Observatorio de Geopolitica
O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.
[email protected]

Dois paradoxos cartográficos, por Felipe Bueno

A cartografia tem disso, uns países abaixo, outros acima do Equador, e a geopolítica mal estudada coloca etiquetas na testa das populações

Dois paradoxos cartográficos

por Felipe Bueno

A Norte do Sul está o Sul do Norte. E não nos deixemos enganar, ainda que não devamos confiar cegamente em generalizações: é no Sul dos Estados Unidos da América do Norte que teremos, salvo alguma reviravolta improvável, massiva chancela popular para a volta ao poder de Donald Trump, candidato republicano de um partido que é tudo, menos republicano nos termos históricos da legenda.

A Norte do Sul está o Sul do Norte. E, mais uma vez, não nos deixemos enganar, ainda que não devamos confiar cegamente em generalizações: é pelo Sul da Itália que se planeja que entre para a Europa o gás produzido em Israel, ajudando a aquecer no inverno um continente integralmente preocupado com o frio, mas relativamente – ou seletivamente? – cego para a elevação das temperaturas do mundo – políticas e ambientais.

A cartografia tem dessas brincadeiras, põe uns países abaixo e outros acima da linha do Equador, e a geopolítica mal estudada coloca etiquetas na testa de suas populações: uns, as vítimas, outros, os opressores.

A Europa civilizada se prepara para as eleições de junho sob a sombria ameaça de a extrema-direita invadir seu parlamento pela porta da frente; nos Estados Unidos, contamos os meses para um segundo mandato de Trump. Educada e pacientemente sentamo-nos em cafés, em Buenos Aires, Montevidéu ou São Paulo, e manifestamos nossa estéril indignação com o noticiário a cada dez centímetros percorridos nas telas de nossos smartphones.

Enquanto nossa bebida gourmet esfria, o Norte wannabe do nosso Sul continua trabalhando nos subterrâneos, mandando indivíduos para além do Equador, incluindo alguns pagos com dinheiro público, com o propósito de “observar”, “trocar experiências” e “estreitar laços” com quem defende a família e a liberdade. Evidentemente, modelos específicos de famílias e liberdades.

Tarda a hora de dar mais atenção aos nossos próprios mapas, porque em cada Sul há um Norte, com voz, capacidade e recursos de organização e direito de voto – nada mais que o mínimo que se espera em uma democracia. Se, nas próximas décadas, exportaremos commodities ou intolerância, cabe a nós decidir. Para ambos os produtos o mercado está em alta.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Na Austrália é possível comprar mapas com o Sul acima e a Austrália no centro, aqui nada parecido.

    Mostra um pouco do nosso espírito colonial.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador