Tarcísio ajoelha no milho, por Fernando Castilho
Contra Lula em 2026, valia tudo. Quase tudo.
A grande mídia, assim como setores da Faria Lima, percebeu às vésperas do primeiro turno de 2022 o risco de manter apoio a Bolsonaro. E a memória histórica pesou. Em 1964, ao endossar a ditadura, pagaram caro: redações censuradas, jornalistas exilados, torturados, mortos. Engoliram Lula por sobrevivência institucional — não por convicção. Por isso, pularam fora a tempo.
Mas para 2026, estavam sem bússola. Sabiam apenas quem não podia ser: Lula. E foi então que os holofotes se voltaram para Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo. Ainda não era unanimidade, mas fez um movimento decisivo: privatizou a Sabesp. E isso bastou. Soou como um sinal verde para os entusiastas do Estado mínimo. Se teve coragem para isso, talvez possa privatizar a Petrobras, pensaram.
Logo, um plano começou a se desenhar: atacar o governo Lula e preservar Tarcísio, mesmo com sua polícia ostentando o título de mais violenta do país, acumulando mortos entre inocentes. A contradição era ignorada em nome de um projeto.
Quando ele apareceu ao lado de Bolsonaro em cima de um carro de som, houve quem estranhasse. Mas o pragmatismo venceu: é preciso seduzir o bolsonarismo para vencer — então tudo bem.
Mas Bolsonaro, ao ser ouvido por Alexandre de Moraes, demonstrou covardia e fraqueza política, reconhecendo o cerco da Justiça e deixando claro que já não era opção viável. A pífia manifestação na Paulista demonstrou que o povo, de maneira geral e o Centrão já aceitam sua prisão.
Logo surgiu o filho 03, instalado nos Estados Unidos, articulando sanções contra o Brasil.
A princípio, ninguém levou a sério — até que Trump taxou o Brasil em 50%. O susto foi imediato. A grande mídia, o agronegócio e o mercado sentiram no bolso.
Mas Tarcísio fez um movimento errado: defendeu Bolsonaro e condicionou a derrubada da tarifa à anulação dos processos contra o ex-presidente, seguindo a mesma linha dos filhos.
O mesmo Tarcísio que já insinuava que, eleito presidente, concederia indulto a Bolsonaro. E caso o STF barrasse o gesto, como sugeriu Flávio Bolsonaro, usaria a força contra o tribunal. Ali nasceu uma hipótese extrema — uma na qual tanques invadem o Supremo, ministros são presos ou mortos, e o país mergulha num golpe consumado. O mesmo que Bolsonaro tentou antes e não conseguiu.
Como se não bastasse, Tarcísio protagonizou outro episódio desastroso ao pedir aos ministros do STF que liberassem Bolsonaro para viajar aos Estados Unidos e tentar demover Trump do tarifaço. O pedido virou piada entre investidores e analistas políticos. Sinal claro de que não tem estofo para liderar um país. Demonstrou ser servo do capitão e de Trump em detrimento dos interesses nacionais.
Os editoriais do Estadão e da Folha não perdoaram. Foram firmes e cirúrgicos, afinal, os jornais têm ligações estreitas com o agronegócio e o empresariado paulista, incluindo a Faria Lima.
O erro custou caro. Tarcísio, percebendo o tamanho da enrascada, declarou em entrevista que a economia de São Paulo está acima de qualquer coisa. A frase até fazia sentido — mas era tardia. Deveria ter sido dita no instante em que Trump anunciou a tarifa. Agora, soa como recuo forçado de um homem sem firmeza.
O carioca que ousou governar São Paulo sem raiz no estado, alimentado pelo combustível da grande imprensa e da Faria Lima, subiu como um foguete. Mas não chegou muito alto. Agora, começa a cair — e sem paraquedas. Sua última entrevista desagradou os bolsonaristas e deu mais munição para Eduardo atacá-lo.
Após ajoelhar no milho, Tarcísio agora passará a ser comandado por seus patrocinadores, o que talvez fosse o que queriam desde sempre.
Nada como um presidente refém dos interesses de quem sempre mandou no país.
Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.
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