10 de junho de 2026

Quis Custodiet?, por Felipe Bueno

O dia primeiro de abril está chegando, e mais uma vez, paira a pergunta: “quis custodiet ipsos custodes?”. -

Quis Custodiet?

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por Felipe Bueno

Às pessoas civilizadas que estudam o tema ou têm ao menos um certo conhecimento não cabe dúvida sobre a distinção entre crimes cometidos por indivíduos ou grupos contra o Estado e seus representantes – independentemente da ideologia de cada lado – e aqueles cometidos pelo próprio Estado.

E a diferença central entre uns e outros pode ser extraída da pergunta retórica atribuída ao poeta romano Décimo Júnio Juvenal: “quis custodiet ipsos custodes?” (quem vigia o vigilante?).

Quando do encerramento dos trabalhos da Comissão da Verdade aqui no Brasil, dez anos atrás, a discussão subiu dos subterrâneos motivada pelo simplismo mal intencionado de quem achava que as mortes e os “desaparecimentos” produzidos pela ditadura militar eram nada mais do que uma justificável ação do Estado contra criminosos.

O dia primeiro de abril está chegando, e mais uma vez, paira a pergunta: “quis custodiet ipsos custodes?”.

Há mais de quatrocentos anos, Thomas Hobbes, homem de pouco otimismo, nos ensinava que o Estado, imperativo para a convivência política, tinha potencial para se transformar em uma máquina poderosa e opressora, ainda que inevitável para a vida em sociedade.

O mesmo Hobbes, no entanto, advertia que o príncipe à frente do Estado perderia a legitimidade caso não garantisse a proteção de cada um dos seus súditos.

Nos anos de chumbo da segunda metade do século XX, príncipes fardados, histriônicos e caricatos, usaram o Leviatã para silenciar, excluir e matar quem não falasse o mesmo idioma ideológico.

Condenar anos depois tais facínoras ainda é um desafio para Estados democráticos, tendo cada qual suas próprias vicissitudes. Aqui no Brasil, por exemplo, a busca pela justiça já teve dias melhores, e a esperança de 2022 tende a se transformar novamente em frustração por razões de suposta conveniência política.

Entre as consequências do silêncio está a oportunidade concedida aos assassinos e seus descendentes e herdeiros de tentar recontar a História, usando a profundidade de uma colher para fundamentar sua visão de que as ditaduras foram um mal necessário, salvando o país A ou B de um destino pior.

Tais portas do obscurantismo foram abertas recentemente na Argentina – logo um dos países que mais avançaram no tema, pelo menos no início. E nesse 24 de março, “Dia da Memória pela Verdade e Justiça”, o governo vigente resolveu lançar uma campanha pelo revisionismo, num vídeo em que um verniz de ponderação, equilíbrio e serenidade disfarça a intenção de silenciar quem ainda não teve suas perguntas respondidas.

Talvez você ache tudo isso muito pesado, denso e distante. Deixe este texto para lá. Pegue um saco de pipocas, sente-se no sofá e veja um filme de ficção. A História Oficial ou Argentina, 1985, por exemplo. Conte-me depois se você dormiu bem.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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