As buscas no Mar Mediterrâneo por sobreviventes de um naufrágio de migrantes entraram no terceiro dia nesta sexta-feira (16), com a guarda costeira da Grécia também levando nove cidadãos egípcios, tripulantes do barco que afundou, para a cadeia sob acusação de tráfico humano e organização criminosa.
O barco transportava migrantes que viajavam da Líbia à Itália, incluindo dezenas de mulheres e crianças viajando no porão. O naufrágio aconteceu nas águas internacionais do Mar Egeu, perto da península grega do Peloponeso.
Há suspeitas de que a guarda costeira recebeu pedidos de socorro via alarme fone, mas não os atendeu – uma prática que tem sido denunciada como comum por organizações de direitos humanos.
A Organização Internacional para Migração (OIM), da ONU, informou que o barco transportava cerca de 750 pessoas. Já a guarda costeira da Grécia estima um número de 300 migrantes.
Até o momento, 78 pessoas morreram no acidente, enquanto 104 foram resgatadas. Ou seja: pelas contas da guarda costeira, pouco menos da metade da tripulação ainda está perdida no Mediterrâneo – viva ou morta.
“Devemos fazer todo o possível para que os migrantes que fogem da guerra e da pobreza não encontrem a morte enquanto buscam um futuro de esperança”, declarou o papa Francisco sobre o caso em sua conta pessoal no twitter.
Mesmo com o apelo do papa e de organizações de direitos humanos pelo mundo, as autoridades na Europa pouco ou nada tem feito para evitar que os migrantes encontrem a morte.
Ao contrário: os governos têm se negado a lidar com uma situação criada por seus próprios países fechando fronteiras, e até envolvidos em ações paramilitares de colocar os migrantes em barcos e mandá-los de volta pelo Mediterrâneo – o que fere o direito internacional e acontece também em alto mar.
Sem alternativa
Professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), Berenice Bento passou os primeiros meses deste ano em portos onde estão atracados barcos não governamentais de resgate e depois em campos de refugiados.
De acordo com dados da agência da ONU, mais de 400 migrantes e refugiados morreram afogados só no início de 2023, entre janeiro e março, enquanto tentavam cruzar o mar Mediterrâneo do norte da África para a Europa.
Exatamente neste período, Berenice, de forma voluntária, cerrou fileiras com dezenas de pessoas de todo o mundo para fazer o que os países europeus se negam, inclusive com leis xenófobas e racistas: dar assistência a quem se lança na travessia mais mortífera do mundo para migrantes.
Ela explica que não embarcou para resgates em alto mar porque “se trata de uma operação delicada, precisa ter conhecimento técnico (…) às vezes se estende a mão para puxar uma pessoa e uma onda bate e a faz desaparecer”.
Grécia, Itália e Espanha são os principais destinos de dezenas de milhares de pessoas que tentam chegar à Europa a partir da África e do Oriente Médio. São mais de 20 mil mortes desde 2014 nesta travessia fatal, conforme a OIM.
Berenice explica que a Europa se fechou. Grande parte dos resgates são feitos a partir de barcos mantidos por ONGs, e as pessoas partem, também, a partir da Tunísia, porque por qualquer outro meio sem perigos elas acabam deportadas.
Alarme fone
Morando em Coimbra, Portugal, por conta da atividade acadêmica, Berenice está próxima aos acontecimentos no Mediterrâneo, que acontecem mais constantemente do que se é noticiado.
Ocorre que no caso de quem está envolvido com os resgates ou na atuação de monitoramento desses fluxos migratórios, um “alarme fone”, acionado pelos migrantes nos chamados casos de estresse em alto mar.
“Foi justamente o que aconteceu nesse caso de agora. O alarme fone fez contato com a guarda costeira italiana pedindo socorro, socorro, socorro e até que o contato acabou porque aconteceu o naufrágio”, diz.
Esse tipo de situação se tornou corriqueira. “Recusa de socorro é o dia a dia do Mediterrâneo”, lamenta Berenice. A imprensa, de um modo geral, só noticia quando o número de mortos ultrapassa determinada marca.
Decreto proíbe resgate
O vice-primeiro-ministro e ministro das Infraestruturas italiano disse em fevereiro que o governo não tem qualquer intenção de alterar o decreto, de dezembro de 2022, que regula as atividades dos navios de resgate humanitário no Mediterrâneo, como solicitado pelo Conselho da Europa.
Desde então, se um navio resgata migrantes à deriva no Mar Mediterrâneo e leva para a costa da Itália, a embarcação é apreendida e seus tripulantes podem ser incriminados na lei de tráfico de pessoas.
Louise Michel é o nome de um barco de resgate de migrantes, mantido pelo artista Banksy. O nome faz referência a uma importante militante da Comuna de Paris. A tripulação acabou enquadrada pelo decreto e o barco apreendido.
Berenice estava em Lampedusa quando as autoridades italianas agiram contra o Louise Michel. “O barco chegou com 200 pessoas resgatadas. Deixou no porto e voltou para fazer mais resgates. Quando regressa, com mais 150 pessoas, o barco é apreendido”, conta.
