10 de junho de 2026

A guerra geopolítica dos stablecoins, por Luís Nassif

Lei Genius não visa apenas regular o mercado, mas ser instrumento geopolítico para impor poder do dólar no sistema financeiro global digital.

Na coluna de ontem, mostrei os riscos geopolíticos da ofensiva do governo Donald Trump, de dominar o mercado de criptomoedas através do Genius Act, que regula as stablecoins (criptomoedas lastreadas em dólar ou título do Tesouro).

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Pela regulação, o lastro para as stablecoins deverá ficar depositado em instituições norte-americanas. Se o mercado se espalhar pelo mundo, criará uma nova forma de moeda, que poderá ser confiscada pelo governo norte-americano mediante um mero ato burocrático.

Neste mês, os EUA aprovaram três leis relevantes, referentes a tema:

  • Lei GENIUS (Guidance and Establishing the National Innovation for US Stablecoins Act), que institui um marco regulatório federal para stablecoins.
  • Lei CLARITY (Digital Asset Market Clarity Act), que busca definir as competências da SEC (a CVM norte-americana) e da CFTC (a bolsa de commodities e de mercado futuro) no mercado de ativos digitais.
  • Lei anti-Moedas Digitais de Bancos Centrais, proibindo o Fed de emitir sua própria CBDC.

Além disso, em 7 de agosto de 2025, Donald Trump assinou uma ordem executiva permitindo que planos de aposentadoria incluam ativos alternativos como stablecoins, criptomoedas e private equity — abrindo espaço para uma integração mais profunda dessas tecnologias nas finanças pessoais.

A regulação falha

Não se vá esperar, de um governo dominado por big techs e criptomoedas, uma legislação rígida sobre as stablecoins, especialmente sabendo-se do enorme poder econômico do crime organizado e do crime transnacional, como alavancador de cripto negócios.

O Genius Act não garante a aplicação de sanções a stablecoins atreladas ao dólar. Críticos alertam para as brechas para que atores mal-intencionados usem stablecoins para financiar programas ilícitos.

Além disso, a lei cria várias instâncias de licenciamento, federais e estaduais, para emissores de stablecoins. Será inevitável uma competição entre estados, para atrair empresas de criptomoedas, criando brechas regulatórias, com grupos interessados em lavar dinheiro buscando estados com fiscalização mais fraca. Também não exige auditoria financeira independente para emissores de stablecoins com menos de 50 bilhões de dólares em ativos.

Principalmente, ao acabar com as fronteiras entre setores bancários e comerciais, permitirá que empresas de tecnologia ou fintechs entrem no setor bancário sem a mesma supervisão rigorosa dos bancos comerciais, a exemplo do que já ocorre no Brasil.

A geopolítica do stablecoin

Por outro lado, há novas stablecoins sendo criadas.

A China lançou o e-CNY desde 2020. A União Europeia está lançando o Digital Euro, em fase de projeto, mas focado em soberania monetária. E o Brasil tem o Drex, com lançamento previsto para este ano, com foco em contratos inteligentes e inclusão.

Há uma diferença entre o modelo americano e o chinês.

Nos Estados Unidos, Donald Trump está promovendo stablecoins privados, proibindo moedas digitais de bancos centrais. Já a China proíbe criptomoedas, mas apoia stablecoins estatais, para fins geopolíticos. As crises comerciais, promovidas por Trump, podem acelerar a adoção de stablecoins como alternativa a moedas fiduciárias em crise.

Os stablecoins são usados para remessas e comércio em países com moedas instáveis, reduzindo custo de transação em até 98%, em relação a sistemas tradicionais. A intenção da China é impedir que a generalização dos stablecoins lastreados em dólar sirva, no futuro, para um cerco às demais moedas.

Ontem mostramos os riscos para a liquidação dessas moedas ao par – isto é, mantendo a paridade 1 x 1 com o dólar. As stablecoins servem de porto seguro para as criptomoedas em geral. As criptomoedas sobem ou descem ao sabor da especulação: compro determinada criptomoeda se acho que vai subir; vendo se acho que vai cair. Caso ocorra um boom das criptomoedas, os investidores sairão das stablecoins para surfar nas cripto. Para garantir a saída, o blockchain terá que vender os títulos do Tesouro – ou os dólares do lastro. Dependendo do movimento, haverá impactos nas taxas curtas do Tesouro e nas próprias cotações do dólar e do stablecoin.

As intenções da Lei Genius são de consolidar o poder do dólar no mercado de criptomoedas.

A regulação – exigindo lastro em dólar ou letras do Tesouro – visa criar barreiras para que as moedas digitais concorrentes consigam liquidez. Se o Genius Act garantir um amplo mercado para as stablecoins lastreadas em dólar, conseguirá, segundo essa visão, impedir a expansão das stablecoins de outros países. E os fluxos fiunanceiros globais ficarão nas mãos de um país que aboliu o estado de direito e as regras do comércio.

Por tudo isso, a Lei Genius não visa apenas regular o mercado, mas ser um instrumento geopolítico para impor o poder do dólar no sistema financeiro global digital.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. Lênin and The Ulianovs

    13 de agosto de 2025 8:55 am

    Nassif, tem coisas que te escapam.

    O Genius Act é como um daqueles tratados ou atos de “regulamentação” da pirataria, na época das navegações, por países como Inglaterra, França ou Holanda, na disputa por novas terras e mares.

    É uma comparação simplista, mas resolve.

    O ato dos EUA é mais que uma tentativa de recolocar o dólar em seu local de hegemonia.

    Ao contrário, ele prepara o fim do dólar e a transição para outro padrão de troca, e os EUA querem, por óbvio, o domínio na transição, porque sabem que ao fim da transição, os EUA não vão ser mais A potência hegemônica.

    Mais ou menos como os ingleses fizeram…esticaram enquanto podiam se posicionar.

    O Genius Act é a primeira linha de defesa contra o Pix, e vejam só, assim como os chineses mostraram que a IA dos EUA é cara e ineficiente, o Brasil (a Índia mais ou menos) mostrou que é possível um Bitcoin estatal…

    Esse é um “soluço” da história que pode dar caldo, mas, não tem cojones aquí para ir el frente, uma pena.

  2. Rui Ribeiro

    13 de agosto de 2025 9:40 am

    Quando, com o colaboracionismo dos Bostonaros, o governo americano conseguir levar o agronegócio brasileiro à falência, como a Lava-Bosta fez com as empreiteiras brasileiras, os americanos vão tomar de conta do solo brasileiro, comprando-o a preço de banana em fim de feira.

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    13 de agosto de 2025 10:14 am

    O vagabundo Donald Trump transformou esquemas Ponzi privados em um grande esquema Ponzi público. Isso tem uma vantagem, Nassif. No caso do endividamento normal, não tem como o Estado se safar da dívida: ou ele paga ou dá o calote. Mas quando um esquema Ponzi enta em colapso, os idiotas que entraram nele só podem reclamar para o Papa.
    Na prática, Trump está afastando os investidores dos EUA. Isso talvez interrompa o motor da economia norte-americana totalmente financeirizada. Mas por outro lado, o esquema Ponzi público pode implodir a economia do país como um todo.
    A jogada é perigosa. Mas ao que parece Trump não está preocupado com o que acontecerá a longo prazo. Ele raciocina a curtíssimo prazo e sempre leva em conta os interesses mesquinhos pessoais da família dele. Então a questão é “Quanto Donald Trump vai embolsar com a bitcoinzação da dívida pública dos EUA?”

  4. Anônimo

    13 de agosto de 2025 11:30 am

    os filhotes da ditadura cavalgam o golpe….

    https://oglobo.globo.com/opiniao/elio-gaspari/coluna/2025/08/votar-a-anistia-e-o-melhor-remedio.ghtml

    1. fabricio coyote

      13 de agosto de 2025 3:59 pm

      existem comentários meus sumindo…

      rs rs rs

  5. Rui Ribeiro

    13 de agosto de 2025 2:24 pm

    Elogio da Dialética
    (Brecht)

    A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
    Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
    Só a força os garante.
    Tudo ficará como está.

    Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
    No mercado da exploração se diz em voz alta:
    “Agora acaba de começar”.
    E entre os oprimidos, muitos dizem:
    “Não se realizará jamais o que queremos!”

    O que ainda vive não diga: “Jamais!”
    O seguro não é seguro. Como está não ficará.
    Quando falarem os dominadores
    falarão também os dominados.

    Quem se atreve a dizer: “Jamais?”
    De quem depende a continuação desse domínio?
    De nós.
    De quem depende a sua destruição?
    Igualmente de nós.

    Os caídos que se levantem!
    Os que estão perdidos, que lutem!

    Quem reconhece a situação como pode calar-se?
    Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
    E o “hoje” nascerá do “jamais”.

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