19 de junho de 2026

CPI dos Precatórios, o ensaio para a Lava Jato, por Luís Nassif

Artigo de 1997, sobre a CPI dos Precatórios, é uma prévia do trabalho sujo da mídia na sanha de espancar notícias e criar escândalos.

Em 3 de setembro de 1997 escrevi a coluna abaixo, para protestar contra o clima de linchamento sem discernimento da CPI dos Precatórios. Não era um ou outro jornalista. Era a mídia inteira no trabalho de espancar as notícias e criar escândalos a torto e a direito. Era o prenúncio do macartismo que já se instalara na mídia e que, pouco tempo depois, explodiria no Mensalão e na Lava Jato.

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A CPI e os dentes do tigre

Na terça-feira passada, os telefonemas dos senadores Esperidião Amin e Roberto Requião me surpreenderam. Até então, pensava que a CPI queria me convocar para ajudar na elucidação de dúvidas sobre mecanismos financeiros do precatório.

 As ligações me alertaram para o fato de que eu havia sido convocado como represália, porque cometera a extrema ousadia de dar a palavra a um suspeito.

 No telefonema, os senadores já estavam corteses. Tinham mudado de opinião porque, entre a decisão de convocar e o anúncio, saíram duas outras colunas minhas questionando pontos apresentados pelos suspeitos. Só por isso.

Substituímos a ditadura institucional por outras formas de ditadura, onde a norma geral é a descrença nos mecanismos democráticos. Manteve-se o regime de exceção.

Criticava-se a morosidade do Judiciário e a falta de punição dos réus. Foi esse clima que levou, a partir dos anos 90, imprensa e Congresso a tentarem fazer justiça com as próprias mãos, a serem rápidos e punitivos.

Para tanto, aboliram-se procedimentos morosos, porém essenciais para se fazer justiça, como o contraditório -ouvir os argumentos de todas as partes- e a análise criteriosa dos fatos. A sombra da inquisição mais uma vez abateu-se sobre o país.

Conseguiu-se mais justiça com isso?

Escola Base, Alceny Guerra, Bar Bodega, Clínica Santé, caso Osmar Santos, caso Agroceres, todos demonstram que substituiu-se a morosidade pelos procedimentos liminares. E produziu-se mais injustiça ainda.

Escabrosos

O caso dos precatórios é a repetição pela undécima vez desses procedimentos.

É evidente que há sinais vigorosos de montagem de quadrilhas e de possibilidades de ganhos indevidos com os precatórios.

A partir dessa constatação inicial, contudo, jogou-se tudo no mesmo balaio. As denúncias estão ocorrendo diuturnamente, com uma leviandade de dar medo.

Tudo passa a ser escabroso, tétrico, conspiratório. Se se descobre um flat em nome de um suspeito, tem de ser o flat onde se articulavam à sorrelfa os grandes golpes -não pode ser um flat normal.

É um clima horroroso e de pouca qualidade que coloca a mídia, como um todo, nas mãos do primeiro manipulador que tenha a oferecer esse alimento incomparável: o escândalo.

É evidente que existem trambiqueiros e corruptos no processo. Mas quem? Onde as provas? Ainda vão aparecer. Mas não se execute, antes de dispor de certezas.

Cria-se na opinião pública a falsa impressão de que todos são culpados. Mais adiante, desmoraliza-se a Justiça quando ela, com base nos autos, inocentá-los.

Cadáveres políticos

Há três cadáveres políticos nessa CPI, que provavelmente ainda não se deram conta disso. São os três mais bravos inquisidores-senadores Esperidião Amin, Vilson Kleinubing e Roberto Requião.

Os três descobriram que o tigre da mídia gosta da carne fresca do escândalo e o estão alimentando diariamente.

Quando a CPI dos Precatórios tiver esgotado seu estoque de escândalos, o animal feroz continuará faminto. E não haverá escândalo melhor do que descobrir escândalo nos próprios inquisidores. Estão aí o ex-deputado Ibsen Pinheiro e o ex-senador Bisol para confirmar.

Há um dossiê contra o senador Vilson Kleinubing preparado pelo governo de Santa Catarina; um contra Roberto Requião, distribuído tempos atrás para a imprensa por seu arquiinimigo Hélio Duque; um contra Esperidião Amin, mencionado tempos atrás em um programa de TV por um ex-presidente da OAB leviano.

Os três estão guardados no armário dos jornais, porque ainda não são a bola da vez. Quando a CPI deixar de fornecer carne fresca para a fera, aí sim o tigre vai abrir a bocarra à sua frente. E, a exemplo do que sucede hoje com seus adversários, não terão a quem recorrer.

Não se saberá se eram inocentes ou culpados das acusações. E também não terá a menor importância. Porque o que interessa, apenas, é a carne fresca do escândalo.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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1 Comentário
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  1. Silvio Torres

    20 de abril de 2025 9:41 pm

    Tá aí a explicação de porque você nunca foi deixado de lado pelas máfias desse país, Nassif. Confesso que sempre achei estranho e sem sentido a virulência e a constância dos repetidos ataques à suas páginas na Internet. O Brasil dá medo.

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