O governo federal atualizou nesta segunda-feira (6) a “lista suja” do trabalho escravo, cadastro público que reúne empregadores flagrados submetendo trabalhadores a condições análogas à escravidão. Entre os 169 novos nomes incluídos estão a montadora chinesa BYD e o cantor Amado Batista.
A atualização representa um crescimento de 6,28% em relação ao levantamento anterior, elevando o total de empregadores listados para cerca de 613.
Dos novos incluídos, 102 são pessoas físicas e 67 são empresas. Os casos abrangem ocorrências entre 2020 e 2025 em 22 estados, e resultaram no resgate de 2.247 trabalhadores. Minas Gerais (35), São Paulo (20), Bahia (17) e Paraíba (17) lideram em número de empregadores inseridos.
As atividades econômicas com mais registros foram serviços domésticos (23), criação de bovinos para corte (18) e cultivo de café (12).
A lista é divulgada semestralmente pelo Ministério do Trabalho, em abril e outubro. Os nomes só são incluídos após a conclusão do processo administrativo, sem possibilidade de recurso, e permanecem por dois anos.
A saída antecipada é possível mediante assinatura de termo de ajustamento de conduta, com compromisso de indenizar as vítimas com ao menos 20 salários mínimos e investir em programas de apoio aos trabalhadores resgatados. Nesta atualização, 225 empregadores foram excluídos por terem completado o prazo.
O caso BYD
A BYD entrou no cadastro em decorrência do resgate de 220 trabalhadores chineses em dezembro de 2024, durante a construção de sua fábrica em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador.
Os trabalhadores foram encontrados em alojamentos superlotados e sem condições adequadas de higiene, sob vigilância de seguranças armados que impediam a saída do local. Passaportes eram retidos e os contratos previam jornadas exaustivas e ausência de descanso semanal.
O Ministério Público do Trabalho da Bahia apontou ainda que todos os trabalhadores haviam entrado no país irregularmente, com vistos que não correspondiam às funções desempenhadas.
À época, a montadora atribuiu as irregularidades à construtora terceirizada Jinjiang Construction Brazil Ltda e encerrou o contrato com a empresa. No fim de 2025, a BYD firmou acordo de R$ 40 milhões com o MPT-BA e duas empreiteiras para encerrar ação civil pública por trabalho análogo à escravidão e tráfico de pessoas.
Procurada pelo g1 para comentar a inclusão na lista, a empresa não respondeu até o fechamento desta reportagem.
Amado Batista
O cantor aparece vinculado a duas autuações registradas em 2024 em Goianápolis, na Região Metropolitana de Goiânia. Uma delas envolve o Sítio Esperança, com 10 trabalhadores, e a outra o Sítio Recanto da Mata, com quatro.
A assessoria de Amado Batista classificou as informações como “completamente falsas e inverídicas” e negou que tenha havido qualquer resgate de trabalhadores.
Segundo o comunicado, houve em 2024 uma fiscalização em uma fazenda arrendada para plantio de milho, na qual foram identificadas irregularidades na contratação de quatro trabalhadores vinculados a uma empresa terceirizada. Um Termo de Ajuste de Conduta teria sido firmado com o MPT, com todas as obrigações “integralmente cumpridas e quitadas”.
A assessoria informou ainda que melhorias nas condições de moradia e convivência já foram realizadas e que medidas administrativas estão em curso para encerrar os procedimentos de autuação.
Criada em 2004, a “lista suja” passou por períodos de instabilidade nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro — chegando a ter sua divulgação suspensa entre 2014 e 2016, até que o STF reconheceu sua constitucionalidade.
Desde 1995, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel já resgatou mais de 68 mil trabalhadores de condições análogas à escravidão e assegurou mais de R$ 160 milhões em verbas salariais e rescisórias.
Denúncias de trabalho escravo podem ser feitas de forma anônima pelo Sistema Ipê, plataforma da Secretaria de Inspeção do Trabalho disponível para acesso remoto.
*Com informações do g1.
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