O racismo naturalizado em Não olhe para cima, por Daniel Gorte-Dalmoro

É uma comédia sarcástica, baseada em estereótipos e que tenta tirar o riso do ridículo do outro – sempre do outro.

O racismo naturalizado em Não olhe para cima [Diálogos com o cinema]

por Daniel Gorte-Dalmoro

(Nota prévia: este é um texto de análise do filme, não de promoção, portanto, contém spoiler)

Desde seu lançamento na Netflix, em 24 de dezembro, Não olhe para cima, de Adam McKay, tem causado considerável debate na nossa neoágora, a internet – essa ágora do imediatismo. Muitos acharam – exageradamente – o filme genial. Do outro lado, houve quem apontasse o filme como raso, com uma crítica fraca. É preciso situar a obra: trata-se de um filme comercial, feito com o dinheiro de uma grande produtora – a Netflix –, que visa lucro: é um produto industrial e portanto não vai se pôr além da lógica do capital. Poucos são os filmes que dão conta de uma crítica incisiva do sistema, e não havia nada para imaginar que Não olhe para cima seria um desses. É um filme bom para o que se propõe: passar duas horas e meia de diversão, sem desligar completamente o cérebro, dando umas cutucadas no espectador.

Algumas pessoas disseram se tratar de um espelho da nossa sociedade. A essas, recomendo trocar o espelho de casa. É uma comédia sarcástica, baseada em estereótipos e que tenta tirar o riso do ridículo do outro – sempre do outro. Algumas pessoas – como a jornalista Bárbara Gancia afirmou em seu Twitter –, conseguiram utilizar o filme para enxergar sua própria superioridade – a mesma com que a mãe a enxergava quando ainda era um toco de carne mama-chora-caga-dorme. Ao cabo, creio que consegue passar a mensagem a um público mais amplo de um modo melhor do que muita obra dita séria e pretensiosa – não apresenta uma verdade (conveniente ou não), mas abre uns rasgos por onde pode ser que entre alguma ludidez. Se essa mensagem vai criar raízes e frutificar, é uma questão que abrange toda a sociedade – sociedade do espetáculo, do imediatismo, do entretenimento, do cansaço –, não será um filme a mudar isso, diferentemente do que gostaria Charles Bramesco, em sua crítica no The Guardian.

A película traz alguns pontos relevantes, explicitados sem nenhuma sutileza, mas de tão naturalizadas muitas vezes não notamos seu absurdo – ou notamos pela metade, só quando a estridência é demais. As lógicas perversas das redes sociais e do novo fluxo de informação é um deles: a memeficação do descontrole da cientista Kate Dibiasky, o aproveitamento do episódio por parte do então namorado, a disputa de opiniões sobre uma questão científica, a “platitudificação” de tudo por parte dos apresentadores do programa de entrevistas televisivo (cujo título é irônico, o “rip” de “rasgo”, de “abrir”, mas também de “rest in peace”, “descanse em paz”), o discurso-espetáculo da presidenta. Outro ponto: as relações por demais íntimas entre grandes fortunas e o poder – aqui, com o risco de ficar parecendo que isso é exclusividade de um campo do espectro político, quando sabemos que no sistema democrático liberal (seja a democracia estadunidense, escandinava, brasileira, sul-coreana, japonesa, africana) trocam-se os nomes e os ramos dos afortunados, mas não as práticas do governo com eles (sem falar no legislativo). Há ainda o discurso de sempre dos 1% (devidamente amplificado pelos seus porta-vozes oficiais, a mídia, e oficiosos, as redes sociais aparelhadas), de que toda crise é uma oportunidade para acabar com a miséria do mundo, de criar novos parâmetros de sociabilidade, um “novo normal”, mais fraterno, mais “humano”; isso a um pequeno risco de extinção da humanidade – e um grande aumento da sua fortuna.

Mas me centro mesmo na última cena – a última ceia. Diante do fim iminente e inexorável, um aproveitar os últimos momentos com seus queridos, sem esperança de salvação e – irrealisticamente – sem pavor, sem choro, sem crises – inclusive com a esposa engolindo a crise recente do casamento. Como Geni Núñez (no Instagram: @genipapos) aponta: na hora do fim, até o mais ateu dos cientistas viraria religioso em busca da salvação da alma. É um discurso conservador, uma vez que desautoriza outras crenças – é o evangélico desgarrado a fazer a última oração –, assim como deslegitima a própria descrença em deus ou no que for (e, pelo exemplo de meu pai, posso afirmar que nem todo ateu na hora H acha que está errado: ele seguiu sendo ateu, como eu também, mesmo quando só um milagre seria capaz de salvá-lo). Vale lembrar que o liberal-fascismo se assenta no cristianismo, ainda que fomente o sectarismo de outras religiões.

Mas na última ceia não está só a família do professor Randall Mindy. Estão também pessoas queridas sem vínculo familiar, muitas das quais surgiram nos últimos momentos – mas nem por isso deixam de ser queridas. Estão lá Kate e Yule, seu namorado novinho, “millennial”, que conheceu há pouco; e também o agente da Coordenação de Defesa Planetária, Teddy Oglethorpe, a quem Randall e Kate conheceram há seis meses e quatorze dias, quando descobriram o cometa em rota de colisão com a Terra. Yule entra na história com dois propósitos: fazer a oração final e reforçar a mensagem de amor romântico, um dos pilares do discurso patriarcal, cristão e capitalista; amor esse que supera tudo e surge a qualquer momento.

Foi a presença de Teddy, contudo, que mais me chamou a atenção. 

Teddy é o personagem negro a compôr a cena – de certa forma cena de redenção, ainda que uma redenção condenada à morte. Sabemos porque Kate e seu namorado estão lá: ambos se desentenderam com seus pais e se uniram porque se amam, ele está com ela e ela está com Randall, seu orientador de longa data; agora, por que Teddy teria viajado de Washington para Michigan, 900 km, para passar seus últimos minutos com uma família desconhecida? Ele não tem pai, mãe? Não tem esposa, esposo, filhos? Não tem amigos? Por que não viajou acompanhado de algum querido seu de longa data, que poderia, inclusive, ser o evangélico desgarrado que faz a oração? Ou será que tudo isso é irrelevante para um personagem negro, porque sua função é somente compôr a cena? Mais: Yule, que chega só no fim da história, apresenta seu passado, sua trajetória, já os dois personagens negros de destaque (secundário) durante toda a trama – Teddy e o apresentador Jack Bremmer –, são desprovidos de qualquer história pessoal: enquanto os brancos tiveram um percurso e chegaram onde estão, os negros só foram postos ali: de Teddy sabemos que há quinze anos trabalha na Coordenação de Defesa Planetária, de Jack, que apresenta um programa de tevê e faz piadas; são pessoas sem história, sem complexidade, sem vínculos, sem relações, quase sem humanidade (ainda mais a se levar em conta a família e o amor romântico como centrais na construção do discurso final): pouco mais que adereços para cumprir a cota racial exigida.

Falei acima que o filme amplifica alguns absurdos que temos presenciado na contemporaneidade, assim como escancara algumas banalizações que acabamos aceitando no nosso dia a dia – até para suportarmos a lógica do choque da sociedade moderna. McKay não precisava fazer do filme um libelo antirracista – não era essa sua intenção –, mas a forma como o apagamento da pessoa negra como sujeito se faz presente em Não olhe para cima mostra o quanto devemos estar atentos às naturalizações que nos são impostas sem estridência. Olhemos para os lados.

01 de janeiro de 2022

Daniel Gorte-Dalmoro é bacharel em filosofia e ciências sociais pela Unicamp e mestre em filosofia pela PUC-SP, escritor e psicanalista em formação.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

13 Comentários

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Conan

- 2022-01-12 21:02:15

Que crítica vazia, meu amigo. O identitarismo está corroendo a mente de grande parte das pessoas que se dizem de "esquerda". Onde é que você viu racismo na abordagem desses personagens negros?? Você tá querendo forçar muito a inteligência das pessoas. Para os fanáticos identitários qualquer coisa é racismo, misoginia, lgbtfobia, "apagamento das pessoas negras etc". Esforce-se um pouco mais que da próxima vez você consegue fazer uma crítica que tenha algum sentido pelo menos.

Carlos

- 2022-01-07 08:54:46

Uma das piores críticas que li sobre o filme. Sua vontade de criticar é maior que seus argumentos. Achei que a Unicamp formava intelectuais melhores.

Lilis

- 2022-01-06 07:37:20

As atuações foram fantásticas em contrapartida com o pouco aproveitamento da profundidade de questões sérias da sociedade, e dos personagens. Tem coisas ali que foram tão forçadas que da vontade de rir, kkkk, como comparar a violência polícial séria nos EUA com um mero e engraçado saco na cabeça da cientista. Isso me pareceu como o malvado favorito. Ou a tentativa forçada de criar um segurança corrupto que vende coisas da casa branca, e a inocente cientista descobre o mundo agora. Sendo que a corrupção é algo muito mais complexa. Eu acho que até a pessoa branquinha mais alienada vai perceber o quanto isso é bobo. Mas eu acho que o intuito do filme era criar mesmo essas caricaturas, que sempre existiram, em uma era virtual (acho que ficou fantástico essa questão de falar dos memes, cyberbullying, fake news, e irresponsabilidade em dar a notícia). Eu acho que o filme ficou assim: vamos falar do fim do mundo, sem que existam pessoas e humanidade. No mais, ficou claro que falar do fim do mundo não é fácil assim.

Gabriel

- 2022-01-05 17:55:05

Pensei em comentar... Li os comentários... É inútil. Aja saco. Quer saber? Cada vez mais eu acho que vai ser uma benção quando toda a múltipla baboseira do puxa sardinha gerar o todos contra todos que promete.

Márcia Bozzetti

- 2022-01-05 15:48:17

Concordo com a análise e principalmente, em relação ao personagem Teddy, mas proponho um questionamento: será que mais este tópico não foi uma das mensagens disfarçadas colocadas propositalmente pelo diretor? Justamente para haver este tipo de espelhamento, e percebermos o racismo nosso de cada dia? Porque podemos fazer este tipo de análise de preconceitos sociais em todos os personagens, basta eles serem focados pelos nossos "filtros".

Rosana

- 2022-01-04 15:13:01

Vc está confundindo presença feminina com representatividade feminina. A presidente não tinha representatividade feminina. É só uma mulher num cargo tradicionalmente masculino reproduzindo padrão masculino. Faça uma comparação com Fernando Holiday. É negro? sim. É representativo da luta antirracial? Não.

carlos

- 2022-01-04 15:06:23

Adam McKay repete a dissonância cognitiva da sociedade em seus filmes, como no discurso inicial em Vice. McKay faz a sua parte em alertar-nos e os operadores do sistema sabem muito bem utilizar os efeitos da dissonância cognitiva.

luan

- 2022-01-04 11:58:50

Resumindo: o autor ficou indignado que um personagem negro foi jantar com uma família branca desconhecida, que durante todo o filme o trataram com respeito. 😂😂😂😂. O autor achou um ABSURDO o Teddy não ter ido com a família. 😂😂😂😂. Crítica vazia, simplesmente.

Vinícius

- 2022-01-04 09:14:49

Essa crítica é mais uma daquelas pós-modernas que pegam o micro e não o remetem ao macro, forçando, assim, a nota para falar sobre racismo. Que pelo menos o autor retomasse outras cenas do filme, inter-relacionando-as sempre. Imagine-se o filme apenas com personagens negros: mesmo roteiro e falas, etc. Seria o que isso? Racismo ou empoderamento? Olhemos para a proposta do filme em sua totalidade e não pinçando cenas sem inter-relacioná-las ao todo.

ROGERIO D. MAESTRI

- 2022-01-03 20:27:40

Cada um quer tirar uma casquinha do filme, até o pessoal da cultura Woke.

Ana Laura Prates

- 2022-01-03 18:09:38

Muito obrigada, Gabriel! Você expressou exatamente o que achei do filme, mas fiquei com preguiça de escrever na minha coluna. Vou compartilhar muito!

Evandro Condé

- 2022-01-03 16:39:34

Esse cara viu o mesmo filme? Queria falar de algum preconceito contra negros e aproveitou a oportunidade. Se não houvesse negros no filme falaria sobre a ausência deles.Quanto a redenção religiosa, conseguiu ver o irônico do cara que se desligou de tudo e tudo que restava foi a oração que não fazia o minimo sentido. Ironia e sarcasmo até o fim.

R Godinho

- 2022-01-03 14:58:57

Um filme americano pensado para o público americano. Uma mulher presidente que é igual, em comportamento, a qualquer machista. Uma apresentadora de tv que é o paradigma que eles têm da mulher de sucesso: devassa e boçal politicamente. Um cientista incapaz de falar em público, que é outro estereótipo americano, apesar de professores universitários por lá darem aulas a turmas de dezenas de alunos... Todos os personagens são fracos e estereotípicos, então o que esperar dos negros? Pensando no público a que se destina, pessoas que buscam diversão na Netflix, eu acho um bom filme. Claro que poderia ser muito mais cerebral, mas faria qualquer efeito? Até o típico "destino manifesto" com que eles se vêm está lá: A tentativa de desviar o cometa das outras potências espaciais só acontece depois que a americana, que é a melhor do universo, é abortada. E falha miseravelmente! O porto espacial que tem maior índice de sucesso em lançamentos da história consegue explodir todo de uma vez, mostrando como só os EUA são capazes de salvar o mundo. Ou não...

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