5 de junho de 2026

A indústria do cartão de crédito e o Pix, por Luís Nassif

A parte melhor: a influência da Selic. Como a Selic condiciona a taxa cobrada na antecipação, quanto maior a Selic, maior o lucro líquido
Reprodução

São enormes os interesses em torno do Pix. O que ele fez foi permitir às pessoas físicas a transferência de recursos, o pagamento único e, agora, até os pagamentos agendados, sem custo para as pessoas físicas, tirando um filé da indústria do cartão de crédito.

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  • Um estudo da consultoria Roland Berger projeta que a adoção massiva do Pix pode reduzir em até R$ 13 bilhões por ano as receitas das adquirentes**, caso ocorra uma migração significativa de débitos para o Pix** (InfoMoney).
  • Já quatro grandes bancos brasileiros listados em bolsa reportaram perda de cerca de R$ 1,5 bilhão em receitas com tarifas, apenas no primeiro ano após o lançamento do Pix (TradeMap).

Principais fontes de impacto

  1. Substituição do débito
    • O Pix, com custo médio de cerca de 0,22% por transação, reduz significativamente a receita das adquirentes, que cobravam em média 1–2% no débito e até 2,2% no crédito.
  2. Desintermediação dos intermediários
    • O Pix elimina a necessidade de adquirentes, bandeiras e processadores em pagamentos, fragmentando a corrente de valor tradicional do cartão.
  3. Perda gradual de participação
    • Executivos, como os da Stone, estimam que aproximadamente 5% das transações de débito foram substituídas por Pix.

A cadeia produtiva do cartão de crédito

Na indústria do cartão de crédito, os personagens principais são os agentes que participam do ecossistema de pagamento. Cada um tem um papel específico na autorização, compensação, liquidação e faturamento da transação. A seguir estão as principais denominações:

🧩 1. Emissor (Issuer)

  • Quem é: O banco ou instituição financeira que emite o cartão de crédito ao consumidor.
  • Exemplos: Itaú, Bradesco, Nubank, JPMorgan Chase, Bank of America.
  • Ganha com:
    • Juros do rotativo
    • Anuidade (se houver)
    • Multas e tarifas
    • Parte do MDR (recebe comissão da bandeira)
    • Interchange fee (principal fonte na transação)

🧩 2. Adquirente (Acquirer)

  • Quem é: A empresa que fornece a maquininha ou sistema de pagamento para o lojista (estabelecimento).
  • Exemplos: Cielo, Rede, Stone, Getnet, PagSeguro, Adyen.
  • Ganha com:
    • Taxas cobradas dos lojistas (MDR – Merchant Discount Rate)
    • Aluguel ou venda de maquininhas
    • Antecipação de recebíveis

🧩 3. Bandeira (Network / Brand)

  • Quem é: A empresa que gera e administra a rede de pagamentos e os padrões técnicos de operação.
  • Exemplos: Visa, Mastercard, Elo, American Express (em alguns casos, também atua como emissora).
  • Ganha com:
    • Taxas cobradas de emissores e adquirentes
    • Licenciamento da marca
    • Serviços de rede e processamento

🧩 4. Estabelecimento Comercial (Merchant)

  • Quem é: O lojista ou prestador de serviço que aceita cartões de crédito como meio de pagamento.
  • Ganha com:
    • Aumento nas vendas pela conveniência para o cliente
  • Perde com:
    • Pagamento do MDR (geralmente entre 2% e 5%)

🧩 5. Portador (Titular do Cartão / Cardholder)

  • Quem é: O consumidor final que utiliza o cartão.
  • Pode pagar:
    • Juros no rotativo
    • Anuidade
    • Tarifa de saque e atraso

🧩 6. Subadquirente (Sub-acquirer ou Gateway)

  • Quem é: Intermediário entre o lojista e o adquirente, comum em e-commerce e pequenos negócios.
  • Exemplos: Mercado Pago, Pagar.me, Iugu, Stripe, PayPal.
  • Ganha com:
    • Taxa por transação
    • Serviços agregados (antifraude, split de pagamento, recorrência etc.)

🔄 Fluxo Resumido de uma Transação com Cartão de Crédito

  1. Portador faz a compra com o cartão.
  2. A maquininha (Adquirente) envia a solicitação para a bandeira.
  3. A bandeira encaminha ao emissor, que autoriza (ou não).
  4. A resposta volta e a transação é aprovada.
  5. O lojista recebe o valor (descontado o MDR).
  6. O emissor cobra do portador na fatura.

A receita do cartão de crédito

Os dados do artigo se baseiam em informações do ChatGPT.

