2 de novembro de 2026

A proposta monetária de André Lara Rezende, por Luís Nassif

Sem abandonar a meta de inflação, a proposta busca aperfeiçoá-la por meio de mudanças na governança do mercado monetário e na taxa Selic.
André Lara Resende em foto de Geraldo Magela - Ag. Senado

André Lara Rezende propõe reformular a política monetária para reduzir juros altos e aperfeiçoar a meta de inflação no Brasil.
Plano inclui criação do CFMN, faixa para Selic entre 3% e 5,5%, e transição gradual para juros mais baixos.
Complementos necessários: estoques reguladores, regulação do carry trade e direcionamento de recursos para investimento produtivo.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A proposta de André Lara Rezende se concentra na reformulação da política monetária para resolver um gargalo estrutural da economia brasileira: os juros básicos excessivamente elevados. Sem abandonar a meta de inflação, a proposta busca aperfeiçoá-la por meio de mudanças na governança do mercado monetário e na condução da taxa Selic.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O plano estrutura-se em sete medidas fundamentais:

  1. Criação do CFMN (Conselho Fiscal e Monetário Nacional), que definiria conjuntamente metas fiscais e monetárias para os próximos quatro a cinco anos.
  2. Fixar uma faixa para a Selic, com piso de 3% (igual à meta de inflação) e teto igual ao crescimento nominal potencial, estimado em 5,5% ao ano. Por tal entenda-se o crescimento do PIB e inflação.
  3. Submeter exceções ao conselho. A Selic somente poderia ficar abaixo do piso ou acima do teto em situação excepcionais, autorizadas pelo CFMN.
  4. Reduzir gradualmente a Selic em cerca de 12 meses. Na transição, chegar a aproximadamente 7,5% ao ano – teto de 5,5% mais 2 pontos percentuais de segurança.
  5. Eliminar progressivamente o adicional de segurança, reavaliando periodicamente os 2 pontos adicionais e reduzi-los, até sua eliminação.
  6. Intervir no câmbio quando necessário, usando as reservas internacionais quando necessário.
  7. Trocar as LFTs (pré-fixadas) por dívida pós-fixada. A dívida pós-fixada teria menor valorização imediata com o corte dos juros do que títulos prefixados longos. Isso reduziria o mecanismo que poderia provocar um repique inflacionário inicial.

Em síntese, a estratégia busca democratizar o processo decisório da taxa de juros — reativando a representação dos setores produtivos perdida com a financeirização — e substituir o rigor dogmático por uma coordenação transparente entre as políticas fiscal e monetária.

Complementos Essenciais à Estratégia Monetária

Para garantir que a queda da taxa Selic seja bem-sucedida e não gere instabilidades colaterais, a proposta original de André Lara Rezende precisa ser fortalecida com três frentes complementares de intervenção, não contemplados:

  1. Estoques Reguladores contra Choques de Oferta

A elevação dos juros é um instrumento ineficaz para conter inflações decorrentes de quebras de safra ou gargalos logísticos. A constituição e gestão de estoques reguladores de alimentos e insumos essenciais atua diretamente na amortização de choques climáticos e de oferta, evitando que pressões pontuais de custos se convertam em alta generalizada de preços sem a necessidade de sacrificar a atividade econômica via arrocho monetário.

2. Regulação do Carry Trade e do Mercado de Derivativos

As operações de carry trade e o uso alavancado de derivativos cambiais figuram entre as maiores fontes de volatilidade da taxa de câmbio. Trata-se da operação pela qual o investidor toma dinheiro barato no exterior e aplica aqui em taxas de juros elevadas. E pode sair a qualquer momento, para buscar outros mercados. Diante do desmonte gradual do diferencial de juros, torna-se imperativo adotar limites prudenciais de alavancagem, maior exigência de margens de garantia, consolidação de posições por grupo econômico e fiscalização rigorosa contra manipulações. Essas medidas reduzem o risco de corridas cambiais e desvalorizações abruptas do real durante o ciclo de corte da Selic.

3. Canalização de Recursos para o Investimento Produtivo

A simples redução da taxa Selic altera os incentivos financeiros, mas não assegura automaticamente a expansão do PIB potencial. Sem regulação adequada, a busca por rentabilidade pode migrar para a inflação de ativos existentes (como imóveis prontos ou ações no mercado secundário). Faz-se necessário criar instrumentos direcionadores — tais como títulos de longo prazo vinculados a infraestrutura, fundos de participação produtiva e limites prudenciais ao financiamento especulativo — para canalizar a poupança nacional rumo ao investimento novo, máquinas, inovação e ampliação da capacidade produtiva.

Fundamentos Teóricos e Crítica ao Regime de Metas

A necessidade dessa reestruturação decorre das limitações teóricas do modelo tradicional de metas de inflação, como André discorre em seu artigo. O aparato teórico da Curva de Phillips supõe que a alta dos juros reduz a demanda, o emprego e a pressão salarial para conter os preços. No entanto, transformações no mercado de trabalho e a relevância de choques de custos reduziram substancialmente o poder explicativo dessa relação.

Além disso, a dependência excessiva de modelos estatísticos de previsão corre o risco de tratar estimativas não observáveis (como o PIB potencial e a taxa neutra de juros) como verdades objetivas. Esse mecanismo retroalimenta as expectativas do próprio mercado financeiro, gerando circularidade decisória. Uma política monetária soberana exige transparência quanto aos custos de emprego e investimento sacrificados em cada decisão de juros.

Seja qual for o resultado, há uma consequência inicial benéfica: o artigo de André inaugurou uma discussão fundamental para o país.

LEIA TAMBÉM:

Receba os artigos de Luís Nassif pelo WhatsApp

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados