15 de junho de 2026

Cenários Narrativos da Direita, por Frederico Firmo

Estabelecido o cenário, o debate é pautado. O cenário é criado a partir de um velho dito: uma mentira repetida se transforma em verdade.
Fundação FHC

Cenários Narrativos da Direita.

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por Frederico Firmo

A conspiração da direita  se movimenta com os mesmos objetivos de emparedar e tutelar Lula e impedir principalmente a possibilidade de um novo governo de Lula ou algum candidato progressista. A linha de frente é o movimento coordenado da grande imprensa, Folha, Estadão, Globo e  redes sociais. Como no período Lava Jato, se dedicam a criação de uma narrativa, isto é de um cenário narrativo que substitua a realidade. Uma vez estabelecido o cenário, ele pauta e define os limites do debate. O cenário é criado a partir de um velho dito: uma mentira repetida inúmeras vezes se transforma em verdade. 

No contexto da Lava-jato o país entrou em delírio e  naquele cenário, a corrupção  não era mais objeto de questionamento, mas sim um fato atribuível a qualquer um que fosse alvo da famigerada operação. Podia ser um Almirante Othon, um ex-presidente ou um reitor. O símbolo do cenário era a tela de fundo do jornal nacional de onde dinheiro fluía de tubos, que podiam ser de esgoto ou tubulações da Petrobrás. A imagem se tornou, com o tempo, auto explicável. E se inseriu no imaginário social.  Os tempos mudaram e as novas tecnologias da comunicação e da rede “democratizaram o espaço de criadores de narrativas e cenários”. Grupos de interesse  criaram  narrativas,  alimentando bolhas dentro da sociedade. Qualquer um numa das bolhas  introjeta a narrativa como um conjunto de dogmas inquestionáveis  e  critérios  que definem  assuntos  relevantes, irrelevantes e  os proibidos. A construção da narrativa não é mais exclusiva da grande imprensa e mídia, porém  a grande imprensa é essencial para a criação de  um cenário e de uma narrativa hegemônica.  Como desde o mensalão,   as velhas castas políticas visam estabelecer uma narrativa que atinja o governo Lula. O objetivo é desestabilizar e principalmente evitar de qualquer forma de continuidade, seja pela reeleição, seja por um novo candidato do campo progressista. 

 Na era da informação e desinformação o grande protagonista é o  discurso em detrimento da realidade, parece que o mundo sofreu um “turn linguístico”. A Venezuela é uma prova deste movimento. O discurso sobre a Venezuela vem montando o cenário  há vários anos. Com o cenário montado é  impossível discutir algo que não  seja a deposição de Maduro. As fraudes eleitorais  já não são uma dúvida, e o reconhecimento da vitória da oposição se tornou indiscutível.   Tudo que Corina Machado disser é verdade. Apesar dos esforços de Brasil, Colômbia e México  e outros organismos internacionais, as atas agora se tornaram irrelevantes. A demora de Maduro em apresentar as   atas só fortaleceu esta narrativa. Desde Barbados as eleições da Venezuela estavam fadadas a este cenário. Ao invés de combater a narrativa, Maduro  seguiu o  roteiro, e ajudou na construção do cenário. Invés de se apoiar nas melhorias da economia venezuelana, resolveu investir em uma óbvia bazófia, reivindicando Essequibo. Este discurso   apenas alimentou as suspeitas de que não estava tão forte eleitoralmente.  E assim foi entrando cada vez mais na armadilha e municiando a narrativa. Enquanto Chaves se apoiava fortemente no apoio popular e no fracasso total da elite petroleira e da direita venezuelana, Maduro não soube analisar a conjuntura e nem agir de acordo. Com o cenário montado, Maduro está de mãos atadas, e mesmo que mostre as atas, nada vai mudar. O isolamento da Venezuela parece inevitável.

  No Brasil  a questão da Venezuela é apenas  lenha na fogueira da política interna.  Desde os primeiros dias de protagonismo internacional de Lula foram reforçando uma narrativa de que todos os movimentos em direção à Venezuela seriam movimentos ideológicos em defesa de uma ditadura de esquerda. Da narrativa também decorre que Lula e PT são anti democráticos. Esta narrativa serve para reforçar o discurso de que Lula e Bolsonaro são faces da mesma moeda. Isto alimenta as pretensões da direita  em busca de um nome de um candidato “moderado”. A campanha  se acirra com as eleições municipais, mas o objetivo é  2026.

