China: breve discussão sobre a batalha de ideias entre o Socialismo de Mercado e o Capitalismo de Estado
por Cintia Neves Godoi, Sandro Luiz Bazzanella e Carlos José Espíndola
Este texto é um esforço de contribuir com as discussões acaloradas sobre a China se apresentar como um país socialista e, por outro lado, ser apresentada como um capitalismo de Estado.
O “Socialismo com características chinesas” foi uma expressão utilizada por Deng Xiaoping, em 1982, em discurso no 12º Congresso Nacional do Partido Comunista. Esta caracterização não é atual e através da permanência e especialização do argumento se reforçou no cenário geopolítico a posição da sociedade chinesa. No entanto, a crítica ou negação da caracterização parece ser atual.
Desde a revolução chinesa, esta se apresentava com pretensões comunistas e socialistas. Mas, aproximações da China com países como Estados Unidos podem ter criado sensações ou expectativas de que haveria uma alteração da proposta socialista/comunista para o capitalismo de mercado, de sociedade e de desenvolvimento estadunidense.
A tese defendida em um programa de História Social por Flávio Diniz Ribeiro sobre a vida e pensamento de Whalt Whitman Rostow demonstrou esforços orquestrados estadunidenses em fazer do “desenvolvimento” uma ideologia e uma política de estado daquele país, com vistas a expandir o modo de vida e produção capitalista para outros povos e países.
Neste sentido, a cada reforço da China em se apresentar como país que vislumbra o caminho do Socialismo, se coloca como diverso do país cuja hegemonia cresceu ao longo do pós Segunda Guerra Mundial, econômica e politicamente, com alcances geográficos e continentais, considerando acrescentar às suas políticas mais e mais países operando de maneira a ser parte de um modelo de desenvolvimento estadunidense.
Mas, desqualificar o socialismo chinês não aprece nos esforços iniciais chineses de ser parte do mercado mundial. A presença dos produtos chineses após as iniciativas de industrialização do país se tornou altamente impactante para todos os países e povos, mas não necessariamente “digna” de questionamento dos fundamentos de sua organização política e econômica. Ocorreu que a primeira fase industrial chinesa gerou produtos de baixo valor agregado, baixa complexidade e permitiu comércio e acesso ao consumo de certas manufaturas por diferentes classes sociais em países ricos e mais pobres, uma revolução para o consumo.
O fenômeno do acesso aos produtos chineses, competitivos globalmente em função dos preços mais baixos pareceu assustar industriais, políticos e líderes de países desenvolvidos. Sim, o desenvolvimento é lançado como “ideia-força” sempre que se necessita de reforço à ideologia da produtividade, desde que esta esteja ligada a determinados países, os que se apresentam como capitalistas.
Ao caminhar para outras fases, com dedicação à pesquisa, desenvolvimento e inovação, com toda infraestrutura institucional e política em favor de um projeto de país, retirando mais de 700 milhões de pessoas da pobreza, a China passou a preocupar não apenas líderes políticos, industriais, mas uma elite global, porque passou a gerar produtos competitivos não mais por preço, mas por tecnologia agregada, valor e qualidade alcançada. Ou seja, não se tratava mais de competir com pequenas fábricas de brinquedos existentes nos diferentes países. A complexificação da organização política, industrial, inovadora e financeira pressionou os países centrais e sua hegemonia capitalista.
A partir do cenário de ascensão da China no contexto da geopolítica global se começou a questionar a natureza das organizações políticas, econômicas e financeiras chinesas. Se antes parecia cômodo ignorar as apresentações do perfil do país liderado por um partido comunista, com seu enriquecimento esta questão passou a ser um ponto de tensão político, econômico, geográfico e cultural. Nesta perspectiva, as discussões geopolíticas retomam força e presença nos debates nacionais e internacionais. Nos botequins e nas lives, passou-se a discutir novamente do que se trata o Socialismo. E, em sociedades em que todos viraram sommelier de tudo, até de vacina, aparecem (ou reaparecem) também os sommelier do Socialismo, inclusive bradando por leis de pureza.
Na academia o debate também se apresenta. Discussões entre Capitalismo de Estado e Socialismo de Mercado se colocam como uma batalha de ideias. Esta, em si, é de extrema importância, e o presente texto pretende contribuir para este embate, pois se considera que a partir dos embates é possível gerar reflexões mais profundas, e este deve movimentar diferentes canais de comunicação.
