Coluna Econômica: conselhos ao jovem jornalista econômico

Opinar sobre privatização exige conhecimento amplo, da estrutura de funcionamento da economia, da identificação dos setores chaves, os essenciais não atendidos pela iniciativa privada, que não comportam monopólio privado

Periodicamente o jornalismo se torna vítima de determinados bordões. 

Hoje em dia, este risco se tornou maior, pelo opinionismo desenfreado decorrente das redes sociais e do jornalismo televisivo atual, com profusão de comentaristas, âncoras, dos quais se exige opinião formada sobre todos os temas.

Como todo fato exige um comentário, vão se cristalizando os bordões, o efeito manada, o uso de afirmações recorrentes, a maioria em cima do senso comum mais raso.

Nessa balbúrdia informacional, há aqueles jovens jornalistas que pretendem se distinguir, não ser apenas o repórter-massa alinhado apenas com o bordão do dia.

Os conselhos vão para essa minoria.

1. Afirmar que tudo o que beneficia o cidadão é populismo político é desconhecer os fundamentos da democracia.

Esse é um dos piores bordões do momento. Qualquer tipo de gasto que possa reverter, ainda que minimamente, aos cidadãos, imediatamente é classificado de “populismo”, de “interesse eleitoreiro”.

Vamos a um pequeno jogo lógico:

* A função principal do Estado é levar o bem estar à população, garantir alimentação, saúde, educação, redução de desigualdades.

* A maneira de medir a atuação do Estado é através do orçamento.

* Em uma democracia representativa, há uma enorme influência de grupos políticos e econômicos sobre o orçamento.

* A única arma do cidadão para ser beneficiado pelos gastos públicos é através das eleições. É com as eleições que se consegue mais atenção à saúde, educação, obras públicas. 

* O mérito de um Estado se analisa pela forma como gasta o orçamento, não pela economia que faz.

Quando o político planeja gastos públicos, ele está atendendo à pressão dos chamados interesses do seus eleitores. E quando aumenta o orçamento para educação, saúde, está atendendo aos interesses difusos da sociedade. É da própria essência da democracia. Tratando todo gasto público como politiqueiro ou ilegítimo, significa deslegitimar o próprio exercício da democracia.

Portanto, o papel do bom jornalismo é separar os gastos legítimos dos gastos ilegítimos, jamais o de criminalizar os gastos públicos ou de jogar todos os gastos no mesmo balaio.

2. Todo gasto público é desperdício

Essa generalização é de um primarismo desmoralizante, a chamada lógica da dona de casa. O papel do Estado é gastar os recursos que arrecada através dos impostos. O papel do jornalista sério é analisar a natureza do gasto, sua maior ou menor eficiência.

Além disso, há uma enorme teoria econômica consolidada, sobre o papel do investimento público na reativação da economia e na geração de emprego. Pode haver um questionamento em relação ao nível ou à qualidade do investimento. A generalização do investimento público é o maior atestado de ignorância que um jornalista pode apresentar.

3. Toda privatização é virtuosa ou toda estatização é benéfica

Uma economia não pode ser binária. Há setores em que estatais são essenciais; em outros, o setor privado responde melhor. Opinar sobre privatização exige do jornalista conhecimento muito amplo, da estrutura de funcionamento da economia, da identificação dos setores chaves, os setores essenciais não atendidos pela iniciativa privada, os setores que não comportam monopólio privado.

Por exemplo, o financiamento de longo prazo nem sempre atrai o financiador privado pela falta de funding de longo prazo e pelo baixo retorno do investimento. Daí a necessidade de bancos de desenvolvimento públicos.

Energia é setor essencial. Hoje em dia, o que segura o baixo custo da energia é a Eletrobras, controlando usinas hidrelétricas já amortizadas e fornecendo energia contratada para distribuidoras. Privatizada, os contratos serão substituídos pela venda de energia no mercado aberto, impactando o custo da energia para todos os consumidores. Então, é uma empresa essencial.

Pesquisas em saúde são essenciais, conforme a pandemia demonstrou. Há a necessidade de investimento em pesquisa, sem se pensar em retorno de curto prazo. O papel dos institutos públicos, como Fiocruz, Farmanguinhos, Butantã, é essencial, assim como os fundos públicos de financiamento da pesquisa, como as Fundações de Amparo à Pesquisa e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). Não se trata de uma exigência de país emergente, mas um padrão de país desenvolvido.

Do mesmo modo, financiamento de agricultura familiar, de pequena e micro empresas, programas como Luz Para Todos, essenciais para o desenvolvimento do país, não são atraentes para o setor privado, exigindo a intervenção pública.

4. Gastar menos não é necessariamente indicativo de eficiência fiscal

Uma empresa privada visa o lucro. Mas se se guiar exclusivamente palor resultados de curto prazo, arrisca-se a comprometer seu futuro, deixando de lado produtos e planos estratégicos que só maturam no médio prazo.

O produto principal do serviço público é a entrega de serviços. Na educação, entregar vagas escolares e bom aprendizado; na saúde, garantir universalização do atendimento. E assim por diante. Essa é a métrica principal: quanto entrega à população em cada área.

Em cima disso, entra a segunda métrica: os recursos investidos em cada entrega, para fazer mais com o mesmo ou mais com mais.

Com as carências sociais do país, uma das maiores iniquidades é punir o gestor eficiente cortando seus recursos. É o que acontece com as Universidades, por exemplo. Se um gestor consegue economizar em determinado setor, no ano seguinte seu orçamento será cortado, para manter o mesmo gastos do ano anterior.

Gestor eficiente é o que faz mais com menos. E, mostrando eficiência, tem que ser premiado com mais recursos, sabendo que resultarão em mais serviços à população.

5. Há excesso de Estado no país

É uma afirmação chocante. Como se falar em excesso de Estado, se não chega nas periferias das cidades, no campo, nas favelas, nas populações mais humildes, justamente as que necessitam de Estado? É tão ridícula a afirmação quanto a de colocar todo funcionário público na condição de privilegiado.

Há uma discussão muito mais complexa e sofisticada entre áreas fim – aqueles que prestam serviços diretamente à população – e áreas meio. E entre as diferenças abissais de salários do funcionalismo, especialmente de categorias influentes, como Judiciário e alta tecnocracia pública.

Não analisar separadamente cada caso é terraplanismo econômico.

6. As Organizações Sociais são mais eficientes que o serviço público direto

Identificam-se contratos mal feitos pelo serviço público direto e apresenta-se como alternativa a Organização Social usando métodos de gestão do setor privado. No caso das OSs, ela é responsável por todos os contratos firmados. Sem indicadores corretos de avaliação dos serviços, tenderá a superfaturar os contratos ou reduzir a qualidade dos serviços para maximizar o lucro.

Não se pode falar em privatização de serviços públicos sem garantir uma regulação e uma fiscalização adequadas. Portanto, maior ou menor eficácia e lisura não depende da natureza do serviço, mas das formas de controle social.

7. A carga fiscal brasileira é alta

Leia também:  Xadrez da entrada do país na era da ebulição, por Luis Nassif

Alta em relação a quê? A tendência é comparar com outros países latino-americanos. Como 7a ou 8a economia do mundo, a comparação relevante é com economias do mesmo tamanho, Analisar a carga tributária como um todo esconde um engano que compromete o analista. A carga tributária é composta por impostos indiretos (que incidem sobre consumo), impostos que incidem sobre salários e impostos diretos (que incidem sobre a renda). Em estudos recentes, se mostrou que o Brasil é um dos países com maior carga de impostos sobre consumo (afetando pobres muito mais do que ricos) e dos últimos em tributação sobre ganhos de capital.

Colocar todos os tributos no mesmo balaio é tarraplanice.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

7 comentários

  1. A democracia precisa ser refundada. Não é mais possível que tenhamos uma relação cada vez mais medieval com esta roupagem democrática.
    O mundo caminha para conflitos que tem em seu cerne a desigualdade social cada vez mais calcada na superprodução robotizada e na precarização do trabalho e sustentada na manipulação midiática internacional bancada pelo grande capital.
    Assim,não há espaço para os “jovens” jornalistas econômicos e nem para os “velhos” que não leem a cartilha dessa gente.

  2. “seo” Nassif..
    ..já que neste texto vc se pretende ser um importante mentor, gostaria que vc tb pensasse em nos trazer alguns conselhos pra tentarmos lidar melhor com os “economistas anciãos” – tipo Delfin, Leitão, Ming, M.da Nobrega. G.Franco. A.C.PAstore e Fraga ou M.Boille que insistem, MALICIOSAMENTE, antes de irem pra TUMBA ou pras CINZAS definitivamente (e como demora, Jesus ?!), insistem em ficar tumultuando e nublando o entendimento dessa nova geração.
    Qto aos pontos levantados, NÃO há como negá-los, apenas REITERO que a forma que por décadas, muitos progressistas entenderam ser a mais certa de se esclarecer (inclusive VOCÊ, ou P.N.Batista), carece tb de eficiência.
    EFICIÊNCIA, por ex, ao NÃO conseguir separar pro leigo ou novato, o que é um ESTADO altivo, e ativo, CIDADÃO, democraticamente forte, desse ESTADO fraco, amorfo, pesado, corrupto e VAGABUNDO, inimputável, inalcançável e INAMOVÍVEL, estável, abusivo, que os principais Poderes permanentes (judiciário e Forças Armadas, burocrfacias), antes mesmo dos poderes eletivos (legislativo e executivo) se permitem ser.
    ENQUANTO essa diferenciação não ficar clara, em especial pra classe média, os itens 2,3,4,5,6 e 7 terão pouco, ou NENHUM APELO junto a essa ou qq outra geração que careça ter melhor visão pra tomada de decisão.

  3. O artigo é sereno e claro, como de praxe. Não dá pra imaginar empresas privadas se interessando pelas pequenas cidades do Norte e Nordeste, porém fica sempre uma pergunta: se em 130 anos de República, mais da metade da população brasileira – mais ou menos 100 milhões de pessoas – jamais foram pelas redes de esgoto do Estado, tanto faz federal, estadual ou municipal, por quê seriam a partir de agora?.

    3
    1
  4. Tem uma coisa muito estranha no Br, na minha opinião, que não vejo em países desenvolvidos…Tenho a impressão que a economia, no seu sentido abrangente, só pode ser discutida, com peso e propriedade, se o “fulano” que palpita a questão for economista…..e de preferencia economista bancário/queiro(depende da quantidade de ações….)como se um pais do tamanho do Br, em extensão,população e recursos, pudesse ser um Luxemburgo, Panamá ou Singapura gigante, onde a “industria bancaria” fosse a única coisa que interessa…Parece que os economistas de banco/mercado monopolizam, a décadas, o debate econômico…..Eu me pergunto o que essa gente entende de vender alface ou produzir cuecas…..ou mascaras cirúrgicas….Pego o exemplo da francesa Christine Lagarde, por quem nem tenho grande simpatia, que é Presidente do Banco central europeu e ex diretora do FMI, advogada de formação, foi ministra do comercio exterior, ministra da agricultura e da pesca e depois ministra da economia da França……Sempre foi funcionaria de carreira e principalmente, uma Politica…..

  5. Em um país em que seis capiaus tem a mesma renda que a METADE da população, ou seja, cem milhões de pessoas, quem se arvora a economista nem precisaria de tais conselhos…mas a referencia devem ser os midiaticos, esses só estão na midia porque reforçam a manipulação, hoje mesmo uma bomba semiotica será lançada, o golpereporter irá mostrar gente que abriu mão do dinheiro para ser feliz, menos dinheiro mais felicidade, maravilha, e tem gente que procura mensagem subliminar girando discos de rock ao contrario……

  6. Na economia o “mercado” capitalista tem falhas e o governo precisar de funções para “tampar” essas “falhas do mercado”.

    O que é então o mercado? “É a simples interação entre produtores e consumidores”.

    São três as funções de intervenção “básicas” do governo no mercado, no processo econômico, para
    a melhor alocação possível dos recursos econômicos:

    1) Alocativa; Obras de infraestruturas que trarão grandes benefícios sociais (Transposição do Rio São Francisco, Aumento da malha de Transportes)

    2) Distributiva; (Distribuição de renda: Bolsa família, Auxílio Emergencia, Tributação de grandes forturnas…) , programas Minha Casa Minha Vida (distribuição de renda).

    3) Estabilizadora; Redução ou aumento de tributos, aumento dos gastos públicos, geração de empregos,
    politica fiscal e política monetária exercida pelo Banco Central.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome