Os anocráticos
por Felipe Bueno
No primeiro capítulo de Como As Guerras Civis Começam, lançado num 2022 tão próximo e tão distante, Barbara Walter nos faz imaginar que até o Brasil, de vez em quando, pode surpreender positivamente: afinal, ao enumerar quatro “aspirantes a autocratas” – o livro foi lançado no mês de setembro, ou seja, antes das nossas últimas eleições presidenciais – a autora colocou lado a lado Viktor Orbán, Recep Erdoğan, Vladimir Putin e Jair Bolsonaro. Desse último, graças a um apertadíssimo ato de maturidade do eleitorado e por uma sábia decisão da justiça, o Brasil, pelo menos por enquanto, foi depurado.
Não que o espírito bolsonarista tenha desaparecido para sempre, muito pelo contrário; mas isso é outra história.
Voltando ao quarteto supracitado, há que se lamentar que os, digamos, 75% restantes da lista ainda estão por aí surfando nas ondas do poder. Sem falar no mais histriônico de todos, avatar da extrema-direita branca ressentida, em franca disputa por um novo período no trono dos Estados Unidos.
Agora, vamos nos concentrar no título do primeiro capítulo do livro da professora Walter: O Perigo da Anocracia.
A tal anocracia é uma palavra nascida na segunda metade do século passado, pouco conhecida do público em geral e distante do uso corriqueiro no noticiário. Significa, simplificando, democracias que não são muito democráticas, o que conceitualmente poderia parecer absurdo, mas na prática é terrivelmente mais comum do que gostaríamos de admitir.
Os quatro cavaleiros do apocalipse elencados acima seriam, em 2022, exemplos claros de políticos à frente de democracias formais que teriam poucos ou muitos traços de anocracia, tais como desequilíbrio entre os poderes, aparelhamento da justiça, desigualdade partidária e limitações ao exercício da imprensa – inclusive em benefício e/ou com a complacência de determinados veículos.
Olhar para trás ensina muito e nos ajuda a evitar erros antigos, mas, considerando as variações circunstanciais, segue sendo humanamente impossível determinar o momento em que se pode dizer a expressão tarde demais, ou algo semelhante. O estudo de Walter – e poderíamos citar aqui outras duas referências recentes, Daniel Ziblatt e Steven Levitsky – nos ensina que são pequenas fraturas no funcionamento da democracia, uma após a outra, que nos levam um dia a acordar e não reconhecer mais o nosso país inteiro, incluindo o vizinho que parecia moderado e civilizado mas nos enganou por tanto tempo.
Cuidar do futuro é exercer um cotidiano papel de eletricista da democracia, tratando de reparar cada fio desencapado numa comunidade de bairro aqui ou num parlamento ali.
Especificamente em relação aos Estados Unidos, nação na qual obrigatoriamente temos que estar de olho, foi lançado recentemente Guerra Civil. O menos importante é julgar o filme bom ou ruim. Nosso desafio essencial será desvendar quão premonitório ele pode ser.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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Antonio Uchoa Neto
7 de maio de 2024 4:54 pmDa mesma forma que, nos países ditos ou chamados comunistas e/ou socialistas, o proletariado jamais teve, em suas mãos, a posse ou propriedade dos meios de produção, nas assim chamadas Democracias, o poder jamais emanou do povo e em seu nome foi exercido. A menos que se considere democracia o simples ato de votar. Vota-se em Bolsonaro, em Milei, em Erdogan, Putin, Orban, e Trump. Todos, democratas até a medula, democratas de carteirinha, e legítimos representantes da vontade do povo. E daí? Vota-se em Lula, também. A democracia é uma falácia. A anocracia é a realidade, e é tão feia quanto esse nome que inventaram para ela.