A professora ressalta a gravidade da situação: estão proibindo o resgate de pessoas naufragas, à deriva ou sob risco iminente. Na Europa, estão proibindo que se salvem vidas de migrantes do Oriente Médio e do norte da África.
Desumanização
Só com a roupa do corpo, em situação de medo e estresse, com mulheres e crianças passando fome, os migrantes, quando vencem a morte na travessia, chegam do mar ao cais sem acesso a banheiros, alimentos ou água. Tudo depende de ONGs que atuam em Lampedusa, uma ilha cuja população de 5 mil pessoas é 25% composta por militares.
Saem do porto e vão para um lugar de acolhida. “Esse lugar é um dos piores lugares em que eu estive na minha vida. Em termos de higiene, desumanização. É pior que o campo de refugiados que eu fui depois, na Grécia”, diz Berenice.
O fedor é tamanho e as pessoas dormem ao relento. Não recebem a visita de equipes de saúde tampouco quaisquer outras assistências. Quando saem dali, são espalhadas em centros de detenção, no caso da Itália.
Lesbos
Na Grécia, a professora da UnB se voluntariou para junto de sua ONG distribuir refeições aos migrantes confinados em um campo de refugiados com cerca de 2400 pessoas na cidade de Lesbos.
Os migrantes chegam em diversos pontos da ilha exauridos, e são enviados para os campos, onde os processos de pedido de asilo têm início.
“Várias que eu conheci tinham feito o pedido umas seis vezes. Então aguardam, ficam ali (…) essa é a história do campo: a espera”, diz Berenice.
Assim que ela chegou a Lesbos, a acadêmica lembra que 600 pessoas tiveram o pedido de asilo negado pelo governo grego. A partir daquele momento, estavam por conta própria.
Crianças sem escola, comida insuficiente, uma espera tensa e repleta de privações. A história é praticamente a mesma em outros acampamentos, convertidos em versões atuais dos campos de concentração nazistas.
Europa criou o problema
Berenice é taxativa ao dizer que não é que os governos europeus não lidam com o problema, senão eles mesmos são os criadores do problema. A Europa tá basicamente fechada.
“Eu sou professora universitária, estou na Europa por essa atividade e encaminhei meu pedido de visto para a embaixada de Portugal. Levou 4 meses, antes levava poucas semanas, para correr o risco de chegar no aeroporto e me mandarem voltar. Tem acontecido bastante”, cita como exemplo.
O que dizer então de árabes, negros e africanos? “A ideia é fechar a Europa, mas fechar para quem? O lastro disso tudo é o racismo. Tratam árabes e negros como lixo. Não nos damos conta do que estamos vivendo”, protesta.
Berenice bento ressalta que, no passado, navios e mais navios chegaram ao Brasil com europeus buscando uma vida melhor – e os europeus colonizaram e espoliaram a América Latina e Central, África, Ásia e Oriente Médio. “E agora (a Europa) fecha as fronteiras para quem procura uma vida melhor? Para as vítimas do que ela fez?”, questiona.
Carlos Lima
16 de junho de 2023 10:58 pmNinguém, é capaz nas mídias de um modo em geral de falar a verdade sobre isso, o ataque da OTAN a Líbia, foi criminoso, foi roubo em todos os sentidos, o Kadaf, tinha muito dinheiro nos bancos ocidentais que quebraram na crise americana de 2008, o Kadaf, queria esse dinheiro, os bancos não tinham, uma semana antes dos ataques, o Kadaf foi fotografado na Europa, com os principais lideres, como a Merkel da Alemanha, o Prodi da Itália, o presidente Francês. Não precisaria assassinar mais de dois terços da população da Líbia e causar tamanha crise humanitária. Tem se notícia que na Líbia estão comendo carne humana, este país era o único da africa que produzia a sua subsistência alimentar, ninguém pagava universidade, e nem combustível, era sustentável economicamente. A acusação de Kadaf estuprador, nem que não fosse, não se sustentava do ponto de vista lógico, com tanto dinheiro poderia ter a mulher que quisesse, nos moldes da atualidade das relações. Por fim, esse barco foi mais um que veio de lá, é tragédia em cima de tragédia, a OTAN nunca foi chamada no tribunal de Haia, por crime explicito de guerra e de pratica de genocídio.
evandro condé
19 de junho de 2023 9:09 amRealmente o barco veio de lá, mas, por incrível que pareça, eram transportados pessoas de outras nacionalidades. Líbia virou entreposto de tráfico moderno.
evandro condé
17 de junho de 2023 12:17 pmAcho que há também a questão de quantos africanos estariam dispostos a migrar (legalmente ou não) pra Europa. Qual o limite para esse acolhimento.
Em tempo, não entrando na questão que a origem de tudo foi a dominação européia, etc. Por aí a discussão será infinda e outras centenas de questões serão levantadas.
cezar perin
18 de junho de 2023 1:21 pmmataram o Kadafi agora fica brabo o negócio