5 de junho de 2026

A pirâmide financeira que ameaça o mercado, por Luís Nassif

A Selic alta e a vinculação do crédito público à dívida elevam custos e estimulam especulação, ameaçando a solvência do mercado.
Imagem gerada por IA

O processo de financeirização global iniciou nos anos 1970, com o fim da conversibilidade do dólar em ouro.
No Brasil, fundos imobiliários apostam em títulos de dívida, criando risco de efeito Ponzi e especulação financeira.
Mudanças na taxa de juros e metas inflacionárias elevaram o custo do crédito, prejudicando investimentos produtivos.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O processo de financeirização da economia global teve seu marco inicial na década de 1970, com o colapso do sistema de Bretton Woods e a suspensão da conversibilidade do dólar em ouro em 1971. Essa ruptura permitiu a transição para um padrão de “dólar flexível”, onde as moedas passaram a flutuar livremente, inaugurando uma era de liquidez internacional descontrolada e a ascensão da grande finança sobre o poder público. A dinâmica do crescimento global, que antes se baseava em ganhos de produtividade real, passou a ser impulsionada pela expansão do crédito e pelo endividamento massivo de governos e famílias.

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A supervalorização dos ativos e a necessidade constante de gerar novos papéis financeiros foram provocados por um descolamento entre a economia real e a esfera financeira. Enquanto o PIB mundial crescia a taxas modestas (2-3%), o mercado financeiro exigia retornos muito superiores (10-15%), criando um abismo entre a riqueza concreta e o capital fictício. Para sustentar essa valorização, as instituições financeiras passaram a operar no modelo “originar para distribuir”, transformando dívidas e contratos de longo prazo em ativos negociáveis através da securitização. Esse processo permitiu que bancos limpassem seus balanços e contornassem exigências regulatórias de capital, alavancando o sistema em níveis extremos.

A disseminação da securitização e de inovações como os derivativos facilitou a formação de sucessivas bolhas especulativas. Ao diluir e redistribuir riscos de forma opaca, o sistema incentivou a concessão de crédito predatório, como as hipotecas subprime (empréstimos para clientes sem renda ou patrimônio, os “NINJA”), sob a falsa premissa de que o risco havia sido eliminado pela engenharia financeira. Esse cenário culminou em crises sistêmicas, como a de 2008, onde a insolvência de ativos “podres” paralisou a cadeia global de pagamentos.

O caso brasileiro

No mercado brasileiro, a financeirização manifestou-se de forma peculiar através da expansão de fundos lastreados em “papéis” (títulos de dívida) em detrimento de ativos reais. Um exemplo notável é a evolução dos Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs), que passaram a incorporar largamente Certificados de Recebíveis (CRI) e Letras de Crédito (LCI). Em casos de gestão pública, como o FII-SP – uma experiência desastrosa do estado de São Paulo – observou-se a alocação de quase metade do patrimônio líquido em ativos financeiros não imobiliários geridos pela própria administradora, elevando o risco de concentração.

Essa estrutura abre espaço para o “efeito Ponzi”, onde a solvência do sistema não depende do fluxo de renda real (como aluguéis ou lucros produtivos), mas da valorização contínua dos ativos e do refinanciamento permanente das dívidas. No Brasil, as taxas de juros elevadas e a abertura para operações de curto prazo reforçam esse caráter especulativo, onde o pagamento de rendimentos muitas vezes depende apenas da entrada de novos capitais ou da inflação dos preços dos papéis, configurando uma armadilha.

Como a financeirização cresce muito mais rapidamente que a economia real, o mercado precisa  inventar novas cartas de papel fino para sustentar o topo, esperando que o vento (a confiança do mercado) nunca pare de soprar. Quando o vento cessar, irá se descobrir que a estrutura não tinha fundação, mas apenas cartas segurando outras cartas.

Teto de gastos e PPP

A parte mais deletéria deste modelo, no país, foi a introdução do sistema de metas inflacionárias, com a Selic servindo de parâmetro para todas as demais taxas, eliminando qualquer outro tipo de taxa de juros que pudesse estimular o investimento produtivo.

Na gestão Maria Silvia, no BNDES, houve a substituição da TJLP pela TLP, em cima de estudos anteriores de Persio Arida.

