9 de junho de 2026

Lula 4.0 e o tribunal da história, por Luís Nassif

O julgamento relevante é outro, e mais implacável: o que Lula foi diante do que Lula poderia ter sido. E o saldo não lhe favorece.
Lula em foto de Ricardo Stuckert / PR

Lula teve dois mandatos com avanços sociais, mas manteve políticas econômicas herdadas que limitaram mudanças estruturais.
No terceiro mandato, métodos de governo anteriores desapareceram, e projetos importantes perderam protagonismo.
Falta um projeto mobilizador para o Brasil, apesar de ideias e quadros técnicos disponíveis, alerta o artigo.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A história julga com capricho e sem piedade. O que hoje parece monumental, amanhã pode encolher até o banal. O que hoje brilha como visão estratégica, amanhã pode revelar-se miopia disfarçada de prudência.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Lula nunca aceitou o papel de coadjuvante. Herdou da dona Lindu uma determinação de ferro — a de provar que um homem sem diploma poderia ser maior do que qualquer presidente que o antecedeu. Essa ambição foi sua força motriz.

Mas o tribunal da história não o comparará a Michel Temer, Jair Bolsonaro, José Serra ou Aécio Neves. O julgamento relevante é outro, e mais implacável: o que Lula foi diante do que Lula poderia ter sido. Nessa balança, o saldo não lhe favorece.

Os dois primeiros mandatos entregaram alívio real a milhões de brasileiros — o Bolsa Família, o Luz para Todos, a Farmácia Popular, alguma reforma agrária, a expansão das universidades federais e dos institutos técnicos, o fortalecimento do SUS. Realizações concretas, inegáveis. Mas realizações construídas sobre o colchão de um superciclo de commodities que suavizou as escolhas difíceis — e que ninguém tinha o direito de desperdiçar. 

Porque Lula não tocou nas vulnerabilidades estruturais que Fernando Henrique Cardoso instalou no metabolismo da economia brasileira. As metas de inflação permaneceram intocadas. A âncora cambial que desindustrializou o país continuou operando. O processo de concentração de renda — o mais agudo da história nacional — seguiu seu curso sem que ninguém ousasse interrompê-lo. Governabilidade foi a senha, e o “presidencialismo de coalizão” herdado de FHC, o preço.

Houve um momento de exceção. No segundo mandato, quando o impeachment já se desenhava no horizonte, Lula desenvolveu um estilo de governo que merecia ser permanente: reuniões ministeriais densas, ministros estimulados a propor, as melhores ideias testadas em conversa reservada com seus autores, depois encampadas como projeto de governo, executadas sob a disciplina implacável de Dilma Rousseff na Casa Civil. Uma arquitetura de poder que funcionava.

No terceiro mandato, esse método desapareceu.

O Nova Indústria Brasil virou programa do vice-presidente Alckmin — sem visibilidade, sem protagonismo presidencial. A transição energética, iniciativa de Fernando Haddad, ficou confinada a reuniões sem repercussão. O Brasil 2050, de Simone Tebet, transformou-se em base de dados de Power BI, sem que nenhum resultado prático chegasse ao debate público. A reforma tributária foi aprovada — vitória real e significativa. Mas ficou sozinha no campo das realizações estruturais.

O que explica esse recuo? Menos a pressão política, mais o cansaço do cotidiano. E, sobretudo, o medo de desfazer o casamento impossível com o mercado e a grande mídia — aquele arranjo pelo qual se abandona a ambição transformadora em troca de aprovação dos que nunca aprovarão o suficiente. Metas inflacionárias, arcabouço fiscal, spreads bancários escorchantes, leilões de energia térmica: territórios intocáveis. Antigos aliados que pudessem perturbar o arranjo: afastados.

Enquanto isso, Lula preferia cavalgar as “entregas” pontuais, brilhar nos palanques internacionais — e ninguém lhe disputaria o título de maior estadista da atualidade — e deixar Rui Costa na porta do salão presidencial como barreira contra qualquer incômodo.

O problema é que as pesquisas já registram o que o país sente: falta um sonho. Falta um projeto que mobilize o eleitorado para além da gestão do presente. E o sonho existe — um Brasil socialmente justo, cientificamente avançado, industrialmente soberano. As ideias estão disponíveis. Os quadros técnicos existem. As organizações públicas e privadas aguardam convocação. O modelo está na memória viva do Plano de Metas de JK.

O que falta é que Lula acorde para o que ainda pode ser — antes que a história feche o livro.

PS – Dedico esse artigo ao inesquecível físico Rogério Cerqueira Leite, hoje, quando Lula anunciou investimentos no Laboratório Nacional de Luz Síncroton, um orgulho da ciência nacional, fruto de sua visão.

LEIA TAMBÉM:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

14 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Avel Alencar

    19 de maio de 2026 7:34 am

    Lula acomodou-se , essa era a função da cadeia quando o prenderam. Arrancar as presas e garras.

  2. Ulisses Simon da Silveira

    19 de maio de 2026 8:11 am

    O copo meio cheio ou o copo meio vazio? Se fosse em um país sério, poderíamos até julgar. Mas aqui? Com a imprensa, Faria Lima e Judiciário como são desde antes da promulgação da liberdade aos escravos? Lula não é Messias

    1. Bruno Lima

      19 de maio de 2026 2:54 pm

      eureka. com um bando de vira latas jogando contra, o que se deu pra fazer ( manutenção mínima das instituições e do estado democratico de direito) foi o possivel. enquanto o congresso foi esse daí(composto por oligarquias e interesses escusos) o Brasil será sempre o país do futuro.

  3. Rui Ribeiro

    19 de maio de 2026 8:42 am

    Nassiff, você acha que o Lula não faz mais por falta de vontade política ou porque o sistema não permite manobras mais amplas?

    Agora me lembro do Chico Buarque: “A gente vai contra a corrente até não poder resistir, na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir”.

    E agora A CCJ analisa a proposta de redução da maioridade penal para crimes hediondos. Ou seja, para crimezinhos o maior de 16 e menor de 18 anos é inimputável, para crimes hediondos, não. Onde já se viu isso? Mas aqui é Bananistão

  4. Ulisses Simon da Silveira

    19 de maio de 2026 9:17 am

    PS. Esqueci o pior congresso e e oposição que já vivi. Até o dinheiro tiraram do executivo, além do banco central

  5. Aldair E F Jr

    19 de maio de 2026 9:23 am

    Acho q todos sabem: se fizer qq coisa coisa dessas suas proposições, seo Nassif, o golpe é certo…

  6. Eduardo Pereira

    19 de maio de 2026 9:25 am

    Com dito abaixo, é a história do copo de chopp. Pro cara que gosta ta meio vazio, pra quem não gosta ta meio cheio.

    Nassif tem cobrado um plano de Desenvolvimento mas ele não ta dando moral nem pro Alckmin nem pra Tebet , Cada um ta batendo um bolão nas suas áreas. Açckmin trabalhou pra trazwer empresa pra ca e a Tebet bancou o Projeto estruturante que e a nossa ligação direta com o Pacífico.Só que falam pouco.

    Ou, o que mais acho, que a burocracia que domina o PT não quer : alguem fora da “Tendência” aparecendo mais.

    Exemplo ? Mudou o cara da Comunicação e comcei a desscobrir que existia Governo. No tempo de Politico corrupto do União que começou o governo e de Zeca Dirceu na liderança do PT na Câmara já dão a ideia do meu desepero.

    Agora ate no Youtube tô descobrindo coisas que deveriam ter aparecido pro elitor desde 2023.

    E , vamos combinar que o que o Nassif ta falando não e problema exclusivamente do Lula É do CPFs que são Ministros ou responsáveis por áreas chave do Governo.

    Visão e tudo. Ao Lula cabe a liderança. Mas tem que vir contribuições . Ele não é Imperador. É o Presidente mais democrata que Eu já vi.

  7. Eduardo Pereira

    19 de maio de 2026 9:30 am

    Completando

    Fiz uma pesquisa no Google e descobri que o Congresso mais propenso a apoiar a propostas do Governo Lula foi o de 2003/2006 .

    A Lua de Mel acabou no “Mensalão” . E no 2º mandato o Congresso começou a endurecer, e as bancadas progressistas começaram a diminuir.

    O Congresso hoje, ate pro Google é o mais refratário . Agressivo, corrupto e viciado em emenda secreta e acordo que ferra o Brasil.

  8. Dr.JotaADV.Federal

    19 de maio de 2026 10:14 am

    ORAS LULA NUNCA PODE COM OS.BILIONARIOS MIMADOS Q MANDAM NO PAIS,FEZ ENCHELOS DE MAIS GRANA,LULA.GOVERNA INCRIVELMENTE COM OS PARLAMENTARES BOLOSONARISTAS Q ATÉ ONTEM O CHICOTEAVA COM MILITARES ,MIDIA,IGREJAS,E STF JUNTO.AFF EM Q PLANETA VC ESTAVA?EXIGIR O QUÊ?O JOGO.E ESSE SOBREVIVER OU REVOLUÇÃO,AFF,O MUNDO TÁ BEM PIOR?SAI DA BOLHA,A ECONOMIA SUPER AQUECIDA COM PLACA CONTRATAS3 EMCTUDO QUANTO É LUGAR,O BRASIL NÃO CRESCECMAIS PELOS JUROS ESCORCHANTES COBRADOS DOS NOSSOS EMPRESÁRIOS E POVÃO,ACORDA,LULA E O PT SOBREVIVE A DEZ ANOS SENDO CULPADO E COBRADO SELVAGEMENTE POR VCS JORNALISTAS Q MUDAM A PERCEPÇÃO DO POVO E NÃO DENUNCIAM AS MAZELAS,BANCO É BANCO E EMISSORAS SÃO EMISSORAS POR CAUSA AUTORIZAÇÃO DINHEIRO PÚBLICO ELES FOGEM TOTALMENTE A FINALIDADE?BOM MESMO FOI O ESTRAGO DE TEMER E BOLSO,GUEDES,NÃO VEJO NG COBRAR ELES,AFF !!!

  9. Djalma Oliveira

    19 de maio de 2026 11:07 am

    Juscelino tinha base parlamentar sólida, que permitiu aprovar seus projetos.
    Qual é a base parlamentar de Lula 3? Temos agora mesmo a questão da jornada 6×1, bombardeada dia e noite pela bancada BBB e pelo PIG.
    O cara não consegue aprovar uma indicação para o STF.
    Se não conseguir eleger uma bancada progressista no Senado esse ano, não governa e se peitar os caras, cai.
    Lula está sozinho contra um bando de milicianos apoiados pela imprensa e por muito dinheiro.
    Se não tivesse reação de alguns setores, o power Point de sadi tinha colado em seu governo e talvez nem fosse candidato.
    Com o legislativo atual, a imprensa, faria Lima e evangelicos, Lula faz milagres.
    Talvez em um quarto mandato, o último, ouse peitar tudo e todos, só não sei com que armas.

  10. Veritas

    19 de maio de 2026 12:26 pm

    Considerem trabalhadores candangos, que conheceram uma lâmpada elétrica há um mês, instalando elevadores que até hoje funcionam. O Brasil hoje tem muito mais recursos humanos, recursos de informática que não existiam nos anos 50, muito mais estrutura energética instalada, muito mais estrutura de telecomunicação, tem muito mais inserção internacional. Faltam o sentido organizacional de planejamento e gestão, as metas e a visão de soberania JK . Vale destacar que nas lições do jurista Dalmo Dalari, em “Elementos da Teoria Geral do Estado”, soberania é um elemento essencial do Estado, juntamente com povo, território, ordenamento jurídico e a finalidade da promoção da personalidade e da dignidade humanas. Soberania é a capacidade suprema de decidir em última instância e a afirmação da personalidade independente do Estado. Portanto, sem soberania, não há estado moderno, nem promoção da personalidade e da dignidade humanas, nem Presidência da República.

  11. WRamos

    19 de maio de 2026 1:06 pm

    “A história julga com capricho e sem piedade. O que hoje parece monumental, amanhã pode encolher até o banal.”
    Não se aplicaria ao plano automobilístico de JK. que desembocou no caro e difícil de reverter sistema de transporte rodoviário?
    Também não me parece que nos anos JK o país fosse governado pelos credores. Quem deve não tem espaço de manobra enquanto não paga a dívida, já que não se cogita calote de um governo consequente. Dilma chegou ao ponto de colocar a dívida no nível de praticamente paga, mas a reação do financismo foi desesperada e vencedora. Agora temos os boletos na mão, vamos ter que fazer resultado primário modesto e ir baixado os juros para novamente sinalizar que um governo popular paga dívida e investe no povo.

  12. Jose de Almeida Bispo

    19 de maio de 2026 8:47 pm

    Vou dar meu pitaco. Parafraseando Napoleão:
    E quantas divisões tem Lula???

  13. Pedro Rocha

    21 de maio de 2026 11:48 am

    Para um texto denso um tempo curtíssimo na tela principal. Não é a maior falha do espaço, mas é substancial. Há muito a dizer, a dificuldade é a de sempre. O Lula é uma ilusão e um azar chocante que a história nos arrebentou. É triste e apavorante, o povão merecia uma chance melhor. O que resta de sensibilidade social numa população idiotizada permite as vitórias presidenciais. Por ignorância e falhas de compreensão, partilha poder gigantesco com diversas elites predadoras. O Lula jogou no lixo a maior e melhor janela de oportunidade em 2002, basta comparar aspectos daquele cenário com o atual: estrato evangélico, militância direitista, composição congressual, infinidade de “partidos políticos”. Se não foi capaz no momento de pista limpa em dia claro, logicamente o desempenho seria horrível em situação oposta. Sempre foi do pragmatismo e de intuições ingênuas, sem contar o deslumbramento. Assim, uma postura débil sobre o papel de liderança do conjunto ideológico, sobre a importância do legado das instituições progressistas/socialistas. E tome a principal porrada: destruição do patamar ético desejado pela esquerda que, a propósito, o Professor Aldo não se cansa de mencionar. Nas discussões, por incrível que pareça, a esquerda é a corrupta e a direita a salvadora. Sem nunca ousar o confronto, pois não entende o que é capital político, trata-se de um populista conservador com mentalidade curtoprazista. A tragédia é que suas incapacidades praticamente selam o destino do país, está aí a displicência com a conservação ambiental, os cuidados paliativos com a população pobre e o avanço do autoritarismo. A questão não é o Lula finalmente ser, a questão é a construção das bases da Nova Esquerda.

Recomendados para você

Recomendados