21 de maio de 2026

A face oculta do neoliberalismo, por Michel Aires de Souza Dias

As promessas do neoliberalismo são promessas traídas. O importante é performar, se superar, para que um dia a promessa seja cumprida.

A face oculta do neoliberalismo: a ansiedade, o medo do fracasso e a cultura da autoexploração.

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por Michel Aires de Souza Dias

Após a segunda guerra mundial, o mundo viveu os anos dourados do capitalismo. O Estado moderno assumiu seu verdadeiro papel democrático, como provedor de benefícios sociais para a população, valorizando a saúde, a educação, a cultura e a justiça social. Foi uma época de pleno emprego para a classe trabalhadora. Por meio de um maior controle e intervenção na economia, houve um maior crescimento econômico sustentado. A implementação de políticas fiscais e monetárias expansivas gerou grande crescimento econômico nos países democráticos, possibilitando maior distribuição de renda e a diminuição das desigualdades sociais. O advento do estado de Bem-Estar Social possibilitou um maior controle sobre os ciclos econômicos, por meio de políticas keynesianas, estabelecendo um crescimento sustentado do capitalismo.

Essa época de ouro do capitalismo começou a entrar em crise na década de 70. As políticas keynesianas começaram a ter dificuldades em controlar a inflação e o desemprego. Segundo Harvey (1993), naquele período houve a diminuição das taxas de lucros decorrente do excesso de produção e esgotamento da acumulação fordista. As grandes indústrias na Europa, no Japão e EUA se viram com um excedente de produção, assim como fábricas e equipamentos ociosos num mercado cada vez mais competitivo. Era uma época de recessão e agravamento da inflação, ou seja, de estagnação da produção de bens e alta inflação de preços. A solução para contornar a crise foi reestruturar a produção, aliando a automatização da indústria, a terceirização da mão de obra e a flexibilização do mercado de trabalho. Para escoar o excedente produtivo, as grandes empresas foram atrás de novos mercados nos países da América do Sul, da África e da Ásia. O resultado disso foi uma maior globalização dos mercados, que abriu o terreno para os grandes conglomerados econômicos controlarem a política e a economia dos países subdesenvolvidos. Essa crise representou, portanto, um ponto de inflexão crítica da economia global, pois preparou o caminho para a ascensão do Neoliberalismo.

Com a expansão das políticas neoliberais na década de 1980, houve uma significativa redução do papel do Estado na economia e nos investimentos em políticas de bem-estar social. Consequentemente, os trabalhadores perderam grande parte da proteção social que possuíam, sendo expostos a um novo cenário globalizado. Nesse novo contexto, sem a proteção do Estado, eles tiveram que enfrentar sozinhos o desemprego, a exigência de múltiplas qualificações e a intensa competição por trabalho. Ao mesmo tempo, observou-se um aumento na concentração de renda, crescimento das desigualdades sociais, ataque às leis trabalhistas, cortes dos gastos públicos em saúde e educação, e uma repressão violenta aos movimentos populares. Como bem avaliou Bresser-Pereira: “Desde os anos de 1980 houve um grande aumento do risco econômico – crises financeiras, flexibilização e precarização do trabalho, desemprego, perda de segurança diante da doença e da velhice. A multiplicação das crises financeiras foi fruto da desregulação neoliberal. A precarização do trabalho foi decorrência da tentativa neoliberal bem-sucedida de diminuir a proteção oferecida pelas leis trabalhistas, cujo custo é incorrido principalmente sobre as empresas, e pela tentativa malsucedida de reduzir o tamanho do Estado do Bem-estar Social” (BRESSER-PEREIRA 2014, p. 96).

No atual estágio das forças produtivas, o capitalismo poderia ter acabado com a pobreza, a fome, a miséria, a criminalidade e os conflitos de classe. Com o progresso da ciência e da tecnologia, a humanidade desenvolveu todas as forças materiais e intelectuais para pacificar a luta pela existência. Hoje, a classe trabalhadora poderia viver mais plenamente, dispondo de seu tempo livre para a contemplação e a fruição do prazer. Contudo, as sociedades modernas não alcançaram este estado de plenitude que teoricamente seria possível. Os valores iluministas não se realizaram no processo histórico. Todas as promessas da razão iluminista foram promessas traídas.