O negócio do cartão de crédito inclui as seguintes taxas:

  • Taxa de intercâmbio: são as taxas cobradas pelos bancos emissores dos cartões. Também chamadas de MDR (Merchant Discount Rate)
    • Nos Estados Unidos pode variar de 1,5% a 3,5%.
    • No Brasil, varia de 1,5% a 3% para cartões de débito e de 2,5% a 5% para cartões de crédito.
  • Taxa de adquirente. A taxa cobrada na entrega do cartão.
    • Nos EUA, pode ser valor fixo ou percentual adicional.
    • No Brasil, é valor fixo.
  • Taxa de antecipação de recebíveis. Aqui é o pote do tesouro.
    • Nos EUA, é operação quase inexistente
    • O banco antecipa o crédito e cobra taxas muito superiores às de mercado.

Aí entram as disfunções do sistema bancário brasileiro, o custo do capital de giro para pequenas e médias empresas nos dois países. Segundo o ChatGpt

📊 Comparação Direta (estimativa em julho de 2025)

Tipo de FinanciamentoEUA (a.a.)Brasil (a.a.)
Linha bancária tradicional7%–12%25%–45%
Crédito rotativo / cartões15%–25%40%–60%
Crédito com garantias públicas5%–10% (SBA)15%–25%

Pedi ao ChatGpt uma simulação dos ganhos nos Estados Unidos (sem parcelamento) e no Brasil (com parcelamento).

🔍 3. COMPARATIVO FINAL

Indicador🇧🇷 Brasil🇺🇸 EUA
Valor total transacionadoR$ 300 miUS$ 300 mi
Ganhos com MDRR$ 7,5 miUS$ 6 mi
Receita com antecipaçãoR$ 16,2 mi
Ganhos totaisR$ 23,7 miUS$ 6 mi
Peso das taxas para lojistas (%)~7,9% (com antecipação)~2,0%

Repare que o maior ganho dos bancos emissores é com receita com antecipação, o chamado crédito parcelado, que representa mais de 70% do lucro. No total, os bancos brasileiros ganham até 7,9% sobre o total transacionado com cartões, contra 2% dos bancos americanos.

Segundo o ChatGPT, o perfil dos principais adquirentes é o seguinte.

Tabela final com lucro estimado por adquirente

AdquirenteReceita BrutaCusto EstimadoReceita AntecipaçãoLucro Líquido Estimado
Cielo (32%)R$ 1.200.000R$ 480.000R$ 2.281.200R$ 3.001.200
Stone (18%)R$ 729.000R$ 255.150R$ 1.282.800R$ 1.756.650
PagSeguro (14%)R$ 588.000R$ 176.400R$ 997.200R$ 1.408.800
Getnet (10%)R$ 360.000R$ 136.800R$ 712.800R$ 936.000
Mercado Pago (8%)R$ 348.000R$ 97.440R$ 570.240R$ 820.800
Nubank/Spin (7%)R$ 315.000R$ 78.750R$ 498.960R$ 735.210
Outros (11%)R$ 429.000R$ 150.150R$ 783.360R$ 1.062.210
TOTALR$ 3.969.000R$ 1.374.690R$ 7.126.560R$ 9.720.870

A antecipação de recebíveis representa mais de 70% do lucro líquido do setor — é o verdadeiro motor do negócio.

AdquirenteReceita BrutaReceita AntecipaçãoLucro Líquido EstimadoAntecipa/LucroAntecipa/receita
Cielo (32%)R$ 1.200.000,00R$ 2.281.200,00R$ 3.001.200,0076%190%
Stone (18%)R$ 729.000,00R$ 1.282.800,00R$ 1.756.650,0073%176%
PagSeguro (14%)R$ 588.000,00R$ 997.200,00R$ 1.408.800,0071%170%
Getnet (10%)R$ 360.000,00R$ 712.800,00R$ 936.000,0076%198%
Mercado Pago (8%)R$ 348.000,00R$ 570.240,00R$ 820.800,0069%164%
Nubank/Spin (7%)R$ 315.000,00R$ 498.960,00R$ 735.210,0068%158%
Outros (11%)R$ 429.000,00R$ 783.360,00R$ 1.062.210,0074%183%
TOTALR$ 3.969.000,00R$ 7.126.560,00R$ 9.720.870,0073%180%

Aí vem a parte melhor, a influência da taxa Selic. Como a Selic condiciona a taxa cobrada na antecipação, quanto maior a Selic, maior o lucro líquido dos adquirentes.

  • Com Selic alta (~9% a.a. equivalente a 1,5% ao mês), os lucros são máximos.
  • Com Selic média (~6% a.a., ou 1% ao mês), há redução significativa.
  • Com Selic baixa (~3% a.a., ou 0,5% ao mês), os ganhos encolhem fortemente, sobretudo para adquirentes que dependem de crédito, como PagSeguro, Stone e Cielo.

