5 de junho de 2026

A desnacionalização silenciosa da tecnologia de defesa brasileira, por Luís Nassif

A venda da SIATT expõe fragilidades estruturais do sistema nacional de defesa e exige uma revisão urgente da política industrial do setor.
Reprodução

A recente venda do controle da SIATT — uma Empresa Estratégica de Defesa (EED) — para um grupo estrangeiro levanta preocupações legítimas sobre o futuro da soberania tecnológica brasileira. Pela legislação vigente, empresas classificadas como EEDs só podem ter até 40% de ações votantes sob controle estrangeiro. Diante disso, duas hipóteses se apresentam: ou os compradores adquiriram apenas 40% das ações ordinárias, complementando com ações preferenciais, ou há um descumprimento da lei, o que implicaria acesso indevido ao Regime Tributário Diferenciado (RETID).

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Independentemente da configuração jurídica da operação, o episódio revela vulnerabilidades profundas na estrutura de defesa nacional. A tecnologia desenvolvida com recursos públicos — em especial da Marinha — torna-se propriedade privada, e sua venda para grupos estrangeiros representa a desnacionalização de ativos estratégicos. Foi o que ocorreu com a Polaris/Turbomachine, que desenvolvia projetos para a Petrobras e, sem mecanismos de proteção como a Golden Share, acabou vendida.

Além disso, a falta de demanda assegurada, como no caso da Avibrás, e o corte de verbas públicas para institutos como o IPqM (Instituto de Pesquisas da Marinha) comprometem a continuidade de projetos e a renovação de quadros técnicos. O IPqM, responsável por desenvolver sistemas de armas, sensores e tecnologias de guerra eletrônica, sofre com a escassez de recursos, colocando em risco capacidades críticas para a defesa nacional.

Na área da saúde, o Brasil encontrou uma solução engenhosa para evitar a desnacionalização: o Programa de Desenvolvimento Produtivo (PDP). Utilizando o poder de compra do SUS, o governo conseguiu negociar a transferência de tecnologia de multinacionais para laboratórios públicos. Posteriormente, laboratórios nacionais foram selecionados para atuar no mercado, garantindo crescimento e capacitação sem perda de soberania.

Esse modelo pode — e deve — ser adaptado para a área de defesa. Muitas empresas do setor surgiram da iniciativa de engenheiros formados pelo ITA, com forte vocação empreendedora. No entanto, seu crescimento é limitado pela falta de recursos e de uma política industrial consistente, tornando-os presas fáceis para empresas estrangeiras. 

Um PDP para a defesa poderia seguir os seguintes princípios:

  1. Definição de pesquisas prioritárias pelo Estado, com participação das três Forças e institutos de fomento;
  2. Controle da tecnologia pelo Estado, com gestão empresarial mantida pelos fundadores;
  3. Contratos que assegurem recursos e encomendas durante o período de consolidação;
  4. Retorno do investimento estatal revertido na contratação de engenheiros para centros de pesquisa militares.

O Projeto Brasil está organizando um seminário para discutir a implementação de Programas de Desenvolvimento Produtivo em áreas estratégicas como saúde, defesa e educação. É hora de transformar experiências bem-sucedidas em políticas públicas que garantam soberania, inovação e desenvolvimento nacional.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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11 Comentários
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  1. Ernestogmv

    23 de setembro de 2025 9:55 am

    Tem uma empresa gaúcha (AEL sistemas) que fabrica painéis digitais. Faz os painéis do C-390. Foi selecionada pela FAB para fabricar os do Gripen comprados pelo Brasil, substituindo os originais dos suecos. Os suecos gostaram e passaram a utilizar esses painéis feitos em Porto Alegre também nos caças da força aérea sueca.
    Daí os Israelenses viram e resolveram substituir o painel do F-35 americano por um feito pela mesma empresa em Porto Alegre.
    Além do painel principal do caça, eles fazem também o Head-Up Display, que fica projetado no cockpit com as principais informações do vôo e também o visor que fica montado no capacete.
    Mas a Elbit System (israelense) já comprou a empresa (de acordo com informações do canal Asas de Aço). Não sei se comprou toda ou só a parte que faz o painel do F-35.

    1. Anonimous

      23 de setembro de 2025 1:41 pm

      Senhor, a Elbit comprou a AEL em 2001, muito antes de o KC-390 sequer existir….

  2. Roland Matt Rola

    23 de setembro de 2025 10:11 am

    Reflexo de um governo sem estratégia. O que será que o presidente da república tem a dizer?
    Já o p*m°nh* que ocupa o ministério da fazenda nem sequer sabe do que se trata. Para ele resta somente cortar gastos para satisfazer a banca financeira.
    É de dar nojo!

    1. ELOI JOSE DA SILVA LIMA

      23 de setembro de 2025 11:08 pm

      Pronto. Não demorou e surge o mentecapto que só sabe jogar pedras no mundo. O assunto em tela na é da responsabilidade exclusiva do presidente ou do ministro da Fazenda, mas também de vários outros ministérios (Defesa, Planejamento, Ciência e Tecnologia) e Institutos governamentais. O problema fundamental do Brasil é não ter massa crítica e quadros mais numerosos de cientistas, engenheiros, técnicos especializados,fruto de décadas de investimentos insuficientes no sistema educacional. Basta observar o exemplo da China como paradigma, assim como da Coreia do Sul e do Japão.

      1. Roland Matt Rola

        27 de setembro de 2025 10:26 am

        Concordo com a última parte do seu comentário.
        Mas o assunto é de inteira responsabilidade do presidente, ainda mais que todos os citados por você são subordinados ao presidente da república!

  3. Theo

    23 de setembro de 2025 7:25 pm

    Deve-se privilegiar empresas com capacidade de oferecer equipamentos para o mercado civil paralelamente. O Brasil gasta muito pouco em defesa e de forma imprevisível

  4. Edison

    23 de setembro de 2025 7:38 pm

    Há muitos anos li que o atraso no desenvolvimento do submarino nuclear brasileiro era fruto do bloqueio de verbas no Congresso Nacional por lobistas brasileiros contratados ou controlados por agentes estrangeiros. Os brasileiros ainda não aprenderam a se defender de ataques estrangeiros a nossa soberania? Parece que brasileiro é o único idiota no mundo que odeia seu próprio país.

    1. ELOI JOSE DA SILVA LIMA

      23 de setembro de 2025 11:14 pm

      Não generalize. Existe um grande número de brasileiras e brasileiros de fato nacionalistas e patriotas, que têm orgulho da nossa nação, assim como existe uma parcela de vira latas, traidores da Pátria, vendilhões e submissos aos interesses estrangeiros. Basta notar o atual exemplo de deputados que veneram os EUA e o Trump, dispostos a transformar o Brasil numa neocolonia quintal dos americanos.

    2. Iuri Rocha

      25 de setembro de 2025 4:47 pm

      E há gente que já passou por esse projeto que diga que isso é fruto da incompetência dos gestores militares desse projeto, que aquilo é só para manter o status quo dali e que nem daqui a vinte anos nem nunca, da maneira que está, vai ficar pronto

  5. Cidadão sem cidadania

    24 de setembro de 2025 1:12 pm

    O Brasil tem presidente? Se tem porque nunca faz nada , se Lula como vocês adoram falar é um estadista, essa empresa e tantas outras tinham sido vendida ou quebradas ? Claro que não, o que fica claro que Lula foi e é homem de discurso e nada mais, repito nada mais, um estadista jamais venderia o pré sal , privativaria rios da Amazônia, já tinha feito mais encomendas para a avibras, não deixaria o Brasil virar um cassino ,hoje é melhor deixar o dinheiro para e lucrando, do que abrir uma empresa , hoje temos mais gente recebendo bolsa família, não tem como um país crescer e não vai, Lula não pegou de volta a Vale, a csn, o gasoduto que foi doado, as refinarias , somos um país com pouca tecnologia e a que temos hoje está indo embora , um estadista deixaria isso acontecer ? Jamais , mas um homem de discurso sim

  6. +almeida

    24 de setembro de 2025 9:10 pm

    As autoridades governantes do Brasil insistem em dar as mãos ao azar e ao vira-latismo soberano e tecnológico, na questão da defesa e da soberania nacional. Após trabalharem, desenvolverem, investirem e insistirem muito, mais uma vez e de forma inacreditável, entregam gratuitmente de mãos beijadas, todo o competente talento da criatividade, do saber e da descoberta feita. E por quê ? Por pura desatenção, negligência, indiferença e displicência com aquilo que mais precisa da mesma inteligência, da mesma capacidade de criação e do pleno exercício do saber para guardar em segurança máxima, esses preciosos e cobiçados tesouros “super brasileiríssimos”.

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