26 de junho de 2026

É hora de discutir o extrativismo financeiro, por Luís Nassif

A forma mais sofisticada e rentável de espoliação: o extrativismo financeiro. E o seu principal motor atende pelo nome de carry trade.
Foto de Sebastião Moreira - EFE - Reprodução

Investidores aplicam capital em juros altos do Brasil via carry trade, sem gerar emprego ou tecnologia.
A Selic sobe para conter inflação causada pela fuga de capital, mantendo ciclo que prejudica indústria e crescimento.
Brasil deve adotar controles e regulação para frear volatilidade financeira e romper dependência do capital especulativo.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Sempre que uma nova riqueza natural surge no horizonte brasileiro — seja o pré-sal, o agronegócio ou as terras raras —, o país é assombrado pelo mesmo fantasma histórico: conseguiremos transformar esse potencial em desenvolvimento real ou repetiremos a velha sina de exportar recursos e importar prosperidade?

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Enquanto o debate público se concentra no campo e nas minas, consolidou-se silenciosamente a forma mais sofisticada e rentável de espoliação da nossa história: o extrativismo financeiro. E o seu principal motor atende pelo nome de carry trade.

O mecanismo é objetivo. Investidores internacionais captam recursos onde os juros são historicamente baixos — como Estados Unidos, Europa ou Japão — e os aplicam nos juros estratosféricos do Brasil. O lucro nasce dessa diferença de taxas (spread). Ao contrário do investimento produtivo, aqui não se constroem fábricas, não se gera emprego e não se desenvolve tecnologia. Trata-se da exploração de uma renda puramente artificial, cuja conta é paga pelo Tesouro Nacional.

Troque o açúcar, o ouro ou o café pelo diferencial de juros, e a estrutura colonial reaparece intacta.

O círculo vicioso da Selic

Esse modelo de negócios criou um círculo macroeconômico perfeito, que aprisiona a política monetária brasileira em uma armadilha cíclica:

Quando o Federal Reserve (o Banco Central americano) aperta os juros lá fora, o capital foge do Brasil. O real se desvaloriza e a inflação sobe. A resposta padrão do Banco Central brasileiro é elevar a Selic para conter uma suposta pressão de demanda. Com isso, recompõe-se o prêmio dos investidores, o capital volta, e a engrenagem reinicia.

A política monetária passa a girar em torno da necessidade de estabilizar o fluxo financeiro, sacrificando a indústria, o crédito e o crescimento do país.

Para garantir a sobrevivência dessa máquina, formou-se uma sólida “coalizão rentista”. Bancos, gestores de fundos e investidores internacionais unem forças para defender juros estruturalmente elevados, atuando como as velhas oligarquias agrárias que preferiam administrar a renda da dependência a enfrentar o custo de modernizar o país.

A roupa moderna da dependência

Essa dinâmica não é um erro técnico de percurso; é a expressão monetária do subdesenvolvimento descrita há meio século pelo pensamento econômico latino-americano.

Quando Raúl Prebisch e a CEPAL demonstraram que a periferia global estava condenada a exportar commodities baratas e importar manufaturas caras, desenharam o que hoje podemos chamar de reprimarização monetária. Na base da hierarquia internacional de moedas, o real precisa pagar um prêmio permanente para ser aceito. O Brasil passou a exportar sua própria taxa de juros — um produto bruto, sem valor agregado.

O mestre Celso Furtado alertava que o subdesenvolvimento se perpetua porque o excedente gerado na periferia não se converte em acumulação interna, sendo drenado para fora. No cenário atual, esse dreno ganhou contornos ainda mais graves sob as teses de Arghiri Emmanuel e Ruy Mauro Marini sobre a troca desigual.

Como o mercado financeiro não produz valor real, os bilhões de reais transferidos a cada subida da Selic saem diretamente do produto social brasileiro — dos impostos e do suor do trabalhador. O ajuste fiscal severo que financia a conta de juros nada mais é do que a face moderna da superexploração do trabalho.

O caminho para a autonomia

Romper esse ciclo não significa fechar as fronteiras para o capital estrangeiro, mas sim blindar o país contra a volatilidade especulativa. A experiência internacional de nações que se industrializaram rapidamente, como a China, aponta para caminhos claros:

  • Fricções regulatórias: Implementação de tributação diferenciada por prazo de permanência (punindo o capital de curto prazo).
  • Controle sobre derivativos
  • Mecanismos macroprudenciais: Exigência de depósitos compulsórios sobre ingressos especulativos e maior regulação sobre o mercado de derivativos.

O verdadeiro debate econômico do Brasil contemporâneo não se resume à falsa dicotomia entre austeridade e gastança, mas sim entre autonomia e dependência. Chegou a hora de discutir o extrativismo financeiro com a mesma seriedade com que debatemos as nossas riquezas naturais. Afinal, no século XXI, a maior riqueza extraída do Brasil não está no subsolo ou nas florestas: está na decisão soberana sobre a quem a nossa taxa de juros deve servir.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. Paulo Dantas

    6 de junho de 2026 8:42 am

    Discutir o assunto é o começo, este site é dos poucos que faz isto.

    O resto fica no varejo das ideias e dos índices.

    Todos sucumbiram a ideia de que somos apenas fornecedores de soja e minérios.

    E na mídia “mercado” é mercado financeiro.

  2. Rafael

    6 de junho de 2026 9:41 am

    Alguns debates interessantes sobre o que seria uma “macroeconomia do desenvolvimento”.
    Entre a teoria de um André Lara Resende e a prática de Mário Bernardini.
    Alguns passos que as forças que estão no governo poderia dar.
    Formação de uma maioria política (com liberais e desenvolvimentistas) > desenvolvimento do Brasil > macroeconomia e o papel do Estado > plano de metas > reformas estruturais….

    A TAXA DE JUROS NO BRASIL É UM ESCÁRNIO? – ANDRÉ LARA RESENDE
    https://www.youtube.com/watch?v=I0EIj0gv4_E

    COMO A CHINA FICOU 10X MAIOR QUE O BRASIL? Mário Bernardini Explica Tudo!
    https://www.youtube.com/watch?v=HW6dx_xKAuM

  3. J...P...M...

    6 de junho de 2026 4:58 pm

    Certo este mecanismo existe a muito tempo só q não pode deixar eles dominarem todas as estruturas de poder,está ficando oneroso demais ao País,causando falencias,miserias e CONCENTRAÇÃO DE PODER a entes privados em detrimento da coisa pública,as distorções estão ficando INSUPORTÁVEIS enquanto os jornalistas ENGANAM O POVO subvertendo a percepção de todos,o problema não é só a biqueira,roubo de cargas e etc…o problema é a corrupção jurídica,policial,informacional SÓ COLARINHO BRANCO NA PARADA,AFF !!!!

  4. J.MAAARCELO...

    6 de junho de 2026 5:20 pm

    Nassif tá devendo um curso pra nois de história contemporânea jurídica,jornalistica e política do Brasil para q os erros não se repitam,muitos protagonistas da era lavajato/bolso/milícias estão se posando de a favor do Brasil e contra a corrupção!!!

  5. Silvio Torres

    8 de junho de 2026 3:27 pm

    A ousadia do primeiro governo de Lula com a descoberta do Pré-sal foi o gatilho para a ciranda de barbáries que temos vivido desde as “manifestações” de 2013. Um grande projeto para a exploração e DISTRIBUIÇÃO equitativa da riqueza foi anunciado e iniciado. Lula repetiu ene vezes, com firmeza e justiça, que o dinheiro do petróleo iria beneficiar TODOS os brasileiros. Não é por falta de vontade política e projetos audaciosos de determinados espectros ideológicos que cada nova descoberta de riquezas fabulosas não se traduzem em um país de primeiro mundo. Nós todos sabemos muito bem porque isso nunca acontece, desde Deodoro.

  6. cezarperin

    11 de junho de 2026 3:13 pm

    Que aula!! Que explicação!!

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