Em reunião desde o dia 14, os movimentos sociais e entidades da sociedade civil organizada reunidos no G20 Social, realizado no Rio de Janeiro, colocaram a taxação de grandes fortunas entre as prioridades globais que devem ser adotadas não apenas pelos líderes das 20 maiores economias do mundo, mas por todos os países.
Durante plenária realizada na última sexta-feira (15), a proposta defende a “a taxação dos super-ricos, enquanto pessoas física e jurídica, igual em todos os países com a garantia de que os recursos arrecadados sejam destinados a um fundo de financiamento de políticas sociais, ambientais e culturais com critérios de progressividade, assegurando assim uma distribuição mais justa”.
Na avaliação de Adriana Nalesso, vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Rio de Janeiro, fazer com que os super-ricos paguem mais impostos deve melhorar a justiça social.
“A ideia é ampliar a arrecadação para que, de fato, isso volte à sociedade para investimentos em políticas públicas e sociais. O debate para elaboração do texto foi super-rico. Teve representantes de universidades, de movimentos sociais, dos trabalhadores. Foi bem importante porque a gente está construindo juntos.”
O grupo defende ainda a criação de um novo modelo da governança global, tendo em visa que a ONU se mostrou incapaz de dar respostas aos desafios contemporâneos, entre eles o genocídio na Faixa de Gaza cometido por Israel.
Assim, os líderes da cúpula do G20 deveriam repensar o modelo decisório do FMI e do Banco Mundial para “refletir a importância econômica do Sul Global” e refletir a realidade geopolítica contemporânea.
Documento final
Foi divulgado, na manhã deste sábado, o documento final elaborado durante as plenárias do G20 Social, em que movimentos sociais e sociedade civil apresentaram propostas para combate à fome, sustentabilidade e reforma da governança global.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai repassar aos demais líderes mundiais a íntegra do documento, elaborado por 13 grupos de engajamento, além de membros de trilhas financeira e política.
Confira o documento na íntegra:
Discurso
O presidente Lula participou da cerimônia de encerramento do G20 Social neste sábado (16). Confira o discurso completo:
Este é um momento histórico para mim e um momento histórico para o G20.
Ao longo deste ano, o grupo ganhou um terceiro pilar, que se somou aos pilares político e financeiro: o pilar social, construído por vocês.
Aqui tomam forma a expressão e a vontade coletiva, motivadas pela busca de um mundo mais democrático, justo e diverso.
De forma inédita, os grupos de engajamento puderam interagir com os chanceleres e com os ministros das Finanças e presidentes de Bancos Centrais das maiores economias do planeta.
Tive a satisfação de dialogar pessoalmente com os representantes de cada grupo.
Nos últimos dias, pela primeira vez na trajetória do G20, a sociedade civil de várias partes do mundo, em suas mais diversas formas de organização, se reuniu para formular e apresentar suas demandas à Cúpula de Líderes.
Nos dezesseis anos desde a primeira Cúpula, o G20 se consolidou como o principal fórum de cooperação econômica mundial e como importante espaço de concertação política.
Mas a economia e a política internacional não são monopólio de especialistas e nem de burocratas.
Elas não estão só nos escritórios da Bolsa de Nova York ou da de São Paulo, nem só nos gabinetes de Washington, Pequim, Bruxelas ou Brasília.
Elas fazem parte do dia a dia de cada um de nós, alargando ou estreitando as nossas possibilidades.
Os membros do G20 têm o poder e a responsabilidade de fazer a diferença para muita gente.
Para as mulheres, ao fomentarem o empreendedorismo e a autonomia econômica feminina, como fez o Grupo de Trabalho sobre Empoderamento.
Para os povos tradicionais e indígenas, ao promoverem os produtos da biodiversidade, como fez a Iniciativa sobre a Bioeconomia.
Para os afrodescendentes, ao adotarem o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 18 sobre igualdade racial, como fez o Grupo de Trabalho sobre Desenvolvimento.
Para o planeta, ao incentivarem a ambição climática em linha com o objetivo de limitar o aquecimento global a um grau e meio, como fez a Força-Tarefa do Clima.
