5 de junho de 2026

Nassif: quando o Estado resolveu coordenar: JK e o New Deal

Dois exemplos históricos: o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e o New Deal, de Franklin Delano Roosevelt.
Juscelino Kubitscheck e Lúcio Costa - Reprodução

O Plano de Metas de JK (1956-1961) coordenou bancos, ministérios e empresas para acelerar o desenvolvimento do Brasil.
O New Deal nos EUA integrou Estado, sindicatos e empresas, usando obras públicas e comunicação para legitimar ações.
Hoje, o Brasil tem mais tecnologia e gestores que no passado, com potencial para um novo Plano de Metas coordenado.

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Há momentos raros, na história dos países, em que governos param de discutir sobre como o Estado deve agir ou não e passam a decidir como ele vai agir.

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Aqui, dois exemplos históricos: o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e o New Deal, de Franklin Delano Roosevelt.

Plano de Metas: desenvolvimento por coordenação

O Plano de Metas (1956-1961) de JK não foi apenas uma lista de objetivos. Foi um método de articulação política entre órgãos públicos, empresas privadas, bancos, técnicos e atores internacionais.

O primeiro passo foi juntar estruturas já existentes:

  • BNDE (criado em 1952, ainda jovem, mas central)
  • Banco do Brasil
  • SUMOC (embrião do Banco Central)
  • Ministérios setoriais
  • Empresas estatais (Petrobras, Eletrobras em gestação)
  • Empresas privadas nacionais e estrangeiras
  • Corpo técnico do ISEB e da Cepal

Nada foi criado por JK. O que ele fez foi conectar.

Como funcionava o Estado Orquestrador

Na partida, havia metas claras e finitas. 31 metas agrupadas em energia, transporte, alimentação, indústria de base e educação. E um objetivo explícito: “50 anos em 5”.

O crédito era direcionado. O BNDE financiava projetos aderentes à meta. E também a infraestrutura necessária, usinas, barragens e redes, já sabendo antecipadamente quais setores industriais seriam viabilizados depois.

Havia uma aliança clara Estado-empresa. O Estado entrava com crédito, proteção cambial e infraestrutura. O setor privado entrava com capital, tecnologia e execução.

O plano atraiu multinacionais porque havia plano e metas, e não porque havia discurso liberal.

Ponto central: coordenação política no Centro através da Casa Civil, que funcionava como núcleo estratégico. Conflitos entre Ministérios eram resolvidos politicamente.

O New Deal: o nascimento do Estado coordenador moderno

Nos Estados Unidos, o New Deal mobilizou as seguintes instituições:

  • Tesouro dos EUA
  • Federal Reserve
  • Governos estaduais e municipais
  • Sindicatos
  • Associações empresariais
  • Universidades
  • Judiciário (mesmo sob tensão)

O desafio maior não foi criar agências, mas fazer o sistema operar em rede.

Os principais mecanismo de articulação:

1. Planejamento com legitimidade social.

Havia conselhos tripartite (Estado, empresas e trabalhadores), pactos setoriais de salários, preços e produção, e sindicatos como atores institucionais, não como inimigos.

2. O eixo de integração eram as obras públicas, que geravam emprego, renda, demanda e conexão social.

Houve também uma regulação financeira coordenada, proibindo que um mesmo banco fosse, ao mesmo tempo, banco comercial e banco de investimentos. O sistema financeiro deixou de comandar o Estado, eliminando um dos grandes fatores para a crise de 1929.

3. Além disso, havia comunicação permanente. Com o Fireside Chats, Roosevelt falava direto com a sociedade e conseguia legitimar decisões difíceis.

O Brasil de hoje

O país, hoje, está semelhante ao Brasil pré-JK. As instituições já existem, a tecnologia facilita a coordenação e o capital humano é maior. 

A diferença é que possui muito mais condições para um novo Plano de Metas do que nos tempos de JK. Na época, com exceção da Cemig, não havia tradição na montagem de projetos. Economistas tiveram que vestir a camisa de gestores para ajudar nos desenhos do plano.

