Habermas não entenderia como se “vence” um debate na internet
por Francisco Fernandes Ladeira
Em suas análises, o quase centenário filósofo Jürgen Habermas utiliza o termo “esfera pública” para se referir ao espaço social em que cidadãos podem se reunir para discutir e formar opiniões sobre questões de interesse geral, influenciando a formação da vontade política.
Apesar de reconhecer a esfera pública como sujeita aos interesses da classe dominante, para Habermas, o exercício da crítica e da argumentação – ou seja, o bom uso da razão – faria com que o melhor argumento prevalecesse nas mais variadas discussões. Desse modo, pode-se contribuir para uma existência solidária, não coercitiva, libertadora e igualitária entre os homens. Nesse sentido, jornais, revistas, rádios, televisão e internet formam o que podemos chamar de “mídia da esfera pública”.
Porém, na prática, as coisas não funcionam bem assim. Na televisão, por exemplo, a imagem política, em muitas ocasiões, parece ter mais peso do que as ideias. Sendo um meio de comunicação de massa, a televisão foca na construção de imagens e narrativas, que podem moldar a percepção das pessoas, mais do que o conteúdo das mensagens políticas em si. Como já apontou Guy Debord, na sociedade do espetáculo, a forma vale mais do que o conteúdo, a aparência supera a essência.
Mas o debate público nunca foi tão rebaixado como nesses tempos de internet, em todas as suas variantes, como os reels, cortes e stories. Um caso emblemático foi o debate entre o jornalista e então apresentador do Meteoro Brasil, Álvaro Borba – representando o campo progressista –, e o ex-deputado estadual Arthur do Val, conhecido como “Mamãe Falei” – representando o campo conservador (atual eufemismo para extrema direita). Enquanto Borba buscou apresentar argumentos sólidos, baseados em evidências, leituras e dados; Arthur fez o de costume: fake news e frases prontas, feitas sob medidas para impactar e viralizar online.
Resultado: nas redes sociais, Mamãe Falei foi “declarado” vencedor do debate. Aliás, nessa ágora digital – em que, não à toa, seus participantes são chamados de usuários – parece haver a “pós-vitória”. Não raro, esquerda e direita não são conceitos ideológicos, mas uma disputa por likes, visualizações e compartilhamentos. É declarado “vencedor” quem teve mais engajamento e pautou a agenda pública. De tempos em tempos, isso se converte em votos.
Enquanto a extrema direita se sente à vontade nesse lamaçal informacional, parece que, só agora, a esquerda começou a entender este zeitgeist. Os vídeos gerados a partir de Inteligência Artificial (IA) – com o personagem “Hugo Nem se Importa”, apesar de suas contrições lexicais – parecem ser um sinal.
E ainda falando sobre esta questão, outro dia assisti a um vídeo, em uma página progressista no Instagram, claramente feito por IA, em que um suposto catarinense criticava a região Nordeste. A surpresa (ou nem tanto!) foi, ao ler os comentários, perceber que ninguém mencionou a fraude, só se concentraram no conteúdo. Lembrando o vocabulário identitário, teve até “calvofobia” contra o personagem imaginário.
Parece um caminho sem volta. A política nas redes agora é assim. O velho Marshall McLuhan chamaria isso de “ecossistema de mídia”. Ou você se adapta, ou “perde” o debate. Eu poderia terminar este texto com uma frase que os nativos de língua inglesa adoram: “Play the game”. Mas prefiro recorrer à Elis Regina como finalização: “Vivendo e aprendendo a jogar”.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Unicamp e professor da UFSJ. Autor do recém-lançado livro “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2” (Editora Emó)
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