Vali Nasr, professor de Relações Internacionais da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, publicou em 2025 pela Princeton University Press Iran’s Grand Strategy: A Political History — obra que obriga a rever os fundamentos do que se pensa saber sobre a política externa iraniana.*
Há um problema de método na forma como o Ocidente interpreta o Irã. Não é apenas um problema de informação incompleta ou de viés cultural, embora ambos existam. É um problema de categoria analítica: o Irã é sistematicamente tratado como anomalia — um ator guiado por impulsos religiosos e revolucionários que escapam à racionalidade estratégica convencional. Essa premissa, sustentada com a persistência dos axiomas que resistem à evidência, tem custado caro. Não porque produza antipatia moral pelo regime — essa pode ser perfeitamente justificada —, mas porque produz diagnósticos errados que geram políticas ineficazes.

O argumento central de Vali Nasr em Iran’s Grand Strategy é precisamente a desconstrução dessa premissa. O Irã não é um enigma. É um Estado com uma grande estratégia coerente, construída a partir de experiências históricas específicas e orientada por objetivos identificáveis: sobreviver como entidade política soberana, resistir à dominação externa e projetar influência regional como escudo de sua própria segurança. Que essa estratégia seja executada por um regime teocrático com linguagem revolucionária não altera sua lógica fundamental — e confundir a embalagem com o conteúdo é o erro analítico mais recorrente.
O trauma como fundação
Nasr ancora sua análise na história longa. As ansiedades estratégicas do Irã contemporâneo não nasceram em 1979 — têm raízes no século XIX, quando as potências imperiais russas e britânicas desmembraram território iraniano, penetraram sua economia e transformaram o país em objeto de disputa geopolítica. O golpe de 1953, orquestrado pela CIA para derrubar o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh e restaurar o Xá, gravou na consciência política iraniana uma lição que o regime dos aiatolás não precisou inventar: a soberania é frágil, os poderes externos são intervencionistas por natureza e qualquer abertura é potencialmente uma vulnerabilidade.
Khomeini não criou esse medo — ele o canalizou, revestindo-o de linguagem islâmica. Mas a substância era anterior à revolução e sobreviveu a ela como código operacional do Estado. Isso tem uma implicação analítica importante: as políticas externas do Irã pós-1979 não podem ser reduzidas à teologia xiita ou ao voluntarismo revolucionário. Elas expressam, acima de tudo, a lógica de um Estado que aprendeu a desconfiar sistematicamente da ordem internacional e dos atores que a lideram.
A guerra como evento constitutivo
O ponto de inflexão decisivo, na análise de Nasr, é a Guerra Irã-Iraque de 1980 a 1988, como evento constitutivo — aquele que formou as instituições, a doutrina e a mentalidade estratégica que ainda governam o comportamento externo do regime.
O conflito foi, para o Irã, uma confirmação brutal das hipóteses que o regime já sustentava. O mundo árabe apoiou Saddam Hussein. Os Estados Unidos forneceram inteligência e cobertura diplomática ao agressor. O Ocidente permitiu o uso de armas químicas sem consequências. O Irã travou oito anos de guerra praticamente sozinho, perdendo centenas de milhares de mortos, e ao final sobreviveu sem rendição territorial. Dessa experiência emergiram três pilares estratégicos que permanecem operacionais quatro décadas depois: a percepção de cerco permanente como condição estrutural, não conjuntural; a centralidade das forças de segurança — especialmente a Guarda Revolucionária — como núcleo duro do Estado; e a disposição para conflitos prolongados como vantagem comparativa em relação a adversários sujeitos a pressões democráticas de curto prazo.
A guerra também produziu a doutrina da “defesa avançada” — a ideia de que a segurança territorial do Irã depende de manter o conflito longe de suas fronteiras, projetando capacidade de dissuasão por meio de aliados e milícias em outros países. Essa doutrina, que o Ocidente tende a ler como expansionismo ideológico ou como exportação da revolução, tem uma lógica estratégica bastante mais prosaica: é um escudo geográfico construído com os recursos que o Irã tinha disponíveis diante de adversários convencionalmente superiores.




A arquitetura da influência indireta
A rede de proxies que o Irã construiu ao longo das décadas — Hezbollah no Líbano, Hamas e Jihad Islâmica na Palestina, milícias xiitas no Iraque, Houthis no Iêmen — é frequentemente descrita como prova do expansionismo revolucionário do regime. Nasr não nega que a ideologia desempenha papel nessa arquitetura. Mas sustenta que ela é primariamente instrumental: cada um desses atores serve a uma função estratégica específica na doutrina da defesa avançada, funcionando como camada de proteção que mantém potenciais conflitos a distância do território iraniano.
