Com a coronavirus, nada será como antes, por Luis Nassif

Ontem, a decisão de Donald Trump de proibir por 30 dias voos entre Estados Unidos e Europa, marcou a entrada na guerra da segunda economia do mundo.

Com a coronavirus, nada será como antes. Pestes têm o dom de alterar a história, de espalhar a irracionalidade, a superstição, não apenas sobre suas origens, mas sobre os mercados especulativos.

A primeira grande especulação, com o mercado de tulipas na Holanda, coincidiu com a praga espalhada na Guerra dos Trinta Anos, que atingiu seu pico entre agosto e novembro de 1636 em Haarlem, justamente o epicentro da especulação

A corrida foi estimulada por ondas de lucros dos herdeiros das vítimas da peste. Eram comercializadas durante o inverno, quando não era possível examinar a qualidade da flor. E ainda eram objetos de contatos complexos, nos quais se estipulavam os preços a serem pagos se os filhos dos proprietários ainda estivessem vivos na primavera.

A peste negra marcou o declínio da Idade Média. E muitos surtos de peste alimentaram teorias conspiratórias, como a crença de Milão, em 1630, que a peste tinha sido trazida pelos Habsburgo da monarquia espanhola.

Ontem, a decisão de Donald Trump de proibir por 30 dias voos entre Estados Unidos e Europa, marcou a entrada na guerra da segunda economia do mundo.

Na primeira, a China, a guerra começou no dia 23 de janeiro, quando o presidente Xi Jinping anunciou o bloqueio de Wuhan, cidade de 11 milhões de habitantes. Depois disso, a quarentena foi estendida para os 58,5 milhões de habitantes da província de Hubei.

Estão instaladas lá as montadoras japonesas Honda e Nissan, e várias montadoras europeias. Há produtores de autopeças, componentes eletrônicos e equipamentos industriais. Muitas delas precisaram interromper a produção, porque seus funcionários não conseguiram retornar após o feriado do Ano Novo Chinês.

Leia também:  Coluna Econômica: O grande pacto nacional se dará com o afastamento de Bolsonaro

Acontece que a China se tornou o maior indutor de demanda global. No surto de SARS, em 2003, a China participava com 8% da produção global; agora, participa com 19,7% e respondeu por 37% do crescimento mundial cumulativo desde 2008.

Tudo isso vem em cima de um mundo que começava a roçar os limites da recessão.

Quarta maior economia do mundo, no quarto trimestre de 2019 a economia japonesa caiu o equivalente a uma taxa anual de -6,3%. Quinta maior economia, a Alemanha experimentou uma queda anualizada de 3,5% e a França, 10a maior economia, uma queda de 2,6%.

Segunda economia do mundo, no 4o trimestre os EUA tiveram um crescimento real de 2,1% no PIB, tendendo a desacelerar. E a  China cresceu 6,1%, a taxa mais baixa em 27 anos. Para 2020, a projeção do FMI é de uma taxa de crescimento de 5,6%, o nível mais baixo desde 1990.

Agora, a queda adicional da demanda chinesa afetará os países da Ásia, especialmente Taiwan, Vietnã, Malásia e Coreia do Sul. Mas também os exportadores de commodities, como Austrália, África, América Latina e Oriente Médio.

Serão tempos de incerteza, que acirrarão ainda mais o clima de Idade Média na qual o mundo está novamente mergulhado. E essa irracionalidade em breve dominará o mercado financeiro. Serão estruturados novos papéis para acudir grandes setores em dificuldades, podendo alimentar novas bolhas.

Serão nessas águas revoltas que o barco Brasil singrará, sendo conduzido por um presidente sem-noção e um Ministro da Economia sem preparo.

Leia também:  A saída é reciclar a indústria brasileira para produzir equipamentos de saúde

Assim como o mercado financeiro não sabe para onde a economia irá, no momento é impossível prever os desdobramentos políticos desses tempos de cólera. Há apenas uma certeza: nada será como antes.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

10 comentários

  1. Nassif nós brasileiros estamos tão cheios de agrotóxicos na veia q o coronavirus não vai nem querer pegar a gente !!!

    11
    1
  2. um dos perigos é a radicalização do misticismo e da misitificação religiosas.
    lembrei do fileme sétimo selo , de bergman, onde ha um entrecho duma trágica procissão de desesperados açoitados pwla peste.
    na época em que vi parecia tragicomica,
    agora parece apocalíptica,,,

    • Misticismo não se confunde com religião. Místico, na acepção correta do termo, é um buscador de Deus como Santa Teresá D’Ávila, Santo Agostinho, São João da Cruz. Não se confundem com estes fanáticos imbecis.

  3. Agora eu vou usar máscara e coquetéis Orloff nas manifestações.

    E a burguesia e todos os seus lambe-sacos, tipo $érgio Moro e Dallagbosta, serão eliminados se não libertarem o Rafael Braga até às 19 horas da próxima sexta feira.

    Serão eliminados da Copa América, apesar de ainda não estarmos nas eliminatórias.

  4. Eu diria que o Nassif no momento está escrevendo ficção, mas digo isto porque há um ditado que diz:
    A realidade sempre supera a ficção.

    1
    1
  5. São várias configurações: a) Do ponto de vista econômico a sociedade brasileira é uma pirâmide em que a renda se concentra no ápice. Na base, mais de 50% “uma longa fileira de homens mortos.” b) Do ponto de vista geográfico, 4 ou 5 regiões, bastante delimitadas. A região sul propícia o alastramento da epidemia, o vírus se dá melhor no frio. Nas regiões norte e nordeste, com bastante calor e seca, o vírus tem dificuldade de se propagar. Em suma, no regime capitalista, quem tem mais se protege mais…..

  6. Tempestade perfeita: Dengue e coronavirus. Não se esqueçam do dengue, que tem seu ciclo mais forte nesse fim de março e abril.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome