Beijou-a, beijou-a. Ela não conseguia dizer uma palavra, pois que sua língua da dela não saía mais. Parecia estar em um curso de como se beijar professoras titubeantes, num sábado à noite.
Casa. “Vamos embora já”. Foram.
Como olhar para Alan em classe agora? Como cobrar dele um exercício, um trabalho. Era excelente aluno. Lia e escrevia como poucos. Um artista, um privilegiado.
Na cidade grande saíram certa vez, sem serem reconhecidos. Ela era jovem, bonita, de corpo autoral. Ele parecia mais novo, mas não tanto.
Esse romance demorou uns meses, sempre corretíssimo, Alan jamais deixou escapar qualquer coisa que prejudicasse a professora, um verdadeiro mestre, até quando ela saiu da escola.
Os dois ainda se encontraram algumas vezes, consumaram seu amor , perdidos em manias de você por ali por aqui.
Uma situação impensável anos antes por ela.
Ele mudou-se de volta para Argentina.
Anos mais tarde se encontraram por lá.
Odonir Oliveira
[video:https://www.youtube.com/watch?v=GlUsS9K-tpM%5D
Odonir Oliveira
13 de setembro de 2015 10:18 amCom as cores do arco-íris
ELAS
Da janela da sala olhava a chuva que caía forte. O ponto de ônibus cheio. Poucos guarda-chuvas, que o temporal viera sem se esperar.
Vilminha , delicada mulher, de uns trinta e poucos anos observava as gotas que se jogavam na janela do sobrado.
Nem bem passou um, passaram dois, três ônibus seguidos, e o ponto foi ficando vazio. Mais um e seria o suficiente para esvaziá-lo totalmente.
Naquela noite nada de encontro com Nélson, o gato que lhe fazia delirar por noites e noites a fio. Tinha ele um fôlego de assustar. Era uns cinco anos mais novo que Vilminha. Mas gostava de surpreender. Trazia sorvete, cremes de diversos sabores, balas de arder, e assim, faziam as noites valerem muito mais que oito horas de sono. Trabalhava no setor de compensação de cheques anteriormente; hoje conferia telas e telas de computador. Na sala onde ficava não dava conta de saber se ainda era madrugada ou se amanhecera. Entretanto, por umas horas imaginava Vilminha com ele em trôpegos passeios de tempos e espaços e quase configurava o ato… de conferir telas e telas e telas, por assim dizer.
Moça de olhares amplos, com objetiva angular poderosa, Vilminha em sua delicadeza era só amplitudes.
Naquela noite uma flor parecia abrir-se sem que dela a graciosa mulher se desse conta antecipadamente.
Ponto de ônibus vazio. Vilminha volta à janela e encontra lá uma garota bonitinha. E sozinha. Molhada feito pinto. Não, molhada feito flor.
Um relâmpago anunciava sua chegada. Da janela viu tratar-se de uma garota de túnica indiana sobre a pele, transparentemente ensopada, saia longa, sandália rasteirinha. Fora pega de surpresa pela chuva, com certeza.Uma vontade de socorrê-la, de súbito lhe ocorrera, tentaria oferecer-lhe talvez uma toalha para lhe secar aqueles longos cabelos de Maria Schneider, sem ambições de um último tango. Só solidariedade com a apetitosa menina de roupa colada no corpo.
Não pensou duas vezes, que era de outra geração, para que reflexões, vamos fazer acontecer. Nunca experimentara, contudo, um beijo na nuca feminino, um roçar de seios de mão delicada, nunca tocara, nem ensaboara virilhas de pelos pubianos ou quase sem, como os seus.
Desceu. Chegou. Ofereceu toalha, secador, banho ou o que a outra desejasse. Temeu recusa. Não ocorreu. Subiram.Viu-lhe a tatuagem na nuca.
Banho quente, oferta de toalha. “Quer secador?” “Quero, está sozinha aqui?”. “Estou, namorado trabalhando a madrugada inteira hoje” “Ah, tá!” “Quer que ajude a secar… cabelo grande, né.” “Quero”
Mãos na nuca, sacudidelas de cabelos a saber se secos já estavam. Cabeça tombada de repente para trás, Capitu Bentinho penteando-se em um enlevo feminino apenas. Bocas roçando bocas. Secador desligado. Gazelas da cadeira ao chão, ao tapete, à cama.
Amaram-se como se fossem uma. Sabiam o que queriam. Gostavam daqueles toques, daqueles lábios, daqueles doces de si. Esqueceram-se dos ônibus – também agora só amanhã mesmo.
Mais tarde outro banho, ensaboamentos cor-de-rosa, azul, lilás, amarelo, azul, fogos de artifício, choros, gritos, relicários de uma vez… talvez única. Ou quem sabe primeira.
Vestiu-se a da túnica indiana e partiu.
Mais tarde chegaria Nélson, e Vilminha o receberia com variações em dó, ré, mi, fá, sol, lá e si.
Odonir Oliveira
[video:https://www.youtube.com/watch?v=KHr98A3gwMA%5D
Odonir Oliveira
13 de setembro de 2015 5:07 pmSessão de terapia
[video:https://www.youtube.com/watch?v=NIhgfHTGVHQ%5D
NA RODA
O grupo de terapia se reunia às quintas-feiras, depois das seis. No princípio era o verbo. Uma falação que um deus mandava. Cada uma das mulheres falando mais que a boca etc. etc. O terapeuta precisava botar ordem naquele galinheiro. Assim, começou com práticas que envolviam silêncio, concentração, relaxamento , técnicas corporais para liberação de energia e de sensorialidades. Após algum tempo, deu-lhes o direito à fala, qual o mestre “Parla, parla!”
Foi quando a primeira, de um pouco mais de quarenta anos, tomou a palavra. Não se tratava de grupo de oração, nem de um “só por hoje” da vida, nem se falou em grupo, “Olá, Luciana, que bom que você está aqui hoje”. O papo reto era: sexo.
O terapeuta queria ouvir o que pensavam para poder ajudar no percurso, como um taxista que leva alguém, mas apenas para onde este quiser ir.
Luciana tinha três namorados. Dois deles sabiam da existência de ambos. Já o terceiro, mais recente, não. Luciana queria entender por que tinha essa ânsia, quase que insuportável por vezes, de se ligar a mais de um homem. Com vinte e seis anos essa era uma resposta difícil para ela. Mal sabia que… deixa pra lá.
O terapeuta ouvia os relatos da moça e anotava um pouco, fazia poucas perguntas, devolvendo-as, sob a forma de clareamento para ela mesma, do que a motivava a certas atitudes…
Já Virna era ligadíssima em uma farda. Trepava, para surpresa de todos, e do terapeuta principalmente, com homens vestidos. De farda. Fossem quais fossem estas. Gostava de marinheiros, e em Santos, como no Rio de sua adolescência, a oferta era grande e colorida. Buscava entendimento para esse fetiche. Que já tentara sem os uniformes e não conseguira passar nem da primeira preliminar. Fracassou e o cara sem pavilhão também.
Dolores era meiguinha, suavezinha, molinha ao falar, uma espécie de Bruna Lombardi, jovem, no Dante Alighieri. Uma oncinha a desabrochar.Tinha, como a atriz, olhos verdes gateados. Um tesão a distância. De perto, um vulcão de sensualidade.
Coitado do terapeuta. Haja recitar Hipócrates antes de cada sessão com essas mulheres. Além de um pai-nosso para garantir certo desligamento, digamos assim.
Dolores tinha lá suas reservas para falar de sexo. Não por puritanismo. Parecia mais querer aprender, que propriamente ser recatada. Ouvia, ria, gesticulava mais que as outras e parecia guardar segredos. A descobrir-se.
Maitê era a mais atrevida. Chegava contando que naquela noite o amante dera três, quatro, que o banho na jaccuzzi tinha sido pra lá de bom, diferente dos de outras vezes. Mas verdade seja dita. Dava pra um só. Quando cansava, trocava. Porém fidelidade era com ela. Argumento: cada homem tem muito a ser explorado, se eu comer em pouco tempo, não descubro. Tenho que ir comendo devagar, pelas beiradas. Insistia sempre que quem comia era a mulher. Tontos e perplexos os homens diziam o contrário. E como era Maitê? Mulata, com uma bunda bem redonda, lábios espessos, peitos grandes e mais arredondados ainda. Era a gostosa. Na rua, o pessoal da construção civil se deliciava com seu andar.E não só eles, viu. Ouvia os maiores elogios, que pra ela eram e-lo-gi-os, já relatara em uma das sessões. Outra coisa: comia de se regalar. Era uma delícia vê-la comer – o que quer que fosse. Não tinha preocupação com peso nem nada. E parece que não ouvia reclamações. Nenhum de seus namorados jamais pediu o dinheiro de volta, digamos assim.
Quando uma delas resolvia começar a descrever a última trepada, sai de baixo… porque todas, por concorrência ou de verdade, já haviam feito aquilo também e mais issos e mais aquilos.
Era uma festa!
De vez em quando, Roberto, o terapeuta, pedia para darem um tempo. Compreensível, não é não?!
Fato é que saíam dali como se de um orgasmo. Levinhas, levinhas.
Ah, mulheres, trepando subjetivamente com elas mesmas. Vê se pode?
Pode!
Odonir Oliveira
Odonir Oliveira
11 de setembro de 2015 6:25 pmE quando setembro chegou …
DRUMI NEGUINHO!
Saiu correndo do trabalho que aquilo era assédio da chefia.
“Onde já se viu uma oferta daquelas? Que que ele tava pensando”.
Não sabia bem ela se achava o chefe bonito apenas, ou gostoso, como se diz por aí. Sabia que fraco não era. Tinha pegada. Falava com aquele jeito cafajeste que a mulherada adora ouvir em certas horas e em horas certas. Estava, então, sem identificar se eram aquelas as horas certas ou as certas horas.
Mas tinha que manter a pose ali.
Um olho no doce outro no gato.
Explicando e desenhando: ao mesmo tempo que não gostava de conversa de sacanagem, nem de piadas escrotas – segundo ela – mas adorava um toquezinho leve de braços, que nem Machado de Assis os descreveria melhor. Aceitava uns olhares, umas brincadeiras assim levinhas, né, mas aceitava e dava uma corda… ou melhor, botava pilha, como se diz hoje também.
Agora, aquele assédio ali… não mesmo!
Ainda se fosse na salinha reservada do café onde suas pernas já haviam roçado as dele por baixo da mesa e, quando ficaram sozinhos, até uma ligeiríssima bolinação ocorrera… se fosse daquele jeito da outra vez até dava. Mas assim, de chofre?! Que safado!
Safada ela era também, que safadeza é de Deus, uma prima muito religiosa lhe ensinara meses antes.
Pensou, pensou. E voltou lá depois das seis, quando só a chefia costumava ficar. Havia, entretanto, um copeiro, que guardava as últimas xícaras do dia.No que viu que a moça voltara, fez o sinal da cruz e caiu fora.
Assediando-se inteiros, incendiando-se inteiros …
– É, drumi, neguinho, que já tá quase quase na hora da gente vortá pra trabaiá amanhã.
Odonir Oliveira
[video:https://www.youtube.com/watch?v=P8GEqVSN-n8%5D
Odonir Oliveira
12 de setembro de 2015 3:42 pmEm tempo real
BBB 246
Essa história é um relato real.
Quase todas as histórias são reais. O ficcionista as colore um pouco, as enfeita aqui acolá por motivos linguísticos, por motivações de enredo, mas são sempre reais.
Não podia Marcela mais conviver com aquela situação. Recebia mensagens diárias por computador, na verdade sem saber se a ela eram dirigidas.
Como confiar em alguém que nunca se viu, que nunca quis um telefone de Marcela, que jamais com ela conversou por whatsapp, por e-mail ou por sinal de fumaça?
Como confiar em alguém assim?
Pouco se manifestava por palavras suas, sempre tutelado por palavras alheias, versos alheios, músicas alheias. Um discurso camuflado em verdades que poderiam não ser as suas, contudo.
Além disso, como as gritava em praça pública, qualquer um se arvorava a ser o receptor daquelas palavras, como se a todas essas pessoas tais palavras fossem dirigidas. E era assim mesmo que Marcela acreditava que o emissor secreto quisesse ser considerado. Era um beija-flor sem escolher cor, forma, perfume, apenas beijava a cada canteiro e da mesma forma.
Conduta esquizofrenizante para Marcela que estava habituada a dizer o que pensava a quem desejasse, e, em questões de subjetividades não engolia desaforos, emoções, desejos e, muito menos, tesão. Batia na porta e “Olha aqui, vim dormir com você. Está a fim?”
Lógico que a resposta poderia ser não. Mas ela saberia, estaria claro. No caso do missivista, além da penca de destinatárias e, até de destinatários, em cena, havia um duplo vínculo ensandecido e cada vez ampliado em grupos e grupos.
A olhar de fora, parecia que o missivista não queria mesmo era deitar com ninguém, receber resposta de ninguém. Só queria ele próprio mostrar-se, mostrar o que queria mostrar. Injustiça, pois quem semeia colhe e, com responsabilidade, acolhe o que semeou. Ou então, não semeia. Como muitos missivistas de maior responsabilidade o fazem.
Na verdade, Marcela vinha se arriscando demais ao se envolver pelo facebook com aquele missivista. Por que nunca demonstrara nenhum interesse em com ela conversar em particular ou em com ela estar em particular?
Marcela, agora, bastante envolvida com a situação, analisava que talvez ele desejasse que todos ali daquele Face o vissem como o disputado, o cortejado, o enfeitiçador número um… talvez fosse isso.
Encantador com flauta murcha? É, porque nunca comera ninguém ali, pelo que constava, só masturbação intelectual. Parece. Houve uma no passado que tivera uma relação mais próxima, acho que de paixão inesquecível por ele. Mas e Marcela com isso? Isso era uma pendência entre eles. Não deveria interferir, portanto, em outros vínculos.
Marcela refletia sobre as inverdades ditas pelo missivista, ainda que tivessem parecido tão verdadeiras.
Nada como pegar alguém pelo braço, apertar junto a seu corpo, sentir a rigidez de seus sentimentos em si mesma. Mas nada mesmo.
E depois o beijo de lábios, de língua, de suspiros e respiros intermináveis e sem interrupções.
Pensava muitas vezes, quando sozinha, que daquela forma estava em um BBB desses de quinta, com elenco de décima, sem nunca poder dizer aquilo que desejaria a ele porque eram milhões os que assistiam ao programa.
Seu repertório de metáforas se esgotara, que era da área de exatas, pouco afeita a tantas considerações interpretativas.
Decidira-se então. Daquela noite, tão importante para ela, em diante, não se comunicaria mais em rede nacional com o missivista. Fim do BBB.
Tivesse ele algum sabor a descobrir em sua boca, em seu de dentro que a procurasse para sabê-lo. Até certo tempo, é claro.
Fez bem ela. Ou não.
Odonir Oliveira
https://www.youtube.com/watch?t=15&v=OLVVFO4oe7g
Odonir Oliveira
13 de setembro de 2015 9:35 amRimas, estradas, barcos, lagoas, trens …
SEXY
Dinorah era sexy.
Não havia como definir, era sexy.
Tinha um jeito displicente de olhar, um andar rebolado tão natural, mas tão natural… que sexy.
Por ser assim talvez, despertava nos homens um desejo quase que incontrolável de tocar nela, beijar ela, comer ela.
Tudo isso lhe passava meio despercebido, porque Dinorah não tinha atração física por homens, em geral. Nem por mulheres. Gostava da sensualidade insinuada, da sedução persistente, do banho-maria em degraus. Gostava mesmo era de preparar a festa.
Dinorah era doceira, confeiteira. Começara adocicando em casa, depois da falência de uma vida a dois, com um companheiro banana que a única coisa que fazia bem era sexo. E isso não sustentava o teto. Pelo menos para ela não. Adoçando uma festa lá outra cá, montou seu próprio negócio. Com ele ganhava a vida. E bem. Não dava para as encomendas.