Conclusão do ChatGpt:

Isso evidencia que o modelo de negócios das adquirentes está altamente sensível aos juros, e uma política monetária mais frouxa tende a reduzir suas margens. Obviamente, os ganhos maiores são dos adquirentes que trabalham mais com pequenas e médias empresas, sem acesso a capital de giro barato.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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5 Comentários
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  1. fabricio coyote

    18 de julho de 2025 9:52 am

    temos de enaltecer a coragem e destemida atitude do presidente do stf que respondeu às investidas de trump contra um dos poderes três dias depois da agressão.

  2. Waldir Rodrigues Lima

    18 de julho de 2025 2:31 pm

    É o acordo caracu os bancos entra com a cara e o consumidor entra com o resto.simples assim!

  3. Gilson Mariano das Neves

    19 de julho de 2025 8:08 pm

    E o custo de capacitação dos bancos?

  4. Miko Costa

    23 de julho de 2025 7:10 am

    É um cipoal de gente ganhando dinheiro com essa parafernalha do cartão de crédito

    Isso começou lá em 1995, quando se popularizou o pagamento de cartão em substituição
    ao pagamento por cheque-predatado (custo zero para todos).

    Tem que eliminar tudo isso, não deixar uma única alma viva ganhando
    dinheiro com operação de pagamento e nem de crédito.

    A operação deve se dar somente entre consumidor e fornecedor. Pessoa física
    e pessoa jurídica com intermediação dos computadores do Banco Central do Brasil.

    Se houve qualquer taxa nessa transação, deverá ser para o Fundo de Garantia de crédito,
    uma taxa de 0,50% (ou do inadimplemento médio, o que é mais ideal e justo) para
    criar um fundo para garantir o pix pré-datado. E eliminaria toda essa industrial
    de cartão. Zerava toda a indústria. Resultado: mais comércio, mais indústria, mais
    dinheiro no bolso do povo brasileiro (que converteria em mais consumo), mais
    lucro para todo setor produtivo.

  5. Anônimo

    25 de julho de 2025 11:57 am

    Parabéns pelo texto, Nassif. Você tocou em pontos fundamentais sobre a transformação do sistema de pagamentos no Brasil, com destaque para:

    A disrupção gerada pelo Pix, especialmente na substituição do débito e na eliminação de custos para o consumidor final;

    A boa explicação sobre os agentes da cadeia de cartões — emissores, adquirentes, bandeiras, subadquirentes — e seus respectivos modelos de receita;

    E, sobretudo, o alerta para a relevância da antecipação de recebíveis, que de fato representa a principal fonte de lucro de muitos adquirentes no Brasil.

    Dito isso, gostaria de contribuir com alguns ajustes que podem fortalecer ainda mais sua análise:

    MDR e Interchange não são a mesma coisa. O MDR (Merchant Discount Rate) é o total descontado do lojista, e a interchange fee é apenas a parte repassada ao emissor do cartão. Essa distinção é essencial para compreender a precificação e a cadeia de valor.

    Os percentuais citados para taxas no Brasil parecem superestimados. Desde a regulação do Banco Central, a taxa de intercâmbio no débito está limitada a 0,5%, e o MDR médio no débito gira entre 0,8% e 1,2%. A comparação com os EUA também exige cautela, pois lá o parcelamento não existe como no Brasil, o que altera profundamente o perfil de risco e receita.

    O Pix de fato desintermedia a trilha tradicional, eliminando a necessidade de autorizadores, bandeiras e adquirentes no processamento da transação. No entanto, os adquirentes ainda encontram espaço para atuar no ecossistema Pix, oferecendo soluções como:

    Confirmação estruturada de recebimento para o lojista;

    Reconciliação automática e integração com ERPs.

    Os dados atribuídos ao ChatGPT merecem cuidado. Alguns números e conclusões apresentados como vindos do ChatGPT não correspondem a publicações oficiais ou dados auditados. Por isso, é importante distinguir entre simulações e informações consolidadas por fontes como Bacen, Abecs ou estudos de mercado especializados.

    Por fim, a relação entre Selic e lucro das adquirentes é válida, mas depende da estrutura de funding e do perfil de antecipação de cada player. Nem todas operam da mesma forma, e a sensibilidade aos juros pode variar bastante.

    Seu artigo é uma ótima provocação para esse debate. O sistema de pagamentos está passando por uma reconfiguração estrutural, e sua iniciativa de abordar o tema com profundidade é muito bem-vinda.

    Fico à disposição para contribuir com dados e análises que possam ajudá-lo a aprofundar ainda mais esse tema, que é complexo e estratégico para o país.

    Edson Santos

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