21 de maio de 2026

Elio Gaspari e o paradoxo da economia da dona de casa, por Luís Nassif

Comparar as finanças domésticas com as finanças públicas pode levar a conclusões errôneas sobre políticas econômicas.

É curiosa a discussão sobre déficit público no país. É de um primarismo obsceno. E não se acuse apenas os jovens setoristas de incapacidade de aprofundar o debate.

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Um dos mais experientes jornalistas brasileiros, em sua última coluna na Folha e em O Globo, Élio Gaspari cometeu a seguinte frase:

“Qualquer família sabe como lidar com déficit: se a arrecadação é insuficiente, deve-se cortar despesas. Lula e o comissariado petista não gostam dessa ideia”.

Trata-se de uma das comparações mais primárias dentro do que se denomina de Falácia da Composição – um erro lógico que ocorre quando se assume que o que é verdadeiro para uma parte de um sistema é verdadeiro para o sistema como um todo. 

Aqui estão alguns exemplos específicos de como as finanças domésticas e as finanças públicas são diferentes:

– Uma família pode se tornar insolvente se gastar mais do que ganha. Um governo pode não se tornar insolvente, mesmo que gaste mais do que arrecada, pois pode emitir dívida pública.

– Uma família pode ter que cortar gastos para pagar dívidas. Um governo pode aumentar impostos ou cortar gastos para pagar dívidas, mas isso pode ter um impacto negativo na economia.

– Uma família pode investir seus recursos para obter retornos. Um governo pode investir em infraestrutura ou educação para melhorar o bem-estar social.

Comparar as finanças domésticas com as finanças públicas pode levar a conclusões errôneas sobre políticas econômicas. Por exemplo, a afirmação de que um governo deve cortar gastos para reduzir a dívida pública, como supõe Gaspari, é baseada na analogia com as finanças domésticas. Porém, se o corte de gastos levar a um desaquecimento da economia, a queda na atividade econômica provoca, ao mesmo tempo, uma queda na receita fiscal, podendo até aumentar o déficit público, além de todas as contraindicações, na redução do emprego, da atividade econômica.

Há uma discussão cada vez mais aprofundado sobre as políticas de austeridade. Como leitor voraz, Gaspari poderia encomendar livros de Joseph Stiglitz, de Clara Mattei e outros. Poderia também se instruir com autores ortodoxos. Qualquer que seja o tipo de leitura, o poupará desse vexame de comparar finanças familiares com finanças públicas – uma comparação frequente em jovens repórteres, mas inadequado para um jornalista com sua experiência.

Ontem, depois de todo carnaval com a mudança da meta de déficit público, a Bolsa subiu, o dólar caiu. E o tal do mundo não se curvou à supina ignorância da discussão econômica brasileira.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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15 Comentários
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  1. Andre-Kees Schouten

    2 de novembro de 2023 8:20 am

    Nassif é muito gentil com o colega ao sugerir as leituras, mas desconfio que o primarismo não seja por pura ignorância, não. É só aquele sentimento antipovo e antipetismo atávico mesmo.

  2. Jicxjo

    2 de novembro de 2023 8:26 am

    Impressionante ser necessário mais uma vez combater essa metáfora desonesta, que volta e meia é novamente espalhada pela mídia. Finanças públicas não têm nada a ver com finanças domésticas, em razão de emissão de moeda, de dívida pública, do poder de fixar a taxa de juros, do poder de tributar, das obrigações legais e constitucionais, da dinâmica econômica sobre a arrecadação. Lembro-me de há oito anos ter tido que explicar isso a um colega de trabalho que regurgitava professoralmente lá no setor as falácias que ouvia de colonistas econômicos, na época do envenenamento da sociedade contra Dilma. Jornalixo que se explica às vezes por ignorância, mas em regra por interesses ou má fé mesmo.

  3. Charlito

    2 de novembro de 2023 9:12 am

    Mais uma vez adventavit asinus, pulcher et fortissimus..

  4. JOÃO DE DEUS SOUZA SILVA

    2 de novembro de 2023 9:42 am

    Leio Gaspari há décadas, tenho seus livros sobre a ditadura, nunca concordei totalmente com suas ideias, mas sempre o respeitei intelectualmente. Mas ultimamente ele vem passando pelo mesmo processo de “pasteurização” que acomete a mídia corporativa. Como Paulo Francis no final da carreira.

  5. ERNESTO

    2 de novembro de 2023 11:06 am

    Acho que até leu, provavelmente entendeu, mas opta pelo desgaste com o público um pouco mais esclarecido. Deve ter suas razões. O importante é manter vivo o mantra. É o tal jornalismo independente, nem q seja dos fatos.