O padrão tradicional de financiamento do BNDES baseava-se na TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), que era uma taxa flutuante e administrada, definida pelo Conselho Monetário Nacional em patamares geralmente inferiores às taxas de mercado. A nova TLP (Taxa de Longo Prazo) passou a acompanhar a NTN-B (Nota do Tesouro Nacional – Série B), um título público indexado ao IPCA acrescido de uma taxa de juros fixa.

Ao vincular a TLP à NTN-B, o custo do crédito do BNDES passou a refletir o custo real de financiamento do governo no mercado. Como a dívida pública mobiliária (muitas vezes atrelada à Selic ou a títulos como a NTN-B) funciona como um benchmark para o mercado privado, essa mudança “colou” o custo do BNDES na estrutura de juros de mercado.

O resultado foi impor ao BNDES um custo de captação extremamente elevado, transformando-o em um dos bancos de desenvolvimento com as taxas mais altas do mundo, desestimulando o investimento produtivo em favor do rentismo.

Outra taxa civilizada é a da caderneta de poupança. Desde os tempos de Paulo Guedes há um processo gradativo de esvaziamento da poupança e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.

Com isso, todo o sistema de crédito no país ficou amarrado à Selic. O sistema de metas inflacionárias cumpre esse papel. A Selic a 15% exige um superávit primário impossível. O orçamento fica todo amarrado, obrigando o governo a trocar o investimento público em infraestrutura por PPPs (Parcerias Público Privadas).

O setor privado se candidata a uma PPP, o Estado é o garantidor, mas o financiamento se dá na forma de securitização do investimento. E aí, amarra-se tudo à Selic, com a gestão da dívida pública transformando-se na maior máquina de concentração de renda da história.

A efeito Ponzi

E aí se chega ao efeito Ponzi, ao esquema pirâmide, que ameaça todo o mercado brasileiro.

A taxa-piso de captação é a Selic, em valores estratosféricos. Para remunerar o investidor, o fundo tem que ter, na ponta tomadora, empresas dispostas a tomar dinheiro por uma taxa equivalente à Selic + spread do fundo.

Nenhuma empresa de primeira linha se interessará. A alternativa será buscar empresas mais fragilizadas, trazendo um componente adicional de risco ao mercado.

Mais que isso. Com a financeirização crescendo, e os ativos não conseguindo acompanhar, repete-se o mesmo fenômeno de outras bolhas especulativas, como o Encilhamento. Nessa fase, quem concede o empréstimo não tem interesse na solvência do devedor a longo prazo, mas sim nas taxas e comissões geradas pela transação imediata.

O mercado passa a criar toda a sorte de instrumentos. Bancos montam pacotes com os créditos de difícil recebimento e transferem para fundos, tipo o sistema Planner, ou bancos como o Master.

  • Para que investidores conservadores comprem esses papéis, agências de classificação de risco atribuem notas máximas (AAA) a pacotes que, na realidade, contêm dívidas de baixa qualidade. Complementarmente, são criados derivativos como os Credit Default Swaps (CDS), que funcionam como seguros contra calotes, gerando uma percepção artificial de que o risco foi eliminado.
  • Gestores de ativos vendem esses títulos estruturados (ABS ou CDO) para investidores finais, como fundos de pensão, governos locais e investidores estrangeiros, que buscam retornos superiores aos dos títulos públicos tradicionais.

A ciranda se sustenta enquanto o valor dos ativos subjacentes (como os imóveis) continua subindo. Os devedores, sem renda para pagar as parcelas crescentes, refinanciam suas dívidas dando o mesmo imóvel valorizado como garantia para novos empréstimos maiores, o que configura uma estrutura financeira do tipo Ponzi.

Leia também:

https://jornalggn.com.br/coluna-economica/o-modelo-nelson-tanure-e-o-controle-da-gafisa-por-luis-nassif/
https://jornalggn.com.br/economia/banvox-fundo-estocolmo-e-gafisa-falta-alguem-nas-investigacoes-do-master/

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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14 Comentários
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  1. Luiz Gonzaga De Mello Belluzzo

    9 de janeiro de 2026 8:35 am

    Artigo esclarecedor. As questões financeiras sofrem o assédio incansável da Faria Lima

  2. Jotainterrogaçãoexclamacao

    9 de janeiro de 2026 9:34 am

    Nassif no caso Master os Estados e muni opios podem assumir o rombo?É legal isso?Não seria obrigação só do FGC?Se procede a informação isto prejudica em muito o povão e cheira a armação contra o gov. Federal !!!