O que podemos observar no mundo atual é a regressão do homem a estágios antropologicamente anteriores a evolução da espécie humana. Os indivíduos regrediram ao estado de natureza, uma vez que ainda precisam lutar para sobreviver. Apesar de não temer mais os animais selvagens e as forças da natureza, o homem teme as forças destrutivas da sociedade, como a fome, a miséria, o desemprego, a violência e a criminalidade. A sociedade capitalista hoje representa uma segunda natureza, uma vez que promove uma competição desenfreada pela sobrevivência e uma luta encarniçada pelos bens escassos: “Nesse processo, a racionalização progressiva, como padronização do homem, faz-se acompanhar de uma regressão igualmente progressiva” (ADORNO; HORKHEIMER, 1978, p. 40-1).    

No começo da década de quarenta, Herbert Marcuse publicou um pequeno artigo na revista do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, denominado “Algumas implicações sociais da tecnologia moderna”, mostrando que o capitalismo, em sua fase monopolista, transformou os indivíduos em objetos de organização e coordenação em larga escala. A mecanização e a racionalização foram capazes de estabelecer padrões, formas de comportamento e atitudes que predispõem os indivíduos a aceitar e a introjetar seus mandamentos. Nesse sentido, o indivíduo só pode sobreviver se adaptando aos padrões externos, de desempenho e eficiência, que são colocados como imperativos para a manutenção da vida. Em seu livro “Eros e Civilização” (1955) o pensador frankfurtiano chegou à conclusão de que nossa sociedade é determinada pelo “princípio de desempenho”, entendendo por isso o sacrifício do indivíduo ao subordinar seus instintos e impulsos à eficiência e à lógica do trabalho. Desse modo, o desempenho individual é motivado, guiado e medido por padrões externos ao indivíduo, padrões que dizem respeito a tarefas e funções predeterminadas.  

Passados mais de 50 anos da obra “Eros e civilização”, o coreano Byulg-Chul Han publicou sua obra “A sociedade do cansaço” (2010), que aborda a sociedade contemporânea pela ótica da pressão pelo desempenho, pela autoexploração e exaustão causada pelo excesso de trabalho. Se Michel Foucault diagnosticou a sociedade moderna, desde o século XVIII, como sociedade disciplinar, onde o espaço social foi visto a partir do uso de práticas e técnicas de controle e de disciplina, o pensador coreano pensou a sociedade contemporânea, a partir do século XXI, como sociedade do desempenho: “A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho” (BYULG-CHUL HAN, 2015, p. 14). Nessa nova sociedade, cada um torna-se empreendedor de si mesmo, cada um depende de si mesmo para se vender como uma mercadoria desejável no mercado de trabalho. Há uma obrigação de superação constante, onde cada indivíduo torna responsável por seu sucesso ou fracasso. Nessa forma de sociedade, o indivíduo se explora voluntariamente. A ilusão está no falso sentimento de liberdade que a pessoa sente ao ser cada vez melhor, cada vez mais produtiva. Ao acreditar que está se autorrealizado, ela está na verdade se explorando até a exaustão. O resultado disso são as doenças psíquicas como a depressão, os déficits de atenção, a síndrome de burnout e as crises de ansiedade.

No mundo neoliberal, os indivíduos estão correndo atrás de algo que nunca chega. Elas estão sempre se aprimorando, tornando-se cada vez melhores, mas não veem resultados de seus esforços. Por mais que elas façam, nunca é o suficiente. Essa sensação de fracasso não é a exceção, mas a regra. O neoliberalismo ao promover a competição desenfreada, produz uma cultura do desempenho que afeta milhões de pessoas. As promessas do neoliberalismo são promessas traídas. O importante é performar, estar sempre se superando, para que um dia a promessa seja cumprida. Mas a promessa nunca é cumprida, o fracasso é a regra. O resultado é uma sociedade da exaustão, que gera sempre uma insegurança e o medo do fracasso. As pessoas se tornam cada vez mais ansiosas, incapazes de parar e refletir, vivem numa eterna busca de algo que não alcançam.  

Para o pensador francês Michel Foucault (2008), o neoliberalismo está inscrito no âmbito da história das práticas de governar. Em seus estudos, ele procurou investigar essas práticas, procurando compreender seus diferentes objetos, suas regras gerais, seus objetivos de conjunto, com a finalidade de bem governar. Governar no sentido de racionalmente guiar a vida dos homens, de controlar e dirigir suas condutas, assim como constranger suas ações e reações. Nesse sentido, o neoliberalismo não é apenas uma ideologia ou uma política econômica, mas um modo de governo que impõe um sistema normativo, uma nova racionalidade, que estende a lógica do capital a todas as relações sociais e a todas as esferas da vida.

Ao considerar as teses de Foucault sobre a governamentalidade, Dardot e Laval (2016) procuraram mostrar em sua obra, “A nova razão do mundo”, que o neoliberalismo não representa apenas um retorno ao capitalismo liberal do século XIX, ou um conjunto de políticas voltadas para a economia de mercado, mas representa, antes de tudo, uma forma de racionalidade que atinge todas as esferas da vida social. Nesse sentido, o neoliberalismo não só determina as práticas econômicas, mas também molda as formas de comportamento, as relações sociais e as instituições políticas nos países democráticos. Enquanto instrumento de governamentalidade, o neoliberalismo produz certas formas de relações humanas, certos modos de viver e novas formas de subjetividade. Nas palavras dos próprios autores: “[…] com o neoliberalismo, o que está em jogo é nada mais nada menos que a forma de nossa existência, isto é, a forma como somos levados a nos comportar, a nos relacionar com os outros e com nós mesmos. O neoliberalismo define certa norma de vida nas sociedades ocidentais e, para além dela, em todas as sociedades que as seguem no caminho da ‘modernidade’. Essa norma impõe a cada um de nós que vivamos num universo de competição generalizada, intima os assalariados e as populações a entrar em luta econômica uns contra os outros, ordena as relações sociais segundo o modelo do mercado, obriga a justificar desigualdades cada vez mais profundas, muda até o indivíduo, que é instado a conceber a si mesmo e a comportar-se como uma empresa (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 14-5).

O maior feito da racionalidade neoliberal foi transformar os indivíduos em empresários de si mesmos, cada um é responsável por suas vitórias ou fracassos. O indivíduo só pode se tornar sujeito se antes se transformar em mercadoria. Cada um deve depender de si e de suas qualidades para se tornar desejável no mercado. Nesse sentido, o homem não é um animal político como afirmou Aristóteles, nem mesmo um ser racional como afirmou Descartes, muito menos um ser dos afetos como afirmou Espinosa, na verdade o homem é um ser econômico. A nossa subjetividade é contábil e financeira.  O “Eu” é uma empresa: “A empresa é promovida como modelo de subjetivação: cada indivíduo é uma empresa que deve se gerir e um capital que se deve fazer frutificar” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 372).

Referências

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Sociedade. In: ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Temas básicos de sociologia. São Paulo: Cultrix, 1978, p. 25-44.

BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Modernidade neoliberal. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 29, nº 84, p. 87-102, 2014.

DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Editora Boi Tempo, 2016. 

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

HAN, Byung-Chul Sociedade do Cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1993.

MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1982.

MARCUSE, Herbert. Algumas Implicações Sociais da Tecnologia Moderna. In: Tecnologia, Guerra e Fascismo, São Paulo: Editora Unesp, 1999. p. 71-104.


Michel Aires de Souza Dias – Doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do IFMS – Instituto Federal do Mato Grosso do Sul. Email: michel.dias@ifms.edu.br

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Michel Aires

Graduação em filosofia pela UNESP. Mestre em filosofia pela UFSCAR. Doutor em educação pela USP. Tem experiência nas áreas de Filosofia e Educação, com ênfase na Teoria Crítica, em particular, nos pensamentos de Herbert Marcuse e Theodor Adorno. Possui artigos publicados nas áreas de educação, filosofia e ciências sociais.

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  1. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    27 de agosto de 2024 8:34 am

    A face oculta do neolibelarismo, é a ação política da ultra direita. Ou numa linguagem mais coloquial, o plano B acionado pelas elites usando os lumpanato do proletário e da burguesia.

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