5 de junho de 2026

Boni, o homem que definiu o padrão Globo, por Luís Nassif

Os carros-chefe do Padrão Globo eram o Jornal Nacional, as novelas em horário fixo, os programas de variedades e os filmes blockbusters.

No dia em que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, saiu da Rede Globo, escrevi uma coluna na Folha dizendo que, se a Globo fosse uma empresa de capital aberto, suas ações despencariam com a notícia.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Só os mais velhos podem ter ideia do que representou o padrão Globo de qualidade nos anos 90, com o país mal saindo da ditadura e buscando uma integração competitiva com a economia mundial.

Os dois símbolos máximos da qualidade brasileira eram a Globo e a Tam, companhia de aviação fundada pelo comandante Rolim

Em cada início de ano, havia um frisson no país, aguardando o anúncio da nova programação da Globo. Eram novos programas, velhos programas repaginados, os blockbusters (filmes de grande audiência) eram as parcerias com o que havia de melhor na TV mundial, era a abertura do Fantástico.

As novelas da Globo se tornaram o grande instrumento de soft power brasileiro. Participei do famoso estudo de Domenico Di Masi sobre A Cara do Brasil no mundo. Os três eventos mais relevantes eram a música, as festas brasileiras e as novelas da Globo, espalhando pelo mundo a beleza feminina, o jeitinho brasileiro e a musicalidade.

Para montar o padrão Globo, Roberto Marinho contou com duas ajudas fundamentais do grupo Time-Life. Uma, foi o know how, a indicação de profissionais que ajudaram a definir alguns pontos fundamentais na competição: a criação de uma grade de programação; o uso intensivo de pesquisas de opinião e a montagem de grades de programação e pacotes publicitários. 

O grande nome foi Joseph Wallach, diretor executivo da Globo de 1965 a 1971.

O grupo Time-Life também garantiu um empréstimo de US$ 5 milhões – muito dinheiro para a época – e a publicidade de vários grupos norte-americanos, entre os quais a Esso, que transferiu para a Globo o “Repórter Esso”.

Fora da Globo, o negócio preferencial de Roberto Marinho eram os investimentos imobiliários. Era tão aferrado ao setor que abriu espaço em O Globo até para Mattos Pimenta, um nacionalista ferrenho, mas dono da maior empresa imobiliária do Rio de Janeiro.

Segundo me contou José Serpa, um dos gurus de Marinho, este colocou todos seus bens em garantia, para complementar o empréstimo da Time-Life. E quase perdeu o controle da Globo para Walther Moreira Salles – conforme narro em meu livro “Walther Moreira Salles, o banqueiro embaixador”.

Pouco antes, Walter, Marinho e Arnon de Mello ficaram sócios no Parque Lage. O parque foi tombado por Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro, em represália a Marinho. Quando entrou Chagas Freitas, Marinho conseguiu o destombamento do parque. Mas, antes que a notícia espalhasse, propôs a Walther adquirir sua parte no empreendimento.

A forra veio pouco depois. Walther era o banqueiro de Marinho. Para receber o empréstimo da Time-Life, Marinho deixou as ações da Globo em garantia. A Time-Life, por sua vez, não tinha interesse em assumir o canal, depois de uma CPI estimulada pelos Diários Associados.

No dia do pagamento, em vez de emprestar a Marinho, Walther se considerou no direito de ir até os gringos para adquirir as ações dadas em garantia.

Marinho foi salvo por José Luiz de Magalhães Lins, sobrinho de Magalhães Pinto e presidente do Banco Nacional, que garantiu o empréstimo e tornou-se patrocinador do maior sucesso jornalístico da Globo e da imprensa brasileira, o Jornal Nacional.

Durante décadas, os jornais brasileiros não fechavam a primeira página sem assistir, antes, o Jornal Nacional.

A fase brasileira

Os dois brasileiros que assumiram a frente da emissora foram Boni, na produção, e Walter Clark, no comercial.

Amparados, também, pela publicidade oficial, Boni deu início ao padrão Globo.

O primeiro grande desafio foi desbancar o programa Flávio Cavalcanti, que dominava as noites de domingo pela TV Tupi. Boni montou o Fantástico, programa inovador que assumiu a liderança em pouco tempo.

Os carros-chefe do Padrão Globo passaram a ser o Jornal Nacional, as novelas em horário fixo, os programas de variedades – dentre os quais alguns programas humorísticos clássicos – e os filmes blockbusters. Todos sob supervisão severa de Boni, para garantir o padrão Globo de qualidade.

Boni inspirou-se fundamentalmente no padrão das rádios cariocas, a rádio Nacional, a Mayrink Veiga com seus humorísticos, novelas, musicais e jornais.

A qualidade musical foi garantida pelos maestros José Siqueira, Radamés Gnatalli, Leo Peracchi, todos egressos do período de ouro da rádio Nacional.

Mas o ponto central eram as novelas. Sob sua direção, a Globo revelou nomes da teledramaturgia, como Dias Gomes, Janet Clair, Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, o inesquecível Manoel Carlos, Glória Perez, Benedito Ruy Barbosa, Walcir Carrasco, Carlos Lombardi e Mário Prata, jamais igualados na era pós-Boni.

Cada novela da Globo era um evento nacional. A trilha sonora era disputada por todos os compositores. Entrar em uma trilha de novela era a garantia para o sucesso.

Dentre os autores, Walcir é uma figura curiosa. No meu período de Secretário de Redação da Folha, Otávio Frias de Oliveira pretendeu criar algum colunista que emulasse o padrão Paulo Francis ou Telmo Martino no jornal. Telmo era um colunista extremamente sarcástico, que tinha coluna no Jornal da Tarde.

Deu uma coluna ao então jovem repórter Walcir Carrasco e o estimulou a distribuir sarcasmo contra tudo e contra todos.

Walcir começou a exagerar. Ponderei, na reunião de pauta com Frias, que Walcir poderia se queimar muito cedo, devido aos exageros. Frias, com seu estilo frio, foi incisivo: “Isso é problema dele”.

Pouco tempo depois, Walcir usou todo seu sarcasmo contra Paulinho da Viola. Aí foi demais. Saiu do jornal mas, algum tempo depois, encontrou seu caminho na teledramaturgia da Globo.

As novelas da Globo tinham a repercussão mundial hoje presente na teledramaturgia da Turquia.

O padrão Boni também chegou ao jornalismo, através das mãos firmes de Armando Nogueira e Alice Maria. Através deles, a Globo contratou os mais brilhantes jornalistas, especialmente da Editora Abril e do Jornal da Tarde.

Coube a Alice Maria – hoje esquecida – levar o padrão Globo para a recém criada Globonews.

Aliás, em fins dos anos 80 fui convidado por Alice Maria, através de Wianey Pinheiro e Woile Guimarães, diretor de jornalismo em São Paulo, para trabalhar na rede Globo. Junto com a proposta, veio a possibilidade de transferir minha coluna “Dinheiro Vivo” do Jornal do Brasil para O Globo.

Recusei o convite. Aliás, recusei até o convite de um almoço com eles no Rio, para não ser tentado pela proposta. Sempre temi o bom emprego e o risco da acomodação.E prezava muito meu direito à opinião, algo que não ocorria no jornalismo da Globo, apesar da excelência técnica.

Boni saiu da Globo em 1997, quando assumiu a nova geração, os filhos de Roberto Marinho. Foi substituído por Marluce Dias, que veio da área administrativa, e ficou por 4 anos como diretor-geral da Globo. No seu período, contratou Serginho Grossman, Luciano Huck e Ana Maria Braga. Durante bom tempo foram as únicas novidades na programação da Globo.

Nos anos seguintes, a Globo enveredou-se pelas novas tecnologias, quebrou a cara com a Globo Cabo, quase quebrou de verdade com a maxidesvalorização de Fernando Henrique Cardoso e foi salva pelo BNDES.

Continuou a ser Globo. Mas nunca mais o padrão Globo de Boni, que sequer foi lembrado na comemoração dos 60 anos da rede.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

8 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Aurélio Medina Dubois

    4 de maio de 2025 10:47 am

    De fato, o padrão Globo de qualidade está hoje presente na teledramaturgia da Turquia.

    A patroa já assistiu na TV Brasil a novela turca “Um Milagre” em horário nobre, e gostou muito. Atualmente está sendo re-exibida às 22:00 horas.

    Outra novela atualmente exibida pela TV Brasil em horário nobre é “Sangue Oculto”, com Luana Piovani em destaque, também com a assistência da cara-metade.

  2. fabricio coyote

    4 de maio de 2025 11:24 am

    A globo sempre me remete a uma frase de Ben Jonson, rival de Shakespeare : A carpintaria é alma da farsa. Ou seja, todo o aparato tecnológico sem qualquer conteúdo honesto e desinteressado.

  3. ed.

    4 de maio de 2025 1:26 pm

    Um nome pouco mencionado na história da TV Globo é o de Walter Clark, que foi o poderoso diretor Geral da emissora desde seu início, já entregando a Boni a indiscutível e nacional “campeã de audiência”. Sua saída obscura em conflito com a fami(g)lia Marinho e o longo período de Boni já no auge demonstra o dito de que :a história é tipicamente contada pelos vencedores”.

  4. Marcelooo.Jotaaa

    4 de maio de 2025 3:32 pm

    BONI O HOMEM Q TOMOU UM PÉ NA BUNDA TAMANHO 54 DOS BILIONÁRIOS APÓS SERVI-LOS FIELMENTE E DETALHE SEM UM TMUITO OBG E UM TAPINHA NAS COSTAS !!!Obs: Ao menos não foi por email zap ou tel !!

  5. J. Alberto

    4 de maio de 2025 9:15 pm

    Prezado Nassif, dizia o finado Paulo Henrique Amorim que “a Globo vai morrer gorda”. Ele estava certo. A TV aberta empobrece a cada dia devido à fuga de anunciantes, mas isso não assusta os irmãos Marinho, já que o grupo Globo garantiu sua sobrevivência. Mérito do embrionário Globo.com do final dos anos 1990 que, com o passar dos anos, fez do grupo Globo líder nacional indiscutível no segmento de notícias pela internet.
    E aí me pergunto: vai ficar assim? A agenda jornalística do país será eternamente pautada pela Globo?
    Penso que o UOL, que nasceu bancado pela Folha, e que hoje é bancado pelo braço de serviços financeiros digitais do seu grupo (PagSeguro e Cia.), parece ser tocado como se fosse um hobby. Como algo que corre o risco de ser descontinuado a qualquer momento.
    Como paulistano, me divirto com esse “Torneio Rio-São Paulo” protagonizado por Globo e UOL na internet. Por outro lado, vejo como positiva a ascensão do Portal Metrópoles de Brasília. Julgamentos de valor à parte, penso ser positivo para os brasileiros beberem de fontes de notícias desvinculadas dessa velha rivalidade do Sudeste. Somos um país continental, e boa parte desse continente precisa de voz própria, e não da voz da Globo que tanto sufocou o interior do Brasil com suas carioquices entregues a fórceps.

    1. LMC

      1 de dezembro de 2025 10:15 pm

      O Metrópoles é uma porcaria-uma mistura de Jovem Pum com Revista Faroeste e CNN Brasil.
      Ou seja,o puro suco do PIG,que tanto o PHA escrevia na sua tribuna na internet.

  6. Silvio Torres

    5 de maio de 2025 9:03 am

    Nassif, apesar de você ter tocado de leve no tema, acho que foi a primeira vez que li alguém de peso falar uma tese que defendo há anos e sendo sempre chamado de meio doido por amigos e familiares. A estrutura da grade da globo veio do rádio. Novelas, programas de auditório (chacrinha/Dercy/austão/humor/musicais) e o futebol. Atualmente, defendo a tese de que exatamente agora, com a perda do monopólio no futebol, começa na globo o mesmo processo que levou ao fim o império da tv tupi. Por falar na rede do indiozinho, discordo de você no período de impacto do padrão globo. Acho que foi no início dos anos 70. A tupi era uma verdadeira zona. Programas e vinhetas mal gravados com uma iluminação péssima, buracos e slides sempre detonando o ritmo da geração no ar e uma grade que não respeitava horários ou cronologia. A globo era o contrário de tudo isso, com uma grade fixa, sem falhas nas passagens da programação e muito cuidado na parte técnica. Quem leu o primeiro livro do Boni vai se lembrar de um detalhe implantado por ele que fez uma monstruosa diferença no que era assistido na tela: câmeras fixas! Na tupi, as câmeras soltas, estilo nouvelle vague, provocavam enjoos e confusão mental no pobre do espectador.

  7. evandro

    5 de maio de 2025 1:49 pm

    Relembrando, a Globo já se permitiu (quem foi o pai da idéia ?)a ter um programa com Chico e Caetano e minisséries antológicas (citando apenas esses dois).
    Hoje há um Globo rural que é ponto fora da curva. Onde mais assistiriam os reportagens sobre as conquistas de sem terras hoje orgulhosos com o que conseguiram em assentamentos?

Recomendados para você

Recomendados