21 de maio de 2026

Lula, a imprensa e a descomodificação da força de trabalho, por Michel Aires

A imprensa burguesa afirma que a baixa taxa de desemprego causa a falta de mão de obra no mercado de trabalho e gera o aumento dos salários

Lula, a imprensa e a descomodificação da força de trabalho

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por Michel Aires de Souza Dias

A grande mídia denominada como PIG – Partido da Imprensa Golpista, cuja expressão foi cunhada pelo jornalista Paulo Henrique Amorin, já começou a atacar os ganhos da classe trabalhadora. Com uma taxa desemprego de 7,8% no primeiro trimestre de 2024, estabelecendo um recorde histórico de pessoas ocupadas nos últimos 10 anos, e com o aumento da renda média da classe trabalhadora para mais de 3000 reais, a grande mídia começou a ficar histérica. Os jornalistas afirmam que o Mercado e Banco Central acenderam à “luz amarela”. Para a elite financeira e empresarial, as baixas taxas de desemprego e o aumento de renda da classe trabalhadora devem produzir um impacto negativo na economia. Sem o menor pudor, a imprensa burguesa argumenta que a baixa taxa de desemprego produz a falta de mão de obra no mercado de trabalho e, em consequência disso, gera o aumento dos salários. Desse modo, há um excesso de aquecimento na economia, que faz aumentar a inflação.  Esse tipo de argumento  tem uma única finalidade, defender os interesses do grande capital.

No Brasil, a mão de obra sempre foi uma commodity, uma mercadoria barata. As elites para controlar a classe trabalhadora historicamente sempre mantiveram um exército de reserva de desempregados. Ao manter uma alta taxa de desemprego, a burguesia também mantém os salários baixos, aumenta a acumulação de capital e inibe as reivindicações trabalhistas. Por essa razão, a imprensa golpista sempre atacou governos trabalhistas, como os de Getúlio Vargas, Jucelino Kubitschek e Lula. Hoje, Lula representa uma pedra no sapato das elites financeiras e empresariais.

Podemos afirmar com segurança que o grande objetivo do governo Lula é a descomodificação da força de trabalho. Quando o capitalismo transforma a força de trabalho em uma commodity, ou seja, em uma mercadoria barata, o trabalhador torna-se totalmente dependente da sua força de trabalho para sobreviver. Mas, quando o Estado de Bem-Estar acolhe e protege o trabalhador, por meio de políticas sociais, há uma descomodificação da força de trabalho. Ao oferecer proteção ao trabalhador, garantindo condições básicas de sobrevivência, as políticas sociais valorizam a força de trabalho. O sistema de seguridade social protege o indivíduo e o torna mais independente para negociar com seu empregador. Segundo Santos (2009), a descomodificação acontece quando o indivíduo começa a ter acesso a bens e serviços de que necessita para manter sua vida, por meio das políticas sociais do Estado, enquanto direitos sociais. Desse modo, ele não precisa comprá-los com seus salários, ganhando maior autonomia para exigir melhores condições de emprego e renda. Esse é o objetivo dos programas sociais como Bolsa família, Minha Casa Minha Vida, Gás para Todos, Luz para todos, Pé-de-Meia etc. Quando o trabalhador possui condições mínimas de sobrevivência, por meio de direitos sociais, sua força de trabalho passa a ser valorizada.

  Essa experiência de descomodificação da força de trabalho pelo Estado de bem-estar social não é nova. Ela foi estudada pelo cientista social dinamarquês Esping-Andersen, nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ele ficou conhecido pelo seu livro Trois Mondes de l’État Providence (Três mundos do Estado de bem-estar social), tornando-se um clássico sobre o assunto. Em seus estudos, o cientista social encontrou os maiores índices de universalidade das políticas as sociais nos países nórdicos, como Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia. Nesses países o sistema de proteção social atingiu a todos. São esses países que apresentaram os maiores gastos com seguridade social (SANTOS, 2009). São esses países hoje que possuem os maiores índices de IDH – Indice de Desenvolvimento Humano. Se este é o caminho que o Brasil está seguindo, estamos no rumo certo.

Referências

SANTOS, Maria Paula Gomes dos. O Estado e os problemas contemporâneos. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração / UFSC, 2009.


Michel Aires de Souza Dias – Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo

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O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Michel Aires

Graduação em filosofia pela UNESP. Mestre em filosofia pela UFSCAR. Doutor em educação pela USP. Tem experiência nas áreas de Filosofia e Educação, com ênfase na Teoria Crítica, em particular, nos pensamentos de Herbert Marcuse e Theodor Adorno. Possui artigos publicados nas áreas de educação, filosofia e ciências sociais.

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2 Comentários
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  1. WRamos

    31 de março de 2024 11:54 am

    O processo de valorização do trabalho fica muito claro neste texto. Porém, acho que é insuficiente dizer que a reação em contrário seja do capital. Quem afirma que os ganhos dos trabalhadores geram inflação, juros e recessão não é todo o capital, apenas sua “elite” privilegiada que tem os meios de comunicação ao alcance do bolso.
    Pela lógica do capital, os ganhos dos trabalhadores são aumento de demanda. Suficiente para incentivar ampliação da oferta, primeiro por ampliação de estoques com utilização de capacidade ociosa e depois por aumento de capacidade. O ministro Luiz Marinho está chamando atenção para isto com toda razão, dizendo que a resposta aos ganhos dos trabalhadores deveria ser aumento da oferta.
    O que a elite condutora do capital faz é apregoar que suas próprias crenças são ineficazes, e defendem que a situação de desatendimento da maioria continue como está. Não tem disposição nem capacidade de enfrentar novos concorrentes.

  2. Paulo Dantas

    31 de março de 2024 12:42 pm

    A reserva da força de trabalho vem de uma economia que não cresce.

    Nenhuma estratégia creio.

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