20 de maio de 2026

Kaspar Hauser e Joseph Merrick x Datena e Pablo Marçal, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Me recuso a elogiar tanto as provocações cruéis e gratuitas de Pablo Marçal quanto a cadeirada dada nele por Datena.

Kaspar Hauser e Joseph Merrick x Datena e Pablo Marçal

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Dois personagens históricos do século XI protagonizam dois excelentes filmes. Refiro-me ao alemão Kaspar Hauser (1812-1833) e ao inglês Joseph Merrick (1862-1890). O primeiro foi objeto do filme O Enigma de Kaspar Hauser (1974), o segundo é retratado no filme O Homem Elefante (1980).

Ambos foram objeto de segregação social. O alemão tinha problemas cognitivos congênitos ou os adquiriu em virtude de ter passado 16 anos prisioneiro numa masmorra sem contato com seres humanos. O segundo tinha deformidades corporais imensas provocadas por uma doença e se apresentava num show de aberrações.

Ao que parece Joseph Merrick era capaz de se comunicar melhor do que Kaspar Hauser. Apesar dos traumas, o inglês não tinha problemas cognitivos severos e demonstrou grande habilidade manual ao montar um modelo de papel que é exibido num museu.

Kaspar Houser aprendeu a escrever e deixou uma autobiografia que parece claramente ter sido escrita por uma criança. Eis um fragmento dela:

“Quando eu acordei, eu escutei alguma coisa que me espantou tanto e que eu escutava com tanta atenção, porque no meu estado anterior eu nunca tinha escutado algo assim. Essa atenção, eu não consigo de jeito nenhum descrever. Eu escutava por muito tempo, mas pouco a pouco eu não escutava mais nada e a atenção se perdeu, eu senti dores nos pés. Eu percebi que eu não sentia mais dores nos olhos e por que eu não sentia mais? Porque não era mais de dia, isso que para os meus olhos era o maior alívio.”

Os filmes O Enigma de Kaspar Hauser (1974) e O Homem Elefante (1980) parecem ser mais ou menos fieis às biografias de ambos. Os dois filmes começam quando os personagens são, cada qual à sua maneira, descobertos pela sociedade. Ambos retratam o processo de autodescoberta pela qual os personagens passam. As jornadas do alemão e do inglês são exemplares e enquadradas de maneira semelhante como um tributo à dignidade humana.

As vidas dos personagens, tal como foi retratada pelos cineastas, demonstra que a dignidade humana é algo que está presente em qualquer ser humano. Pouco importa se alguém é um deformado como Joseph Merrick ou apresenta problemas cognitivos congênitos ou adquiridos como Kaspar Hauser. O que existe de humanidade em qualquer pessoa merece ser reconhecido respeitado.

Decidi falar destes personagens e dos filmes sobre eles porque isso em parece mais apropriado nesse momento em que partidários de Datena e de Pablo Marçal se esforçam para conquistar atenção dos eleitores desumanizando o adversário e pintando seu próprio candidato como vítima inocente. Não admiro nenhum dos dois e não votaria neles, mas me recuso a elogiar tanto as provocações cruéis e gratuitas de Pablo Marçal quanto a cadeirada dada nele por Datena.

Mesmo quando realizado por pessoas menos civilizadas e mais agressivas do que Joseph Merrick e Kaspar Houser, o debate político-eleitoral deve ter limites. Ademais suponho que quem deve decidir as consequências eleitorais do incidente é a Justiça Eleitoral e não eu, a imprensa ou os bandos de apoiadores dos dois candidatos. Mas como sou advogado tenho algo a dizer sobre os aspectos jurídicos do que ocorreu.

Se dois empregados de uma empresa ou dois servidores públicos imitassem Datena e Pablo Marçal no local de trabalho o resultado seria parecido. No primeiro caso ambos seriam imediatamente demitidos por justa causa. No segundo, a exoneração ocorreria ao fim dos processos administrativos disciplinares.

O Direito Eleitoral não deve ser menos rigoroso com candidatos a cargos eletivos do que o Direito do Trabalho e o Direito Administrativo são com empregados de empresas privadas e servidores públicos. Portanto, a Justiça Eleitoral pode perfeitamente impedir Datena e Pablo Marçal disputar a prefeitura de São Paulo.

Antes da TV, a política era teatralizada nas ruas e dependia muito do contato pessoal e da desenvoltura dos candidatos a cargos eletivos. Na TV, a política se tornou um espetáculo impessoal. Os políticos viraram atores que concorrem com outros espetáculos televisivos para conquistar corações e mentes dos cidadãos empregando a técnicas sofisticadas de propaganda. O advento das plataformas internet tornou a propaganda eleitoral mais performática, segmentada e escandalosa.

Na fase atual, os candidatos agem como se fossem influencers. Aqueles que dominam melhor a gramática das plataformas de internet e dos algoritmos delas são capazes de produzir espetáculos e memes para gerar maior engajamento emocional dos seguidores/eleitores. Nesse contexto, a caldeirada do Datena (apresentador de TV) em Pablo Marçal (influencer) não é uma metáfora da disputa entre dois meios de comunicação distintos e sim o símbolo de uma evolução.

Chegamos agora à era da grotescização da política. O grotesco e o macabro se tornam espetáculos eleitorais indispensáveis porque são os únicos que preenchem os requisitos necessários para ser exaustivamente reproduzidos nas plataformas de internet e impulsionado com lucro por algoritmos cuja racionalidade é incompatível com a pacificação da sociedade. Isso obviamente coloca no centro da eleição uma pergunta: Quais são os limites da dignidade humana durante uma campanha eleitoral?

Se a Justiça Eleitoral não excluir Datena e Pablo Marçal da disputa a tendência que eles criaram irá evoluir e piorar. A dignidade humana de ambos não é maior nem menor do que à dos eleitores paulistas. Mas o que está em jogo aqui é a racionalidade do sistema eleitoral brasileiro e a serenidade da administração pública. Se não fossem celebridades, ambos seriam rejeitados por empresas privadas após o que aconteceu. Eles obviamente não merecem o cargo de prefeito de São Paulo e não devem ser autorizados a disputa-lo.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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3 Comentários
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  1. Alexandro de Aguiar Albano

    23 de setembro de 2024 1:31 pm

    O judiciário brasileiro parece com telespectadores que adoram e aceitam barbáries.

  2. José Carvalho

    23 de setembro de 2024 2:22 pm

    Uma das maiores demonstrações do desencanto em relação à política, por parte da população, está em São Paulo. Não é o caso pontual dessa eleição e o inusitado episódio da cadeirada desferida por Datena em Pablo Marçal. Já não há mais nenhum tipo de cobrança ou de exigência para a Prefeitura da capital paulista. Dois prefeitos mal completaram 2 anos de mandato, deixando o cargo sem qualquer realização; disputaram e venceram ambos, a eleição ao governo estadual. Paradoxalmente, a prefeita Marta Suplicy que realizou – mesmo diante de alguns apelidos colados na figura da ex-prefeita, como martaxa – uma administração absolutamente transformadora na cidade , não conseguiu ser reeleita. Isso mostra o grau de desinteresse dos cidadãos da cidade com o que faz ou deixa de fazer o governante da capital. Por isso mesmo o embate de ideias sobre o que cada um propõe para ser o comandante da cidade durante os próximos quatro anos, nem vem ao caso. O que importa é invalidar a política. É criar polêmicas e “ causar”. Não se sabe exatamente o que é estar aprovado, ou ter uma administração aprovada. Afinal se está falando do quê. Que tipo de exigência é requerida para esse “apoio”. Pouca importância se dá ao que realmente quer e está disposto cada um a fazer em benefício da cidade mais forte economicamente do País.

  3. André Franzoni Alexandre

    23 de setembro de 2024 11:36 pm

    Perfeito

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