O número de instituições superiores era pequeno e havia pouquíssimos cursos técnicos. Havia a Universidade do Brasil (atual UFRJ) formando engenheiros, médicos, economistas e advogados. Também a Universidade de São Paulo, como polo de ciência aplicada, engenharia, física, química e economia. E escolas de engenharia tradicionais, como a Politécnica da USP, a Escola de Minas de Ouro Preto e a Escola Nacional de Engenharia (RJ). O CNPq tinha poucos anos de vida, assim como o CAPES.

Hoje há forte mais que suficiente de gestores, pesquisadores e técnicos para um novo Plano de Metas.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. Gaspar Alencar

    28 de janeiro de 2026 7:54 am

    Nassif, quando leio GGN, OP, Colabora e Opera mundi, percebo a guerra travada incansável para não apenas informar, mas esclarecer. Em um filme ontem não lembro o nome do filme, mas foi feito uma menção sobre o livro 1984, quando a mentira está em alta. A verdade é como uma missão. Vamos levar a imprensa independente para as IES, Escolas de Base e para Rua. Urgente!

  2. Antonio Uchoa Neto

    28 de janeiro de 2026 11:23 am

    “O sistema financeiro deixou de comandar o Estado, eliminando um dos grandes fatores para a crise de 1929.” Que sonho! Mas não é verdade. O Crack da Bolsa em 1929 foi o primeiro não-acontecimento (conforme diz o Wilson Ferreira, do Cinegnose) de grande repercussão mundial. E o que foi o crack da Bolsa? Simplesmente, os bancos deixaram de rolar as dívidas daqueles que se empanturram de ações na Bolsa de Valores, no final dos ‘roaring twenties’. Nada além disso. Melhor dizendo, a primeira grande bolha dos tempos modernos. Parte da elite americana chegou a articular um golpe fascista para derrubar Roosevelt (conforme denunciou o general Smedley Butler, autor de “War is a Racket”), mas a parte mais sensata disse assim: ‘deixem de onda, deixe esse comunista maluco fazer o que ele quer, que a gente é que vai lucrar com isso.’ Toleraram o Glass-Steagall Act (o FGC deles, lá), separando bancos de investimento e de varejo, que não os importunou até os anos 90, quando a mudança tecnológica de configuração e funcionamento do sistema financeiro forçou-os a fazer Bill Clinton revogar esse ato, e se prepararam para inflar uma nova bolha – crise cíclica, no jargão capitalista, e voltaram a encher as burras de dinheiro. Capital, melhor dizendo; dinheiro é coisa de pobre.
    Brasil, anos 50. JK: política desenvolvimentista, emissão de moeda (e os banqueiros, oba!!!), endividamento externo (e os banqueiros, oba!!!), e bancos estatais (e os banqueiros, hummm…).
    Ou seja, aconteça o que acontecer, uma classe, e um setor da sociedade jamais perdem. JK estava certo; mas talvez ele tenha acreditado (não sei, é mera suposição) que essa classe, e esse setor, compartilhavam de seu ideal de fazer prosperar o país e melhorar a qualidade de vida da população. Não compartilhavam, não compartilham, e não compartilharão – e isso não é profecia, é cair na(o) real (sem trocadilho, apesar da tentação do (o)).
    O sistema financeiro domina o mundo desde 1694 (criação do Banco da Inglaterra). Tenho para mim que, uma vez atingido um grau de exaurimento das possibilidades (de sobrevivência e força de trabalho) do tecido social, é necessário um JK, ou um Lula, alguém com essas estranhas ideias ( fazer prosperar o país e melhorar a qualidade de vida da população), para aquecer a atividade econômica, e assim movimentar financeiramente o país, a fim de que os bancos possam se reabastecer para a criação de uma nova bolha. Mas isso é somente uma desconfiança de leigo, de quem está (mas nem sempre, pois o desemprego e o subemprego são uma realidade inescapável aqui, abaixo da linha do Equador) dentro da bolha e de lá é ejetado, quando ela explode.
    O sistema financeiro deixar de comandar o Estado? KKK (mais uma vez, sem intenções trocadilhescas; é só uma onomatopeia – e podem rir-se à vontade).