  6. Vladimir

    2 de novembro de 2023 12:14 pm

    Não é uma questão de leitura.É uma questão do servilismo ao patronato. Pena de aluguel.

  7. Luiz Fernando Juncal Gomes

    2 de novembro de 2023 12:52 pm

    José Paulo Kupfer – Elio Gaspari, que tem solução para todos os problemas, caindo na falácia da composição, na coluna desta 4a.: “Qq família sabe como lidar com déficit: se a arrecadação é insuficiente, deve-se cortar despesas. Lula e o comissariado petista não gostam dessa ideia”. Keynes tb não gosta.

  8. WRamos

    2 de novembro de 2023 12:57 pm

    A comparação não é somente desonesta, é também parcial.
    Antes de cortar gastos, a família coloca mais membros para trabalhar, o chefe procura uma promoção, etc. Tratam primeiro de reforçar a renda até onde podem. Já o estado tem mais opções de aumentar receita do que uma família, como bem explica o Nassif.
    Uma coisa que as finanças públicas poderiam copiar do orçamento doméstico é tratamento dos investimentos. Tal qual as empresas, as famílias não confundem investimento no carro, na casa, etc. como despesa corrente. Para isto olham sua poupança acumulada e sua capacidade de endividar.

  9. Jackson da Viola

    2 de novembro de 2023 1:13 pm

    O problema é que na mídia corporativa, o debate não existe…o que existe é um monologo que passa de uma boca/caneta/teclado a outra com pequenas variações na forma mas o conteúdo é o mesmo…

  10. Renato Cruz

    2 de novembro de 2023 2:02 pm

    Déficit significa recessão, desde a Revolução Francesa, provocada por uma incontrolável crise fiscal na França. Vamos de novo para o abismo, por decisão de Lula, comunicada ao distinto público na manhã de sexta-feira passada. O mesmo abismo em que caímos em 2014-16, a maior recessão da história do Brasil desde a Grande Depressão, desastre esse também produzido inteiramente por Lula-Dilma-PT. Fernando Haddad deveria ter pedido demissão na tarde do mesmo dia, mas ele é gentil demais para um gesto desses. Que venha o novo desastre iniciado agora por Lula, mais uma vez.

  11. Jota.ponto.marcelooo...!!!

    2 de novembro de 2023 2:08 pm

    CASTA EMPRESARIAL E TRABALHADORES UNIDOS CONTRA A LÓGICA MILITAR E A PAZ REINARÁ NESTA TERRA CHAMADA BRASIL !!!

  12. Manuel, jose

    2 de novembro de 2023 3:12 pm

    Coisas que não tem limite( conhecido)
    1- o universo .
    Embora haja divergência.
    2- a burrice dos esquerdistas.
    …no caso em pauta , do sr Luiz.
    Só que é muito burro não concorda.

  13. josé Oliveira de Araújo

    3 de novembro de 2023 8:43 am

    O Sr.Elio Gaspari, deveria pesquisar a situação da dívida pública nos paises mais desenvolvidos do mundo começando pelo EUA. Há pouco mais de 40 anos, eles passaram de maiores credores do mundo para os maiores devedores do mundo e pasme o senhor, sem que a nossa imprensa livre de isenção, fizesse o menor alarde. Os EUA, Reino Unido, União Uuropéia, Japão e outros países podem fazer deficit nas contas públicas, curiosdamente até o Brasil, desde que não seja um governo liderado pelo PT. Este tem que cortar gastos, principalmente os sociais, caso contrário, os fiscalistas de araque, vão dar chilique.

  14. JOSE GUILHERME GOMES DE MIRANDA

    3 de novembro de 2023 10:39 am

    Pior e mais irritante é quando comparam o Estado a uma empresa, cujo único objetivo é o lucro.

  15. +almeida

    4 de novembro de 2023 10:00 am

    Não troco meu “oxente”
    Pelo “oh shit”
    Pra ter vintém
    Não troco minha gente
    Pelo agito
    Que lhe convém
    O que eu gosto
    Pode num ser teu gosto
    E tudo bem
    Quem muito quer ser os outros
    Acaba por ser ninguém

    É melhor não falar errado
    O que, de fato, é certo
    Do que falar tão correto
    O que é indigesto e errado
    Baião é destemperado
    É um trava língua completo
    Ensino de analfabeto
    Deixa o letrado entalado

    (Trechos de Baião – Canção de Alok, RAPadura Xique-Chico e Whindersson Nunes)

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