    1. JotaLuizNassif

      9 de janeiro de 2026 3:47 pm

      Sim jota pode ser um ou outro!!!COMENTÁRIO RESPONDIDO !!!

  3. Jose

    9 de janeiro de 2026 1:20 pm

    No dia que uma análise como essa acontecer em um grupo de mídia com o poder da globo, saberemos que o Brasil começou a mudar.
    Enquanto isso não acontecer, os canalhas e saqueadores continuam dirigindo o país e a opinião das massas.

  4. Pedro

    9 de janeiro de 2026 2:57 pm

    Não precisa falar disso tudo para comprovar o totalitarismo do setor financeiro. Basta fazer contas simples: vale mais a pena um empreendedor gastar X numa atividade Y, empregar muitas pessoas e prestar um serviço relevante à sociedade ou pôr o dinheiro X no mercado financeiro? É claro que o empreendimento tem que valer mais a ponto de ninguém preferir o rentismo. O problema é: os mais velhos, que notoriamente são mais ricos que os mais jovens, quererão empreender já com idade avançada?

  5. Milton

    10 de janeiro de 2026 9:09 am

    Não seria a hora de o BC começar uma saída controlada do atoleiro ? Talvez publicando uma trajetória de redução de médio prazo para a SELIC. Digo médio prazo pela dificuldade de previsões a longo prazo que seria o ideal. O que temos é o BC submetido ao imediatismo rentista de fora para dentro . O fechamento da porta giratória seria possível ? Ou não é relevante ? Diz um velho ditado que “a carne é fraca” . . .

  6. Orsely Azevedo

    10 de janeiro de 2026 10:19 am

    Penso que o (suposto) cidadão médio precisa de textos sobre economia e mercado como esse: analíticos mas tratando de assuntos de interesse público. Nassif, acompanho você desde o início dos anos 90. Parabéns meu velho. É preciso, usando um duplo sentido, furar a “bolha” e você está fazendo isso, dando o recado. Muita gente vê. Um grande abraço!

  7. Miguel

    10 de janeiro de 2026 11:16 am

    Salvo erro, não foi durante a presidência do Pérsio que a TLP foi aprovada. Foi no governo Temer

  8. Miguel

    10 de janeiro de 2026 11:19 am

    Se não me engano, não foi durante a presidência do Pérsio Arida que a TLP foi aprovada. Foi no governo Temer.

  9. Antonio

    10 de janeiro de 2026 11:31 am

    Excelente artigo. Esclarecedor. Didático.
    Gostaria apenas de conhecer o Plano de Saída dessa Armadilha.
    As pontas estão todas amarradas : Inflação, Selic, Equilíbrio Fiscal, Financiamento Público, Bancos, Mercado, Grande Mídia comprada, Política envolvida, Banco Central dependente do mercado, CVM inoperante e os investidores gananciosos.
    Somente um gênio da economia, com autoridade, independência, tempo suficiente, honestidade e força poderia dar um jeito nessa ciranda.
    Quem mexer nessa bomba, terá que enfrentar uma tremenda guerra !
    O Haddad fez muito. E se acabou fisicamente. Não resolveu tudo. Nem poderia…Será preciso muito mais !

    1. José de Almeida Bispo

      10 de janeiro de 2026 9:48 pm

      Somente um gênio da política; nunca um “gênio da economia”. A menos que também o seja da política.

  10. José Machado

    11 de janeiro de 2026 1:22 pm

    Realmente o mercado financeiro dominiou o Brasil; Mas já foi pior, perderam apenas a Presidência da República, mas mantém
    a grande mídia, os órgãos fiscalizadores, o Banco Central, poder legislativo. Dominaram praticamente todo país e escravizaram
    todos a bancar a pirâmide, e condenaram todos à pobreza. Retiram da economia toda riqueza gerada. É um absurdo.

  11. Edna Toledo

    11 de janeiro de 2026 8:36 pm

    Que salada!

  12. Ph Grachi

    12 de janeiro de 2026 2:54 pm

    Estranho que você atribui ao mercado financeiro a culpa pela Selic alta, enquanto o que ouço dos gestores de fundos é exatamente o desejo de redução das taxas

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