A questão que apresentamos neste texto é: por que questionar uma proposta apresentada por um país desta maneira? Quem são os demais países para questionar se o Socialismo com características chinesas é de fato Socialista? Seriam eles Socialistas para conhecer a verdade sobre o Socialismo? Já houve movimento similar para questionar a validade e pureza do capitalismo apresentado pelos Estados Unidos e seus satélites? Será que a intervenção frequente estado-unidense no resgate aos bancos e grandes empresas, a cada crise, a cada escândalo, pode ser considerada como, de fato, capitalista? Seriam a Bélgica, França ou a Holanda capitalistas de fato? Mesmo com seus braços violentos estendidos por extensões extracontinentais na América Latina ou África controlando até hoje territórios, (cobrando dívidas absurdas), promovendo conflitos em pleno século XXI?
Por outro lado há também a apresentação da China como Capitalismo de Estado, criação extra-chinesa, denominação que parte de estrangeiros e não dos próprios chineses. Aliás, um exercício importante que se deve fazer é: de onde surgiu ou quem criou a expressão Capitalismo de Estado para denominar a China? E, podemos prosseguir, haveria outro Capitalismo que não o de Estado? Afinal, “o capitalismo só triunfa, quando se identifica com o Estado, quando é o Estado.” (Braudell, 1995)
Assim, parece haver uma aproximação do “se não pode com eles, junte-se a eles” ou junte-os aos seus esforços. Nesta direção, retomando a tese de Flávio Diniz Ribeiro, empreender desenvolvimento como política de estado dos Estados Unidos não implicava em contenção do comunismo, mas sim em expansão do modo de vida que interessava aos Estados Unidos. Por isso, o esforço de torná-los capitalistas, mesmo não se apresentando assim, considerá-los desta maneira ou questioná-los pelo que se apresentam, expor tensões geopolíticas e, considerar um lado apenas da questão, o externo ao Chinês.
Claro, é possível alegar que se trata de exercício crítico ao que a própria China apresenta ser. E, a isto se pode também questionar: por que não se questionou anteriormente na fase industrial inicial? Ou por que não se questionou a pureza ou existência do Socialismo cubano? Será que o enriquecimento e ascensão na geopolítica internacional nada têm a ver com este questionamento?
Assim, é preciso considerar que há mais questionamentos do que certezas neste debate. Que se trata sim de importante afazer, especialmente em função das pressões sociais e, ambientais que o modo capitalista apresentou ao longo e ao largo dos últimos tempos, e por estarmos diante da possibilidade de repensar o futuro do Brasil e dos demais países. Assim, assumir uma definição do que outro país faz, pelo olhar de outros não parece gerar certezas acadêmicas, científicas e, muito menos políticas. É preciso reconhecer como estratégia determinante diante do novo, do diferente, do outro, a construção de narrativas que desqualifiquem o outro.
Por fim, rememorar a condição em que foram construídas as bases do desenvolvimento, sob o massacre dos povos, da pilhagem de riquezas naturais, escravidão, entre tantas outras barbáries, inclusive contra China. E o regime de acumulação do capital que viabilizou a hegemonia norte-americana e europeia ao longo do século continuou se constituindo sob a promoção de guerras (e de batalhas de ideias também) contra povos subdesenvolvidos mundo afora. Desta maneira se coloca como necessário analisar quem se propõe a estruturar outra trajetória. Em tempos de crises políticas, econômicas, ambientais, é preciso encarar esta multipolaridade com toda a seriedade para vislumbrar outras formas de viver, especialmente os que precisam considerar sua própria trajetória, problemas, desafios e anseios.
Cintia Neves Godoi – Prof. Dra. em Geografia
Sandro Luiz Bazzanella – Prof. Dr. em Ciências Humanas
Carlos José Espíndola – Prof. Dr. em Geografia
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Caronte
16 de maio de 2023 9:29 amTexto horrível, simplesmente horrível, porque tenta simplicar o que não é possível simplificar, aí, ao invés de serem didáticos tornam-se apenas simplórios mesmo…
Ora, basicamente o que difere o capitalismo do socialismo é a propriedade dos meios de produção (capital) e a expropriação de quem só detém a força de trabalho, que por suas vezes determinam o modo social de produção, ou seja, se é privado, é capitalista, se é do estado hegemonicamente controlado pelos trabalhadores, é socialismo…
Ahhhhhhhhhh, mas na China as empresas são estatais (ou a maioria delas)… sim, mas o modo de produção permanece (como na ex- URSS) organizado para retirar dos trabalahdores a mais-valia, e mantendo a hierarquia de classes, não só substituindo as elites capitalistas por uma burocracia estatal, mas determinando autocraticamente quem serão as elites econômicas privadas…
O centralismo político chinês não altera a configuração do modo econômico de organização social, pois não se dirige à extinção das classes sociais dispostas no modo de produção capitalista, e a criação de um modo coletivo (socialista) de produção…
Arf,…