A decisão do FED (o Banco Central americano) e do Banco Central Europeu de reduzir a recompra de títulos públicos mostra a volta do banco central tradicional. A recompra de títulos ajuda a injetar dinheiro no mercado, para combater a recessão promovida pelo Covid. Agora, as políticas de flexibilização monetária serão suspensas.
Na década de 1990 os BCs ganharam autonomia, como forma de garantir a estabilidade de preços. Julgava-se que deixar a política monetária nas mãos dos governos poderia resultar em mais inflação.
Nasce, então, política de metas inflacionárias, que jogou nas mãos do tecnocrata o controle de um dos principais instrumentos de políticas públicas.
De lá para cá, houve uma crise global em 2008, uma recuperação posterior e, em ambos os períodos, a inflação não corroborou o que dizia a teoria monetária.
Como anotou Daniel Gros, membro do Center for European Policy Studies, o fato dos preços não terem desacelerado, mesmo com a recessão profunda, foi batizado de “quebra-cabeça da deflação ausente”. Permanecia a dúvida: porque o BCE não conseguiu atingir sua meta de inflação, apesar de um programa de compra de títulos de vários trilhões de euros.
No início deste ano, o BCE e o FED mudaram suas estratégias monetárias. O BCE fixou uma meta inflacionária de 2% e o FED admitiu uma inflação moderadamente acima de 2% por algum tempo. Ao contrário do Brasil, o FED tem um duplo mandato: preservar os preços e o emprego.
Agora, há sinais de fim da era de inflação baixa. Segundo Gros, “devido ao impacto combinado de estímulos fiscais massivos, uma recuperação mais forte do que o esperado da demanda privada, restrições de oferta decorrentes de gargalos logísticos e preços de energia mais altos”.
Na Zona do Euro, a inflação anual saltou para 4,1% em setembro e 4,9% em outubro. O núcleo de inflação -que elimina preços mais voláteis, como energia e alimentos – está em 2,6% e em alta. A inflação americana está maior ainda, de 6,2% em outubro.
Há receio de que a ortodoxia – responsável pelos grandes desastres pós-2008 – volte a imperar. O presidente do FED, Jerome Powell, alertou para o perigo real da inflação. A meta de emprego foi para segundo plano.
O momento agora é de especulação sobre o futuro da inflação. A inflação dos anos 70 foi fruto de gargalos na produção e explosão dos preços de energia. Segundo Gros, depois, tornou-se endêmica por descuido dos BCs.
É curioso como os diagnósticos fogem de duas questões centrais.
A primeira, a financeirização especialmente dos mercados de comidas e alimentos. Em vez de refletir a relação oferta x procura, os mercados ficaram reféns de jogadas especulativas, que radicalizam qualquer movimento de alta ou de baixa.
O segundo, a maneira como o aumento de liquidez escorre para os mercados.
Em períodos de crise, a emissão de moeda injeta dinheiro nos bancos. Para emprestar, os bancos analisam o risco do cliente. Se a economia está em crise, significa que parte relevante das empresas sofre seus efeitos.
O dinheiro, então, empoça nos bancos e acaba sendo canalizado para movimentos especulativos – recompra de ações pelas empresas ou jogadas nos mercados especulativos, de alimentos, energia e até de habitação.
Se o dinheiro fosse injetado diretamente na economia real – através de transferência de renda ou gastos em infraestrutura, com o dinheiro chegando nas empresas sem passar pelo sistema bancário – não haveria empoçamento da liquidez.
Mas, aí, seria tocar no coração da zorra financeira. E o tema é tabu.
Antonio Uchoa Neto
16 de dezembro de 2021 9:51 amO tema é tabu não por ser, em si, tabu, mas porque o assunto sequer é abordado pela Mídia Corporativa. O agronegócio no Brasil, cantado em prosa e verso por essa mesma mídia, não resiste a uma pergunta básica, que chega a ser pedestre: Se o agronegócio é essa potência toda, que gera divisas e empregos por todo o Brasil, por que há tanta pobreza e miséria, na cidade e nos campos?
E a resposta é tangível, está todos os dias nas mesas de milhões de lares brasileiros. Está todos os dias nas hordas de desempregados e famintos, catando restos de comida em lixões e caçambas de caminhões.
Por trás dessa cortina visível – mas que ninguém vê, e de que pouco se fala – há a outra cortina, diáfana, totalmente invisível, e o que é pior, difícil de explicar e entender: a financeirização da economia.
Não estamos mais no Capitalismo; nesse sistema, explora-se o trabalho do ser humano. Estamos na casa de dezenas de milhões de desempregados, subempregados, informais e desalentados, e, no entanto, os lucros dos bancos sobem a bilhões, balanço após balanço; as indústrias, e outras empresas de grande porte – incluídas aí as empresas de mídia – já possuem, em balanço, mais receita financeira que operacional; e a relação Dívida Pública x PIB, está, se não me engano, acima de 80%.
É a era das Sanguessugas: os bancos sugam as empresas, que sugam o Estado, que não suga ninguém, apenas deixa morrer à míngua. Não é preciso dizer quem é que morre à míngua.
Lula tinha um vice-presidente que não passava um dia sem esculachar o sistema financeiro. Hoje, nem isso temos.
De toda essa cadeia, apenas um elo aparece como inútil e descartável, frágil e doente: o trabalhador. Mais-valia é coisa do passado. O futuro do mundo é virtual: trabalho virtual, dinheiro virtual, homem virtual.
Em Blade Runner, quem não passava no exame médico não tinha direito a ir para as Off-World Colonies; estava condenado a permanecer na Terra, decadente, suja, poluída e já com os recursos naturais exauridos. E quem não era tira, era gentinha.
Ou seja, camisa-preta ou nada.
Alguma semelhança com o que vem por aí?
Amigos, a Distopia caminha a passos largos. E aqui, no antigo Terceiro Mundo, ela já está entre nós.
jose santos
12 de janeiro de 2022 4:14 pmbom dia,
Recentemente li noticias de compras de terras para agricultura em Portugal e Espanha. Se até la, pequenos paises, andam comprando terras imaginem na america do sul e africa. De certo teremos aumento de custos de alimentos. E so o começo.