A eficácia dessa estratégia foi demonstrada de forma perversa pela invasão americana do Iraque em 2003. Washington pretendia redesenhar o Oriente Médio sob influência americana. O efeito colateral imediato foi eliminar o principal inimigo do Irã — Saddam Hussein — e criar um vácuo de poder que Teerã preencheu com precisão, instalando influência durável em Bagdá. Não foi um plano iraniano. Foi uma oportunidade explorada por um ator que mantinha estratégia clara enquanto seu adversário operava sem mapa. O paradoxo que Nasr articula com rigor é que a superpotência que pretendia conter o Irã foi, na prática, seu maior agente de expansão regional.
Ideologia como linguagem, pragmatismo como lógica
Uma das contribuições mais importantes do livro é a distinção entre a linguagem da política iraniana e sua lógica operacional. O regime fala em termos religiosos e revolucionários — isso é real e não deve ser descartado. Mas as decisões concretas revelam uma flexibilidade que contradiz a imagem de ator ideologicamente rígido.
O Irã negociou o acordo nuclear de 2015 com potências que considera adversárias estruturais. Recuou taticamente quando pressionado além de sua capacidade de resistência. Manteve relações com atores que contradizem sua própria retórica — incluindo, em determinados momentos, acomodações implícitas com Israel contra adversários comuns. Essa capacidade de dissociar discurso de ação, de tratar a ideologia como recurso de mobilização interna sem deixá-la determinar o cálculo externo, é característica de Estados com grande estratégia consolidada — não de regimes movidos por fervor revolucionário.
Nasr usa uma formulação que sintetiza bem esse ponto: o Irã desenvolveu uma estratégia baseada no legado do colonialismo e na busca de independência e segurança. A teologia fornece a gramática do regime; a geopolítica fornece a lógica de suas escolhas.
O erro de diagnóstico e seu custo
A consequência prática da análise de Nasr é desconfortável para as chancelarias ocidentais: se o Irã opera segundo uma estratégia coerente e de longo prazo, as políticas de contenção baseadas na premissa de irracionalidade estão construídas sobre um fundamento falso. Sanções projetadas para forçar mudança de comportamento em um ator “irracional” produzem efeito diferente quando aplicadas a um ator que aceitou conscientemente o custo do isolamento como condição de sua autonomia. Não é que as sanções não doam — é que o regime calculou que a alternativa, a integração condicional, dói mais.
Isso não significa que o regime iraniano seja benevolente ou que suas políticas não causem danos reais — causam, e em escala. Significa que tratá-lo como exceção patológica, em vez de como Estado racional sob pressão extrema, produz estratégias de contenção que sistematicamente erram o alvo. O Ocidente tem enfrentado o Irã errado porque o diagnosticou errado — e Nasr oferece o diagnóstico alternativo com a autoridade de quem tem acesso direto a tomadores de decisão iranianos e conhecimento interno das estruturas que analisa.
O tempo como vantagem estratégica
Há um último elemento na análise que merece atenção específica, porque raramente aparece no debate sobre o Irã: a assimetria temporal. O regime iraniano opera em horizontes de tempo incompatíveis com os de seus adversários democráticos. Enquanto Washington, Tel Aviv e Riad calculam em ciclos eleitorais e pressões de opinião pública, Teerã joga em décadas. Perde batalhas táticas — e as aceita como custo. Evita guerras diretas que poderia perder. Acumula influência de forma incremental, em territórios e por meios que seus adversários custam a reconhecer como relevantes até que já seja tarde para reverter.
Essa paciência estratégica não é passividade. É o produto de um Estado que aprendeu, pela experiência mais dura, que sobreviver já é uma forma de vitória — e que derrotar adversários convencionalmente superiores exige assimetria, persistência e a disposição de pagar preços que democracias raramente conseguem sustentar por tempo suficiente.
Iran’s Grand Strategy não é um livro que defende o regime dos aiatolás. É um livro que argumenta, com base em evidência e método, que entender o adversário é condição para qualquer política eficaz em relação a ele. Para o leitor brasileiro, o interesse do argumento vai além do Oriente Médio: é também uma lição sobre as consequências de substituir análise por caricatura na interpretação de atores políticos complexos — um hábito que, como Nasr demonstra para o caso iraniano, tem custos que eventualmente se tornam impossíveis de ignorar.
- Leitura do livro Vali Nasr, Iran’s Grand Strategy: A Political History. Princeton University Press, 2025, feito por inteligência artificial.
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