A direita,  eufemisticamente chamada de centro-direita,  movimenta  suas falanges, na imprensa, e nas instituições. Quanto mais tempo levar o julgamento de Bolsonaro  mais tempo e espaço para a direita.  Se não conseguir um candidato próprio,  não terá o menor receio de  se apoiar nos votos do bolsonarismo. Por isto evita a todo custo um rompimento.

 As falanges institucionais da direita mobilizaram o TCU, de tantos serviços prestados a lava-jato, e inventaram um julgamento sobre o relógio de Lula. Obviamente os ministros do TCU sabem do peso deste circo. O relógio de Lula não estava em questão, mas ao invés de julgar o pedido como litigância de má-fé, em tempo recorde os ministros resolveram alimentar a bolha bolsonarista reafirmando  o discurso de que Bolsonaro é inocente no caso das joias. Tudo será feito para manter o bolsonarismo como reserva eleitoral. 

Demonstrando que estes movimentos são bem coordenados, num timing suspeito, gravações aparecem colocando Moraes sob suspeita.  Na verdade, tentam fabricar argumentos para arquivar o processo das fake-news.  O ataque a Moraes não se sustenta, mas já cumpriu o seu papel. A velha imprensa questiona os métodos de Moraes e os compara à Lava Jato. Mobilizaram até o simbólico Greenwald, o “americano inocente”, cujo nome está ligado à Vaza-jato. Foi uma escolha seletiva. Embora o ataque tenha sido prontamente rebatido, com uma   resposta firme do STF, reforçou a narrativa bolsonarista, o factoide cumpriu seu papel. A Folha de São Paulo vai dobrar a sua aposta  e os ataques a Moraes vão continuar. Tarcisio, bate na prego quando privatiza a SABESP, para agradar o mercado, e na ferradura quando já disse que quando presidente irá acabar com Moraes, para agradar à bolha bolsonarista.

   A campanha de desconstrução de Lula é um processo  mais longo e sutil.  A tentativa de golpe e o pacto democrático criou um cenário diferente, um legislativo  emponderado, o judiciário focado nos movimentos anti-democráticos e as necessidades de reformas e de um resgate da economia deram uma pequena trégua a Lula. Mas o receio de uma reeleição ou uma passagem de bastão para alguém do campo progressista sempre esteve presente. A cada sucesso nas reformas e/ou economia, o alarme soava e era preciso dizer que os sucessos não eram de Lula. O protagonismo internacional do Brasil causou um grande mal-estar e criaram uma dicotomia entre Itamaraty e presidente. Posicionamentos firmes contra o genocídio em Gaza, ou sobre Ucrânia são chamados de gafes de um presidente despreparado  que deveria, segundo eles, apenas ler as notas do Itamaraty.   Os sucessos da economia são de Haddad apesar de Lula. As críticas ao Banco Central são intervenção e ataque à autonomia do Banco Central. No dia a dia a mídia retrata o país num ringue de disputa entre o legislativo de Lira e Pacheco  e o executivo de Lula.  A mídia exulta quando propostas do governo são derrotadas. Apesar de todos os sucessos e reformas e apesar dos avanços na economia, os dogmas da austeridade fiscal e deficit zero  são sempre lembrados. Trabalham continuamente a narrativa de um presidente despreparado com propostas econômicas retrogradas.  Quanto maior o sucesso na economia e nas questões sociais e maior a proximidade com as eleições de 24 e de 26, a campanha de desconstrução vai recrudescendo.

Para usar imagens que fortaleçam a crítica a Lula, vemos a reentrada em cena de jornalistas que foram a cara da Lava-jato.  Durante algum tempo alguns destes rostos, que ficaram tão marcados pela Lava-jato,  foram escondidos ficando em segundo plano. Ficaram com tempo de  exposição menor, nos bastidores.  Um grupo mais novo de jornalistas se tornou a cara da Globo e Globo News. Permitiram até um simulacro de debates entre eles.  Porém, a  necessidade de reforçar o cenário anti Lula exige que eles voltem a ganhar proeminência. E assim veremos, cada vez mais Mirian Leitão, Merval, Camarotti  aparecendo na telinha. Todos têm uma longa folha de serviços prestados neste métier.  Esta trinca  com Cantanhede nunca perdeu a oportunidade para atacar Lula,   sempre exalando seu preconceito e distribuindo ironias e agora ganham o reforço de Magnoli e Joel Fonseca. Do alto de suas respectivas nulidades atacam toda e qualquer fala de Lula e desejam firmemente que ele seja  tutelado. Aliás, esta trinca  entende muito de tutela, pois são a versão televisiva dos canetas de aluguel. Estão sempre a postos para  dizer o que seus patrões quiserem.  Nas falanges da campanha, eles fazem parte do mesmo pelotão   do exército de colunistas da Folha de São Paulo,  Estadão, O Globo, sempre escalados para em suas colunas irem construindo a narrativa e o cenário conveniente.

Segundo eles,   as falas de improviso de Lula, interferem no BC, nas bolsas, nas relações internacionais e no câmbio e mais recentemente na Venezuela, ao mesmo tempo,  insinuam  que Lula é irrelevante. Gostam de frases de impacto como: os governos de esquerda de Obrador, Petro e Lula são lenientes com a ditadura sanguinária de Maduro por motivos ideológicos. 

Eles são acompanhados pelas colocações dos especialistas em política internacional: Guga Chacra, Ariel Palácios e  Marcelo Lins, que se revezam para falar dos governos repressores da Venezuela, Nicarágua, China, Rússia e Irã. Falam condescendentemente de Netanyahu, mas se revoltam com o sanguinário Putin, e o autoritarismo de Xi Jin Ping.  Na América Central  se esquecem de Bukele, mas jamais de Ortega. Na América do Sul, apesar de terem Palácios, pouco falam de Milei. Se lembram de Milei apenas para dizer que Lula deveria ser mais compreensivo e relevar as pequenas bobagens de Milei. Segundo eles, apesar de tudo, na Argentina não há repressão nem decretos autoritários, pouco se fala  sobre a realidade social, mas se elogia a austeridade fiscal e o receituário econômico. Dizem que Milei  tem grande apoio popular, o que é incrível.  Nem vou falar  do tratamento dado a Zelensky.

  Enquanto a tragédia aumenta em Gaza, diminui as entradas da jornalista em Tel Aviv, e agora a notícia é que o Irã com seu radicalismo religioso não atende aos apelos pela paz, dos Estados Unidos e do ocidente democrático. Neste cenário, as bombas ucranianas nas cidades russas e as bombas em Gaza, quando atingem civis,  tem pouca importância.

O cenário  discursivo montado se estende  definindo  o que é ou não verdade, o que pode ou não ser questionado.  A economia é reduzida ao  oscilar das bolsas, e a política se submete aos  cliques das redes. As  indústrias  não são mais dadas pela produção material, mas  pelo valor das ações. Empresas deficitárias valem fortunas nas bolsas.  A economia de um país se torna tão simples quanto a economia doméstica, basta zerar a coluna do deficit.

 A mídia e quem representam  adorariam tornar as figuras públicas  avatares do mercado, manipuláveis pela virtualidade. Se maravilham com caricaturas como o avatar Milei que age como personagem de algum game. Trump e Bolsonaro são plenamente identificáveis como personagens do mesmo game. No discurso, a  economia tem de seguir as regras do livre  mercado, que  não é livre, mas um escravo da especulação. Segundo os especuladores, as palavras do presidente continuam a fazer os valores das  ações da Petrobrás caírem, dando um prejuízo de bilhões, no mesmo período em que aumenta a produção. Para  a mídia a vítima do sobe e desce das bolsas é a figura fantasmagórica do mercado, também conhecido como Faria Lima, que    não tem nenhuma responsabilidade. 

Frederico Firmo – Possui graduação em Física pela Universidade de São Paulo (1976), mestrado e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professor associado I da Universidade Federal de Santa Catarina.

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  1. LUIZ POLETTI

    23 de agosto de 2024 5:18 am

    Ótima !!!! Uma aula . Grato.

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