13 de junho de 2026

Quadro sobre quadro – ou como pelejar à altura com esse governo, por Letícia Sallorenzo

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Quadro sobre quadro

Ou como pelejar à altura com esse governo

por Letícia Sallorenzo, a Madrasta do Texto Ruim

Olá a todos. Não vou desejar Feliz ano Novo porque hipocrisia comigo não se cria. O ano se anuncia uma bosta (com direito a bolsinha), complicado, difícil e de perdas para todos. Mas temos que encarar a bosta.

Achei por bem metralhar meu teclado (metáforas bélicas estão em voga, me deixem) para trazer alguma contribuição para o debate e a estratégia de enfrentamento a esse governo de bosta não, não apaga o de bosta, não, deixa o de bosta. Trago algumas ideias da Linguística Cognitiva (quem me acompanha aqui sabe muito bem que meu lema é “Lakoff rainha, pro resto, nadinha!”).

Daí que a ministra Damares está dando a linha na comunicação desse governo – ainda que não seja essa a função dela. Entendo que, com o caso de Jesus na goiabeira, no qual ela revelou ter sido abusada e se refugiou na goiabeira em busca de abrigo e proteção, há duas hipóteses: ela está falando a verdade, e portanto precisa de acompanhamento psicológico para lidar com o terrível trauma do abuso infantil; ou ela está mentindo, e portanto precisa de acompanhamento psicológico para lidar com a mitomania. Em ambos os casos, vida pública é algo contraindicado a ela.

Mas ela está lá e, para o bem ou para o mal, aprendeu a sobreviver usando princípios que a Linguística Cognitiva reconhece e descreve na teoria dos frames. Vamos acompanhar o que ela fez:

“Há uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa”

Esse é o frame que a ministra estabeleceu: há papeis biologicamente predeterminados para homens e mulheres. O resto está fora desse quadro.

A essa frase, seguiu-se uma enxurrada de memes e manifestações, muito excelentes, mas a grande maioria equivocadíssimos. Explico: a pior coisa que você pode fazer com um frame é negativá-lo. O advérbio de negação pouco modifica a ideia original, e ainda te obriga a repetir a ideia dentro da forma original apresentada: “Menino não veste só azul e menina não veste só rosa” repete a ideia de Damares, repercute e reforça, e nenhum conteúdo novo é introduzido. Homem vestindo rosa e mulher vestindo azul é reforçar o frame original, pois usa os mesmos elementos cognitivos do frame original. Vamos trabalhar outro exemplo mais cuticuti, pra que eu possa me explicar sem arroubos passionais:

Diante do frame “A Terra é fúcsia”, por exemplo, a pior coisa que você pode fazer é responder “A Terra não é fúcsia”. Melhor é responder com “Onde você vê fúcsia, eu vejo o azul do mar; onde você vê fúcsia, eu vejo o verde das plantas; onde você vê fúcsia eu vejo o colorido das gentes e dos bichos”.

Observe o que eu fiz aí em cima: eu peguei o frame original (A Terra é fúcsia) e introduzi outro frame sobre ele: “existem outras cores muito importantes que não podem ser ignoradas”. Com isso, eu remodelei o raciocínio do outro conforme a minha forma ideológica.

O frame original trabalha metaforicamente cores de forma a associá-las a ideias rigidamente determinadas, segundo a ideologia deles. Isto posto, trabalhar esse frame com memes é simplesmente um sarro. Há algumas frentes de atuação contrária. A mais óbvia é:

 

 

Completar a metáfora de cores. Três metáforas explicando uma coisa (meninas, meninos, motorista) em termos de outra coisa – no caso, uma cor (rosa, azul, laranja). A última das cores ainda traz a inferência de lavagem de dinheiro praticada pela quadrilha  por membros do governo.

 

Outras formas de contra-atacar:

 

Ou: “O seu frame dá importância a X, mas Y, que eu apresento aqui, é infinitamente mais importante que o seu X”. um pouco na linha do meu exemplo da Terra fúcsia.

 

 

Eles são assim, nós somos assado. Contraste semântico. Teun van Dijk de raiz. E o contraste ideologia X igualdade é pra bater palmas de pé, ir cumprimentar e ainda oferecer café com bolinho, porque é muito genial! Depois que eles transformaram ideologia, um troço que deveria ser neutro, em algo extremamente negativo, nós substituímos esse verbete por outros inquestionavelmente positivos. André Sapanos, eu te amo!! <3 <3 <3

 

 

Deixei este por último porque segue o raciocínio do meu exemplo da Terra fúcsia. Temos no centro o frame da ministra cercado (releia essa palavrinha bem devagar, por favor: ceeeerrr caaaaaa doooo. Obrigada!) de outros frames muito mais relevantes. Faz pensar. Faz ponderar.

Deixo meu recado final pra galera LGB e, principalmente, T: escolham seus frames e contrastem com os frames da ministra. Não usem a estratégia “eu não sou assim”. Usem “A ministra quer que eu seja assim mas eu sou assado. Lide com isso.” Peguem o frame original dela, enfraqueçam e façam pouca coisa da ideia dela. A seguir, apresentem a ideia de vocês, muito mais forte, mais importante e imponente. (algo como pegar uma maquiagem nude e transformar em drag baphônica, coisa que vocês fazem com tanta maestria).

Mais uma vez: só apresentei algumas ideias aí. Como diria Chico Buarque a Vinícius de Moraes, “Veja aí e, se for o caso, enfie-as no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão” (inclusive, leiam essas cartas. É um alento e a gente acompanha o raciocínio de gênios da Língua Portuguesa).

 

 

Letícia Sallorenzo

Letícia Sallorenzo é Mestra (2018) e doutoranda (2024) em Linguística pela Universidade de Brasília. Estuda e analisa processos cognitivos e discursivos de manipulação, o que inclui processos de disseminação de fake news.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

6 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. republicano

    4 de janeiro de 2019 10:13 pm

    e isso aí…é preciso

    e isso aí…é preciso derrotar o diversionismo infame da dona damares

    com cercados com mnúmeros sobre a realidade brasileira e a

    necessidade do respeito à política de inclusão social que tanto benefícioo trouxe à maioria do povo brasileiro.

  2. AMORAIZA

    4 de janeiro de 2019 10:15 pm

    Fotonovela

    Vestido Festa Menina Princesa Infantil Azul Frozen ...

    meninas vestem azul

    os padrinhos magicos casal assustador em portugues ...

    SÓ ESSE MENINO VESTE ROSA

     

    Uniformes de Manga Curta laranja Polycotton Condenado e ...

    MOTORISTA VESTE LARANJA

     

    MINISTRA VESTE GOIABA

     

    Vestido de festa NOVO rosa goiaba com pedraria - Roupas e ...

    VESTIDO GOIABA SEM A MINISTRA

     

    Ministra de Bolsonaro diz que em governo meninas voltarão ...MENINA QUE VESTE AZUL

  3. Edison Moraes

    4 de janeiro de 2019 10:44 pm

    Ideias.

    Proponho, também, para acabar de vez com essas convenções ridículas, mudar o outubro rosa para marronzinho e o novembro azul para “salmon”, o que acha?

  4. antonio francisco

    4 de janeiro de 2019 11:58 pm

    João Guimarães Azul

    O autor de Grande Sertão, Veredas terá  de ser chamado de Guimarães Azul nesta nova ordem Brazilzil.?

     

  5. Maria Luisa

    5 de janeiro de 2019 12:13 pm

    Muito bom, Leticia, assim a

    Muito bom, Leticia, assim a gente aprende a argumentar melhor. E valeu pelas deliciosas trocas de cartas entre Vinicius e Chico. Esse ultimo da um baile de argumentação. E era novinho… 🙂

  6. Juliano Santos

    5 de janeiro de 2019 2:38 pm

    Obrigado Madrasta, descobri.

    Obrigado Madrasta, descobri. A pasta dessa ministra não é de diretos humanos, da família, ou coisa que o valha. É ministérios dos memes, factóides e fakenews. É para isso que ela tá lá. O filho do Bozo era só para a campanha

Recomendados para você

Recomendados