5 de junho de 2026

Após 10 dias de visita a Manaus, agentes da Pastoral Carcerária relatam situação

Equipe relata impunidade de toda a situação e lança uma pergunta ao poder público do Amazonas, a Umanizzare e as instituições do sistema de justiça: quantos mais vão precisar morrer?

da CNBB

Após 10 dias de visita a Manaus, agentes da Pastoral Carcerária relatam situação

Luisa Cytrynowicz*

A Pastoral Carcerária Nacional enviou uma equipe para Manaus após o recente massacre nas prisões. O texto que segue em anexo foi escrito por pela assessora jurídica da Pastoral. Além dos muitos relatos, o texto fala da impunidade de toda a situação e lança uma pergunta ao poder público do Amazonas, a Umanizzare e as instituições  do sistema de justiça: quantos mais vão precisar morrer até que se considere inaceitável que essas unidades prisionais continuem existindo?

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Quantos mais vão precisar morrer?

Às famílias que depois que seus filhos morreram não atendem mais o telefone, dizem até que elas nem vivem mais em Manaus; à mãe que rezava o terço na segunda-feira, orando pelas famílias que perderam seus parentes no domingo, e foi interpelada por alguém que veio lhe dizer que o luto também era seu – seu filho havia sido assassinado pela manhã;

À senhora que recentemente viu seu filho sair do semi-aberto, mas não pode enterrar o sobrinho, cujo desaparecimento na chacina do COMPAJ de 2017, sem que constasse na lista de mortos, ainda não foi explicado; à mulher que correu desesperada para a entrada do ramal na segunda-feira, após a primeira leva de mortes, na certeza de que o conflito se estenderia, e ao implorar para que a polícia entrasse, escutou em retorno: “deixe que se matem entre eles”; ao ex-agente da Umanizzare que acordava apavorado durante a noite tendo pesadelos com os presos sendo torturados pelo Choque;

Às tantas famílias que se aglomeraram na porta das unidades em busca de notícias conforme circulavam os boatos de mortes e receberam nas mãos, ali mesmo, uma lista de nomes e a informação de que todos os que estivessem nela haviam morrido; à moça que nos dias que se seguiram pediu desesperada à assistência social da unidade notícias sobre seu irmão, já que as visitas estão suspensas por tempo indeterminado e as notícias de feridos são obscuras, e recebeu como única resposta: “se ele não morreu, está vivo”;

À venezuelana que está em busca de alguma informação sobre os estrangeiros presos, preocupada que muitas famílias vivem em outros países sem ter notícias de seus parentes; ao agente da Pastoral Carcerária que escuta tudo isso e diz, preocupado, que teme que a lista de mortos do massacre de 2019 seja maior: imagina se um desses venezuelanos apenas some – corpo, nome – sem que sua família tenha condições de reclamar por sua vida, quem ia dizer que ele um dia esteve lá?;

À senhora que perdeu seu irmão dentro do sistema prisional poucos anos atrás, fruto de agressões e omissões de cuidado, e que chorou tudo de novo essa semana, pensando nas famílias dos 55 mortos; à familiar que teve seu corpo tão invadido em uma revista vexatória, que nunca mais retornou para visitar; ao homem que foi morto na prisão na segunda-feira, poucas horas antes de o seu alvará de soltura chegar; a todos aqueles que apanharam do Choque, inclusive com cachorros, nos últimos meses nas unidades prisionais de Manaus; aos que receberam refeições estragadas, comida azeda;

À equipe da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Manaus, que após as mortes de 2017 ficou quase 6 meses sem conseguir visitar e que agora também está com as visitas suspensas por tempo indeterminado; aos tantos homens assassinados, cujos corpos ficaram congelados em um caminhão frigorífico na porta do IML, pois não havia espaço lá dentro para a quantidade de mortos que chegavam; aos três homens que acabavam de ser detidos, algemados e enfiados no camburão como bichos, que chegavam ao IML para serem examinados e descerem ao presídio, no mesmo momento em que mais um corpo era liberado para o enterro;

Às mães que lembraram o carinho que receberam dos filhos na última visita. Eram tantos “eu te amo” que só agora elas entendiam que os filhos se despediam, eles já sabiam que iam morrer; à mãe que estava na fila para visitar seu filho no domingo, quando os agentes lhe expulsaram com metralhadora na cabeça, pois já haviam começado as mortes e que, na segunda pela manhã, recebe a notícia de que também seu filho foi assassinado; ao agente da Umanizzare que carregou pilhas de corpos e pedaços de gente em carrinhos de lixo para fora do complexo em 2017 e nunca recebeu um pingo de assistência psicológica;

Às milhares de pessoas que continuam aprisionadas em condições degradantes nas cadeias de Manaus; aos presos das unidades prisionais onde ocorreram as mortes, que desde então – talvez desde muito antes, ninguém sabe dizer ao certo – não foram ouvidos por nenhuma instituição de controle externo para saber sobre as condições de aprisionamento; aos presos que saíram das unidades prisionais nestes últimos dias e fizeram saber que estão “carecando” os presos no IPAT, que a comida por vezes não chega, água nem pensar, que cortaram o banho de sol.

Que desde as mortes estão colocando os presos em “um tal de procedimento”: tem que ficar “igual um feto no chão, acocado, com as pernas encolhidas, a mão no pescoço e a cabeça abaixada”. Que jogam spray de pimenta o tempo todo; aos familiares que imploram por uma visita dos direitos humanos para que não seja apenas a palavra delas denunciando; às tantas familiares que rodam Manaus denunciando o cotidiano de tortura nas unidades prisionais e àquelas cujo grito de socorro resta sufocado pelo medo;

Às que já tiveram suas carteirinhas de visita cortadas por levantarem a voz frente às humilhações; aos mais – quanto mais? – de 100 mortos nas unidades prisionais de Manaus nos últimos anos. A todos eles o poder público do Amazonas, a Umanizzare e as instituições  do sistema de justiça devem uma resposta: quantos mais vão precisar morrer até que se considere inaceitável que essas unidades prisionais continuem existindo?

*Luisa Cytrynowicz é assessora jurídica da Pastoral Carcerária Nacional

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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  1. Zé Sérgio

    18 de junho de 2019 4:25 pm

    E a Igreja Católica Apostólica Romana descobriu que existem Pessoas na Amazônia !!!! Não são apenas Árvores !!!!! É espetacular ver o cartaz no Vaticano sobre o Sínodo a respeito da Amazônia. São árvores, árvores e mais árvores. A HUMANIDADE que precisa ser salva com tamanha BioDiversidade e Território não é bem Aquela que mora no Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Amapá,…. Nem naqueles Presídios Medievais. Caro Papa Francisco: “Conheceis a Verdade. E a Verdade Vos Libertará”.

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