Ascensão e queda de um influencer-candidato?
por Fábio de Oliveira Ribeiro
A eleição paulista foi marcada pelo fenômeno Pablo Marçal. Influencer que enriqueceu explorando as vulnerabilidades emocionais de uma parcela da população com ajuda dos algoritmos de redes sociais, ele fez a transição da vida econômica para a política desestruturando todas as expectativas eleitorais na cidade mais populosa e importante do Estado de São Paulo e quiçá do Brasil.
Para refletir sobre esse fenômeno, farei aqui algumas considerações sobre um conto e três filmes.
No conto “A metamorfose”, publicado pela primeira vez em 1915, Kafka narra a fantástica transformação do personagem Gregor Samsa num inseto. Isso proporciona condições para o leitor refletir de maneira crítica sobre como as relações humanas podem paradoxalmente levar à desumanização de alguém no ambiente familiar. Após perder suas características humanas, Sampsa tenta entender sua nova situação e agir de maneira adequada.
“A mosca” é um clássico do cinema de ficção científica. Nesse filme de 1958 a desumanização da personagem é acidentalmente provocada por uma nova tecnologia. Os efeitos negativos imprevisíveis da invenção são ignorados pelo inventor e o risco do uso dela é desprezado por ele durante um teste. A estrutura genética do protagonista é adulterada e ele começa a se transformar numa mosca. Atormentado pela acelerada perda de sua racionalidade, André Delambre comete suicídio com ajuda da esposa.
“Terminator” (1984) é uma variação modernizada do mesmo tema. Mas no caso desse filme é a própria invenção sai do controle humano. Após conquistar autonomia, a inteligência artificial Skynet passa a se reproduzir em escala industrial automatizada para exterminar os seres humanos como se eles fossem insetos. Os humanos reagem liderados por John Connor, então a Skynet envia um robô ao passado para matar a mãe do líder da resistência.
No filme “Matrix” (1999) os seres humanos foram transformados em baterias que geram a energia necessária para manter o mundo das máquinas. Eles são criados artificialmente e mantidos em casulos conectados ao sistema e vivem numa realidade virtual que acreditam ser o mundo real. Após ser localizado e libertado do seu casulo, Neo é treinado. Então ele começa a liderar a guerra contra as máquinas libertando mais e mais humanos dos seus casulos.
Pablo Marçal é um produto das redes sociais e aprendeu a utilizá-las com maestria. Ele ganhou muito dinheiro como influencer. Marçal se comporta como se fosse um predador desprovido de limitações jurídicas, éticas e morais. O clone virtual dele (sua persona digital) é uma máquina de fazer dinheiro e arregimentar seguidores e eleitores. Isso é feito mediante a criação e difusão constante de mensagens dimensionadas para excitar e mobilizar ódio político, racismo, sexismo, machismo, etc… Pablo Marçal explora as vulnerabilidades emocionais das pessoas com ajuda dos algoritmos de plataformas de internet e provou que é capaz de fazer isso com mais eficiência do que o clã Bolsonaro.
O sistema legal e eleitoral que Pablo Marçal despreza limitou a ação dele durante a eleição. Agora ele terá que enfrentar as consequências jurídicas de alguns de seus atos. A criação e divulgação de um Laudo Médico falso para desmoralizar Guilherme Boulos não é um meme e não poderá ser tratado como um meme. Esse fato juridicamente relevante do ponto de vista do Direito Penal não poderá ser esquecido ou desprezado.
Portanto, ao tentar a carreira política, o influencer do PRTB foi paradoxalmente humanizado pela Justiça Eleitoral. Esse processo de humanização prosseguirá na Justiça Criminal. Nesse sentido, a jornada de Pablo Marçal é inversa àquela seguida por Gregor Samsa e André Delambre. Um inseto e ser híbrido (humano e inseto) não poderiam ser responsabilizados juridicamente por seus atos. Marçal pode ser e será responsabilizado pelas ilegalidades que cometeu.
Não conheço pessoalmente Pablo Marçal, mas me parece evidente que a persona digital que ele criou combina elementos de John Connor com os de Neo. Num mundo hostil de guerra de todos contra todos, o influencer-candidato se apresenta ao seu público como um herói que luta para se libertar da opressão e para libertar dela seus seguidores. O fato dele agir sempre com o objetivo de concentrar poder econômico e político não encarado como um problema. Ao contrário, Pablo Marçal ostenta isso e é aplaudido pelo seu público-alvo justamente porque não esconde sua ambição exagerada.
Durante a campanha, o candidato do PRTB protagonizou cenas dantescas nos debates de TV, obrigou a Justiça Eleitoral a tomar medidas para reduzir seu poder de seduzir eleitores utilizando sua vasta legião de seguidores nas redes sociais, dividiu a extrema direita provocando o ódio do clã Bolsonaro e quase chegou ao segundo turno. Aventureiro numa eleição tradicionalmente disputada por políticos experientes, Pablo Marçal conquistou 28,14% dos votos na eleição paulista. Com 1.719.274 de eleitores ele se eleva à condição de arbitro do segundo turno. Quem receber o apoio dele terá mais chances de ganhar a eleição do que seu oponente.
Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL) disputarão os eleitores de Pablo Marçal com ou sem o apoio dele. Se quiser continuar na política, o candidato do PRTB terá que antecipar seu apoio a um dos candidatos, não sendo aconselhável ele seguir o exemplo de Ciro Gomes. Em duas oportunidades distintas, Ciro Gomes fugiu par a Europa sem declarar apoio a um dos candidatos na disputa eleitoral presidencial transformando-se num zumbi político que nenhum grupo político realmente importante está disposto a carregar.
Não sei se Pablo Marçal apoiará Ricardo Nunes ou Guilherme Boulos, mas suponho que se quiser sobreviver na política ele terá que se distanciar do clã Bolsonaro. Dificilmente ele será considerado digno de confiança e poderá confiar no seu Jair e nos filhos dele depois de ter ameaçado os planos eleitorais presidenciais da extrema direita militarizante.
Se apoiar o candidato do PSOL e Guilherme Boulos ganhar a eleição, Pablo Marçar terá fortalecido um adversário menos perigoso para ele do que Tarcísio de Freiras e poderá eventualmente canibalizar o eleitorado de Lula na próxima eleição. Mas se apoiar Boulos e o candidato do MDB ganhar a eleição paulista por uma diferença pequena, Pablo Marçal não será necessariamente visto como um derrotado e seguirá sendo uma ameaça para o clã Bolsonaro no campo da direita.
A queda de Marçal se ocorrer não será imediata e política. O fenômeno que o criou dificilmente deixará de existir nos próximos anos. Se ocorrer, a queda dele será resultante de decisões da Justiça Eleitoral e da Justiça Criminal. Mas isso poderá ser eventualmente retardado por um bom tempo, porque a Justiça é lenta e ele certamente pode pagar bons advogados.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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MARTHA MASSAKO TANIZAKI
10 de outubro de 2024 4:39 pmA minha pergunta é: será que a justiça criará vergonha e fará desse Marçal réu? Antes tarde do que nunca ou deixara o crime correr?