(Comentário ao post “Desigualdades raciais e mercado de trabalho no Brasil“)
A “explicação” com que opera o artigo “Desigualdades raciais e mercado de trabalho no Brasil” caracteriza um tipo de “causalidade” sociológica que só se sustenta sobre a miragem de uma conta de chegada: não só haveria uma correlação necessária entre acesso ao mercado de trabalho e cor, como também que o seu caráter “irredutível” se explicaria de modo suficiente pelo atavismo igualmente irredutível da “discriminação racial”. Trata-se de uma correlação entre coisas que seriam “absolutas” (“raças” e oportunidades); uma correlação que se quer límpida e transparente por meio dos “números”.
Isso é, na verdade, mais um caso de reificação mistificadora dos números, em que o fatalismo funciona como transcendente causal. Assim, as consequências de um longo processo socio-histórico multicausal são reduzidas à condição de causa unívoca (a da “discriminação racial”), que funciona para lavrar uma “verdade” a-histórica: a das raças.
Na realidade, a sustentação ideológica desse tipo de operação não é mais que uma profissão de fé de caráter messiânico: a existência de “raças”. Os antropólogos chamamos a esse tipo de dispositivo de “sistema classificatório”.
O horóscopo, por exemplo, é um sistema classificatório. Se o sujeito acredita em horóscopo, qualquer pessoa, para ele, terá sempre e impositivamente (pelo fato de ter nascido em um dia qualquer do ano) um signo, um ascendente e… (esse é o pulo do gato dos sistemas classificatórios) características de personalidade (ou seja, conteúdos de relações sociais) determinadas pelos operadores do sistema: signos, ascendentes etc. A diferença assim disposta não é mais que diferença reificada, previamente naturalizada pelo sistema classificatório.
Os sistemas classificatórios servem para mapear os indivíduaos antes que eles sejam objeto de algum outro tipo de reconhecimento. Quando esses sistemas classificatórios são aplicados à história e à sociedade, eles servem para qualificá-las antes que causalidades mais complexas possam eventualmente ser investigadas.
A mais importante das características intrínsecas dos sistemas classificatórios é que eles nunca são passíveis de ser questionados a partir de dentro, porque eles já impõem previamente o mapa das possibilidades com o qual o mundo é classificado.
No correr dos séculos, o pensamento racialista buscou incessantemente critérios (em aparência objetivos) para definir a estereotipagem dos indivíduos: medidas de cranios, de narizes, quantidade de melanina, e até a incidência de certas doenças (anemia falciforme, por exemplo).
A permanentemente ilusória “objetividade” desses critérios levou a crítica ao racialismo a uma conclusão singela: toda classificação “racial” a partir de estigmas fenotípicos não é outra coisa senão imputação. Ou seja, onde terminaria (em termos universalmente objetivos) a “branquitude” para começar a “parditude”???? E o filho branco de pai preto que concentrou a melanina em uma infinidade de pintas pelo corpo? Ora, mas ele é “branco”, então ele cruzou para a banda dos “privilegiados”, “limpou o sangue”… E o quanto ele pode continuar sendo estigmatizado por conta de alguma outra marca de origem?…
Saber como funcionam as infindáveis contingências socio-históricas da estigmatização pela cor, pela aparência, pelo modo de falar, pela origem regional ou social… tudo isso escapa dos interesses predeterministas do racialismo.
Para esse tipo de pensamento, cogitar a hipótese, por exemplo, de que uma lógica da exclusão (como, por exemplo, a lógica socio-cultural do privilégio) possa mover as dinâmicas socio-históricas, que possa ser (socio)logicamente precedente à “naturalidade” da “raça”, e que possa operar pela mobilização de critérios múltiplos (a parentela oligárquica junto com uma marca de origem, junto com contingências singulares do acesso à riqueza etc)… é algo da ordem do simplesmente impensável. A complexidade é algo que está fora das possibilidades de pensamento ditadas pelo reducionismo classificatório. A lógica das causações fica “achatada”. Basta apenas, então, uma correlação direta entre números e… “raças”.
A definição prévia de uma classificação determina todo o resto em termos de possibilidade e inteligibilidade. É o mundo estático, em branco e preto, finalista e teleológico. A história multicausal e multicolorida torna-se intelectualmente irreconhecível. É o reino totalitário da classificação prévia e do pensamento único.
(Um pouco mais sobre esse debate pode ser lido em muitos lugares. Pessoalmente, ofereço um artigo que publiquei numa coletânea crítica de alguns anos atrás sobre políticas raciais, na qual, por casualidade, o Nassif também participou: http://www.academia.edu/1433619/Quando_nem_todos_os_cidad%C3%A3os_s%C3%A3o_pardos)
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