  3. Renato Lazzari

    28 de janeiro de 2026 12:10 pm

    Nada é mais justo do que o estado coordenar a iniciativa privada afinal que empresa chega ao sucesso sem usar de recursos públicos, sem o estado financiador e indutor desse sucesso.

    Por exemplo quanto dos poderes e prerrogativas de estado os Estados Unidos usam para alavancar as empresas privadas de seus cidadãos? Já que legalmente forças armadas privadas são milícias, as forças armadas dos Estados Unidos – públicas, portanto – não são usadas frequentemente para que empresários privados estadunidenses se imponham e dominem mercados de outros países? Que tal lembrar da United Fruit, hoje Chiquita Brands? Indo mais longe no tempo mas sem mudar desse eixo anglo-estadunidense, e a Companhia da Índias Orientais?

    Não tem como uma empresa privada crescer sem usar de recursos público. Por isso existem os bancos de desenvolvimento… Então pelo menos que o estado coordene e, claro, fiscalize rigorosamente a atividade que ele próprio fomenta e financia. Onde já se viu o estado financiar quem o quer mitigar, quem prega o tal de “estado mínimo”?

    1. emerson57

      29 de janeiro de 2026 1:26 pm

      Tem cabimento o governo financiar a iniciativa privada pagando aos bancos mais do que recebe dos tomadores privados?
      Certa vez, Lula disse que acabaria com a divida externa e a ingerência do FMI.
      Cumpriu.
      Poderia agora acabar com a divida interna que suga 15% ao ano da bolsa da viúva.
      Ai o nó.
      Como fazer isso se tudo que é construido é vendido na banca de feira internacional? Se privatizam tudo desde fegaçê, desde agua aeroportos, estradas, siderúrgicas e o escambaw?
      Não satisfeitos ainda emprestam dinheiro do POVO (BNDES) com juros camaradas aos novos donos?
      Não vai dar certo!

  4. Roland Matt Rola

    28 de janeiro de 2026 1:01 pm

    Dois erros gravíssimos cometidos por JK:

    1) Praticamente abandonou o modal ferroviário em detrimento do rodoviário.

    2) Ter permitido que empresas estrangeiras assumissem o protagonismo nos setores mais dinâmicos da economia, em detrimento das nacionais. Muitas vezes tomando medidas que prejudicavam as nacionais e favoreciam as estrangeiras, como a manutenção da estúpida instrução 113 da Sumoc, herdada do incompetente governo Dutra.

    Que vergonha!

    1. emerson57

      29 de janeiro de 2026 1:41 pm

      O principal erro foi o “apartamento na Veira Souto”:
      Juscelino Kubitschek não acumulou uma grande fortuna pessoal durante sua presidência (1956-1961), sendo conhecido por um estilo de vida focado em obras públicas e desenvolvimento, muitas vezes ignorando questões financeiras pessoais. Ao falecer em 1976, seu patrimônio era considerado modesto, não condizente com a magnitude das obras que realizou, como a construção de Brasília. Wikpedia
      Quando de sua morte, porém, o seu inventário de bens mostrou um patrimônio modesto, tendo sua filha Márcia precisado vender um apartamento para financiar sua campanha eleitoral à Câmara dos Deputados.[146]

  5. José de Almeida Bispo

    28 de janeiro de 2026 6:42 pm

    “O sistema financeiro deixou de comandar o Estado,(…)”
    O Estado é o todo. Qualquer setor, por mais abrangente que seja, será apenas parte. Não pode comandar o todo. Os vícios são inevitáveis. E se já for viciado como a banca… um Deus nos acuda.

  6. Césarperin

    29 de janeiro de 2026 6:16 pm

    Eu concordo, mas vou lembrar de Getúlio e da criação do Estado moderno brasileiro Nassif. Lembre- se do que disse Chico Oliveira sobre Getúlio.

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