Nada disso teria sido possível sem a contribuição de todos vocês que estão aqui hoje.
A presidência brasileira não teria avançado nas três prioridades que escolheu se não fosse a participação decisiva das organizações e movimentos que integram o G20 Social.
A mobilização permanente de vocês será fundamental:
• para impulsionar os trabalhos da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e avançar na tributação dos super-ricos;
• para garantir o cumprimento das metas de triplicar o uso de energias renováveis e antecipar a neutralidade de emissões;
• e para levar adiante nosso Chamado à Ação pela Reforma da Governança Global, assegurando instituições multilaterais mais representativas.
A presidência brasileira do G20 deixará um legado robusto de realizações, mas ainda há muito por fazer para melhorar a vida das pessoas.
Para chegar ao coração dos cidadãos comuns, os Governos precisam romper com a dissonância cada vez maior entre a “voz dos mercados” e a “voz das ruas”.
O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e política que hoje assola as democracias.
O G20 precisa discutir uma série de medidas para reduzir o custo de vida e promover jornadas de trabalho mais equilibradas.
Precisa ouvir a juventude, que enfrentará as consequências das tarefas que deixarmos inacabadas.
Precisa preservar o espaço público, para que o extremismo não gere retrocessos nem ameace direitos.
Precisa se comprometer com a paz, para que rivalidades geopolíticas e conflitos não nos desviem do caminho do desenvolvimento sustentável.
Vou levar as recomendações contidas na declaração final que vocês me entregaram aos demais líderes do G20 e trabalhar com a África do Sul para que elas sejam consideradas nas discussões do grupo.
Espero que esse pilar social do G20 continue nos próximos anos, abrindo cada vez mais nossas discussões para o engajamento da cidadania.
Essa cerimônia de encerramento marca o começo de uma nova etapa, que exigirá um trabalho contínuo durante os 365 dias do ano e não só às vésperas das reuniões de líderes.
Também conto com a força de vontade e o dinamismo da sociedade civil para dois outros eventos que o Brasil sediará no próximo ano: a Cúpula do BRICS e a COP 30.
Nós vamos seguir construindo, juntos, um mundo justo e um planeta sustentável.
Muito obrigado.
*Com informações da Agência Brasil.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
16 de novembro de 2024 3:36 pmComo é doce a ilusão de que os bilionários cederão algo num contexto em que eles dominam tanto os Estados nacionais quanto as instituições internacionais… Greves mundiais de trabalhadores e neo-escravos de plataformas de internet seriam necessárias para conquistar algo, mas isso está fora de cogitação. O movimento sindical morreu e hoje tem menos influência do que os influencers das Bets. Mergulhada no identitarismo a esquerda oscila entre aplaudir a censura gay friendly e tolerar decisões governamentais e judiciais que oprimem e prejudicam os trabalhadores. Mas o show tem que continuar e as lideranças da esquerda-espetáculo se esforçam para ser vistas nesse G20 de araque que será esquecido amanhã. Não há saída desse Labirinto enquanto a esquerda acreditar que é possível alimentar o Minotauro neoliberal para ser considerada inofensiva por ele a fim de desfrutar alguns privilégios midiaticos.
Rui Ribeiro
18 de novembro de 2024 10:38 amEstão dizendo que é mais fácil taxar um cachorro do que taxar um bilionário.
Pois bem. O que Marx diria a esse respeito:
“As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre sua verdade face ao homem, desde que se torne radical. Ser radical é atacar o problema em suas raízes. Para o homem, porém, a raiz é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã e, portanto, de sua energia prática, consiste em saber partir decididamente da superação positiva da religião. A crítica da religião derruba a idéia do homem com a essência suprema para si próprio. Por conseguinte, com o imperativo categórico mudam todas as relações em que o homem é um ser humilhado, subjugado, abandonado e desprezível, relações que nada poderia ilustrar melhor do que aquela exclamação de um francês ao tomar conhecimento da existência de um projeto de criação do imposto sobre cães: ‘Pobres cães! Querem tratá-los como se fossem pessoas!'”.