Não dava para tanta encomenda de olhares, de piscadelas insinuantes. Parecia uma Gabriela de Jorge, sem o mar de Ilhéus, contudo. E, assim, na entrega dos doces, bolos e trejeitos, vez por outra quase sucumbia a olhares mais cobiçadores dos donos da festa, ao assinarem os cheques, ao passarem o cartão. Sabe como é, adocicou tem que rezar, pensavam. E eram sempre os maridos que tinham que pagar a conta. Eita mulherada dependente, concluía Dinorah.
Certa vez apaixonou-se não por um corpo, mas por uma voz. Enquanto cozinhava, quase sempre em carreira solo, ouvia na rádio FM de sua cidade um locutor. O tal tinha três horários na rádio. De manhã ocupava seu espaço com música sertaneja de raiz e declamava versos. Ao meio-dia, um programa de nostalgia, a saudade não tinha idade e lia crônicas, poemas, versos esparsos, pequenos comentários, nunca de sua lavra, mas a encantavam. Bem de noitinha, depois das sete, programava músicas americanas, sempre contextualizadas a poemas e intenções. Dinorah captava as mensagens e entendia que o locutor dedicava a ela aquelas melodiosas seduções. Enganando-se porque cada um empresta a sua própria vida os olhares que deseja ou precisa emprestar.
Apaixonou-se num tanto, que acreditou ser amada por ele. Assim, não mais olhou ao redor, para os homens interessantes, que sempre há pela cidade.
Certa noite, lambendo lentamente a colher de pau que acabara de mexer brigadeiros, ouviu no rádio uma música de mensagem claramente erótica; excitada, desejou ligar para o programa – coisa que nunca fizera antes- e falar com ele. Era como se isso concretizasse o ato sexual que imaginava partilhar todas as noites. Estava perdidamente apaixonada. Apaixonada pela voz, pelas palavras lidas, pelas melodias que a tocavam. Não conseguiu falar com ele. O telefone só dava ocupado na rádio. Tinha ensaiado um discurso para quando ele chegasse, ao telefone. Tinha até rascunhado umas frases para dizer a ele e, principalmente, lhe entregaria doces mãos, braços polvilhados de açúcares, seios em ponto de suspiro, ventre em ponto de bala.
Não conseguiu. Pensou que não era para ser. Tinha em si esse fatalismo feminino, quase cabalístico da negação amorosa.
Nos dias que se seguiram, entregas de doces. Andares, assinaturas de cheques, quereres.
Doces delírios repetidos, repetidos, repetidos …
Odonir Oliveira
[video:https://www.youtube.com/watch?v=oYUFNIdLdzY%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=wDfXqhn8tvM%5D
Odonir Oliveira
13 de setembro de 2015 10:29 amEssas mulheres…
Faz anos e anos que convivo com mulheres muito mais do que com homens.
Há 15 anos resolvi escrever histórias em que mulheres fossem sempre as protagonistas. Todas as histórias foram ouvidas de outras.
Escrevi uma série delas, mais eróticas, mais sensuais, que ainda as guardo sem apresentação.
Seguem outras, entretanto.
[video:https://www.youtube.com/watch?v=KvB7vyBrfdE%5D
Rui Daher
13 de setembro de 2015 12:47 pmOdonir,
que delícia! Quando o livro? Sigo a Barbacena para a noite de autógrafos no Mirante. As minhas garrafas compro por aí, que sei haver ótimos alambiques.
Odonir Oliveira
13 de setembro de 2015 1:37 pmAmigo, gosto quando me responde
Você vê como vamos fazendo amigos…
Sinto falta de buteco por aqui. Mas de buteco que fala, sabe como é?
Essa falta de diálogo é o que mais me decepciona por aqui.
Que bom que gostou.
Odonir Oliveira
13 de setembro de 2015 6:37 pmTerceiras idades
LENÇÓIS ESTICADÍSSIMOS
Tia Ana Amélia era uma mulher privilegiada. Sempre cuidara da casa, tinha um marido de setenta e três anos viril, em tempos de comprimidinhos azuis inexistentes. Ela, mais nova que ele uns dez anos, tinha um fogo domiciliar característico das mulheres de um homem só, daquelas que vinham envelhecendo junto a seus companheiros e por isso conheciam-lhe todos os pensamentos, os desejos, os seres e estares da vida.
Sua norinha, namoradinha, de vinte anos, do filho único, sempre lhe intrigara. Dormiriam juntos os dois? Ali na casa dos pais sabia que não; não poderia admitir tamanha falta de respeito, ora, ora.
Naquele sábado pela manhã, o filho único saíra com o pai a buscar componentes para a feijoada do domingo, quando se comemoraria seu aniversário. Norinha e sogra esticando lençóis, conversam sobre um assunto com diferença de quarenta anos de tabus: sexo.
Enquanto ali, Ana Amélia pergunta à jovem se ela e o filho faziam sexo. A moça sem pejo e recato responde-lhe que sim e há bastante tempo. Quis saber se o rapaz era carinhoso, se usavam se proteger e essas coisas que Chico diz que toda mulher diz. A outra respondia sem titubear, com sonoros sins a quase todas as questões.
Depois tomada da mesma coragem, perguntou à Ana Amélia como era o sexo dela com o marido? Esta quase engasgou; terminou a arrumação doentia de se esticar lençóis e foram para a cozinha. Colocaram um feijão preto de molho ali, umas carnes secas também, e a conversa continuava. “Você já ouviu falar desses cursos de strip-tease, Ana Amélia?” ‘Como, pra quê? Pra dançar em boates, assim?” “Nada, pra dançar pro marido, namorado, companheiro. São um tesão. Não há quem não curta. Vou te dar o endereço de um, tá”.
“Despudorada a menina, veja só, curso de strip-tease… ai…ai”.
Tempos se passaram e Ana Amélia todas as tardes aprendia um passo novo, um jeito sensual de retirar sua saia, de suspender a blusa até a altura do sutiã, de deixá-la ali meio a acobertar um bojo e o outro não… No ritmo de muitas músicas diferentes, foi ensinada a enlouquecer o parceiro com seu corpo, aquele seu mesmo de sessenta e alguns anos. Estava pronta.
Numa segunda-feira, aniversário de casamento, pediu que Jorge, o marido, chegasse antes. Estariam sozinhos. Filho viajando.
O pior de tudo era na hora H sentir-se ridícula, que já era entrada em anos e aquilo ficaria bem em uma mocinha como a norinha e tal. Teria coragem?! No curso aprendera a levantar sua auto-estima – como diziam por lá- aprendera também a rir de si mesma, caso o marido brochasse, bem possível, tamanha a mudança, aprendera a gostar-se mais e, sobretudo, a gostar de fazer amor com seu amor.
Assim o fizera: planejara tudo, casa cheia de velas aromáticas, jantar com frutos do mar e saladas, vinho branco gelado, da preferência dos dois, flores pela casa e um filminho na tela “Love in the afternoon”. Depois era só dançar para ele, não uma música sensual como aquelas do curso. Escolheria uma que para eles sempre representara magia. Seria mais ou menos assim. E se nada corresse como previra, iria fazer tudo de novo outro dia.
Chegou mais cedo do trabalho, encontrou-a ainda por vestir-se. Tomou banho.
Ela de salto alto, por sob o vestido a lingerie preta – vermelha pareceria puta, pensava- perfume atrás das orelhas, nos pulsos, sem aliança. Tirou a dele também.
Jantaram, riram, embebedaram-se de um tesão incomensurável. Dançaram.
Colocou o filme. Assistiram de mãos dadas, alguns carinhos, e por fim, o strip- tease. Peça por peça, beijo a beijo, mãos a mãos …
Deu tudo certo. Riu na cama ao recordar como seu irmão mais velho sempre pilheriava ”Galinha boa cria bom pinto” . Ao que Ana Amélia respondia “Galinha pra ser boa é que precisa de bons pintos”.
Ficaram muito tempo ali sob lençóis, sobre os lençóis … sob a ducha.
Daquele dia em diante, nunca mais lençóis esticadíssimos.
Odonir Oliveira
[video:https://www.youtube.com/watch?v=fQknNaxLAaA%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=MKCyUe4syc4%5D