O movimento de rotação
por Felipe Bueno
Meu primeiro contato com a palavra lunático ou, pelo menos, a primeira vez que me recordo de ter me sentido afetado o suficiente para buscar informações sobre, foi proporcionado pelo Pink Floyd. Roger Waters abre a música Brain Damage descrevendo que o lunático está no gramado (the lunatic is on the grass). Nos tempos em que o rock era vivo e saudável, o álbum The Dark Side of the Moon ajudou a forjar gerações de…lunáticos, como, de alguma forma, este que vos escreve.
Depois do Pink Floyd, da adolescência para a vida adulta, outras referências substituem aquela da lua feita de queijo que muitas vezes ouvimos na infância. Quem estudou cinema, por exemplo, ainda deve ter em algum canto da memória a cena de Le Voyage dans la Lune, de 1902, em que o foguete terráqueo pousa no rosto irritado do corpo celeste em questão. Por outro lado, quem mergulhou nas ciências humanas no mínimo esbarrou em A História da Loucura, de Michel Foucault, cujo nome peço a licença de voltar a citar aqui nesta coluna.
Em seu estudo, o intelectual francês buscou na Idade Média referências das naus dos loucos que passavam pelas cidades europeias sob um misto de espanto, desprezo e ódio das pessoas ditas “normais”, algo próximo do que hoje se chamaria pelos mesmos de “gente de bem”.
Lunático, o indivíduo variável, instável, tido como que sob efeito da Lua, de fato, é um termo que, além de obviamente pejorativo, resulta claramente datado.
É uma maneira negativa clássica de descrever o outro, sempre ele: o diferente, inequivocamente visto desde a alvorada dos tempos como oponente, antagonista, ameaça.
Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA e um dos atuais modelos da “gente de bem” supracitada, chamou de lunáticos jovens universitários estrangeiros que não pensam como ele e de acordo com a doutrina vigente. São seres humanos com outras visões; a eles e elas, portanto, segundo Rubio, deve-se oferecer o melhor que a América pode proporcionar: a porta de saída.
Não preciso dizer a essa altura o quão danoso para qualquer nação é oprimir/suprimir as diferenças e as liberdades de pensamento em universidades.
Educação, ensino, conhecimento: com tais ferramentas uma nação pode crescer e se tornar protagonista na difícil tarefa de fazer um mundo melhor.
Também pode adotar o caminho contrário e tornar esse mesmo mundo um lugar insuportável. Esse tipo de escolha é feito todos os dias.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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Antonio Uchoa Neto
28 de março de 2025 4:20 pmThe band we’re in had started playing different tunes, already…e as naus dos loucos não passam mais nas ruas de nossas cidades. O que passa hoje, é a baleia…”A Harmonia Werckmeister”, de Béla Tárr, é a obra que, ainda hoje (o filme é de 2000, se não me engano), nos diz o que é o mundo – ou no que o mundo se transformou. Pelo menos, é a cara do Brasil de Bolsonaro. De qualquer forma, I’ll see you on the dark side of the moon!