do Observatório de Geopolítica
O que se pode aprender com os rios (pequeno ensaio de cidadania comparada)
por Felipe Bueno
Em sua próxima viagem a Roma, Londres ou Paris – e eu poderia citar aqui vários outros exemplos europeus – dedique alguns momentos a olhar para os rios que cortam essas cidades.
Por motivos românticos, filosóficos ou logísticos atravesse uma ponte. Caminhe pela orla.
Admire os livros e o artesanato vendidos às margens.
E tente se lembrar da frase que você vai ler agora: cidades vivas são cidades que não matam seus rios.
Goste você de blockbusters, do neorrealismo italiano ou da nouvelle vague francesa, certamente assistiu a um filme com cenas mostrando a vida ao redor do Tâmisa, do Tibre ou do Sena.
Enquanto isso, São Paulo envenena há décadas os seus dois maiores cursos d’água. Outros menores foram assassinados e literalmente enterrados.
Estendamos geograficamente nossa lamentação: usemos como exemplos os rios Maracanã e Trapicheiros, no Rio de Janeiro, e o Matanza/Riachuelo, em Buenos Aires, este último um dos líderes mundiais em imundície.
Em municípios civilizados, esporte, lazer, contemplação, cultura e gastronomia são algumas das áreas exploradas sustentavelmente às margens de algo que existe para garantir vida, não para levar sujeira de um ponto a outro.
É claro que praticamente todas as grandes cidades ocidentais violentaram seus rios no passado – algumas ainda o fazem. A reflexão é tentar entender por que alguns processos são tão adiantados lá fora e aqui no Brasil nossa preocupação se restringe – quando muito – aos estorvos das estações chuvosas.
A água traz e garante a vida? A Natureza não faz mais do que a obrigação. Mas e o trânsito? E os alagamentos? E a estrada bloqueada? Como passarei o fim-de-semana na praia?
Outro dia ouvi de um motorista paulistano que o Tietê e o Pinheiros deveriam ser cobertos e transformados em avenidas.
Não foi o primeiro gênio. A ideia, adotada tempos atrás, resultou no que é hoje o Tamanduateí: meio esgoto, meio lápide, meio aberto, meio fechado, cortando parte da cidade. Uma vergonha para qualquer cidadão.
Minha sugestão ao motorista foi continuar defendendo a ideia depois de tentar virar uma garrafa de refrigerante de dois litros – cheia – num copo de 200 ml.
Recentemente o Pinheiros brilhou num ranking indesejado produzido pela S.O.S. Mata Atlântica sobre os níveis de poluição dentre mais de cem corpos d’água.
O que esperar de um rio tratado (tratado?) como mero obstáculo entre dois lados de uma cidade?
Escutei várias vezes, de diversas pessoas públicas, que é mais importante o rio ficar visualmente bonito que efetivamente limpo.
Afinal, os prédios de metro quadrado caríssimo construídos e a construir às margens do Pinheiros têm todos ótimos sistemas de ar-condicionado. Os carros de grande parte da humanidade que se serve desses edifícios também.
Até os trens metropolitanos têm ar-condicionado. Capital e trabalho passam diariamente pelo rio sem se incomodar com o paciente terminal.
Assim, sem cheiro e longe da sujeira, você pode contemplar uma bela imagem instagramável, feita de longe, e dizer “linda foto!” enquanto a cidade continua morrendo.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte
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