21 de maio de 2026

O Brasil e o último baile da ilha fiscal, por Luís Nassif

O Estado brasileiro foi definitivamente capturado por organizações predatórias instaladas em todos os poderes.
Alexandre Santiago

Três escândalos superpostos – dos descontos nas aposentadorias, do crédito consignado de aposentados e do Banco Master -, todos ligados à corrupção do INSS, mostram a realidade terrível: o Estado brasileiro foi definitivamente capturado por organizações predatórias instaladas em todos os poderes. 

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É um escândalo multipartidário. Depois de se apossar das estatais, das licitações, o crime politicamente organizado avançou sobre a última cidadela da cidadania: a poupança popular, de aposentados, beneficiários do Bolsa Família e do BPC (Benefício de Prestação Continuada) e, agora, de empregados de empresas privadas, sufocados pelas dívidas para compensar o vício das bets.

Vamos a uma cronologia, com o auxilio da IA:

 2023 – Início das denúncias isoladas

  • Janeiro–Abril:
    • Reclamações aumentam no Consumidor.gov e Procon de diversos estados (SP, PE, MA, PI).
    • Idosos relatam descontos misteriosos em seus benefícios.
    • Bancos e entidades terceirizadas começam a ser notificados.
  • Julho:
    • O governo Lula anuncia intenção de reduzir a taxa de juros do consignado e revisar convênios com associações.
    • Bancos reagem com lobby e ameaças de sair do mercado de consignado do INSS.

📅 2024 – Alerta vermelho e auditorias

  • Fevereiro:
    • CGU inicia auditoria interna no INSS e na Dataprev, após denúncias de servidores sobre autorizações falsas.
  • Abril:
    • Governo proíbe temporariamente novos contratos de consignado para beneficiários do BPC e do Auxílio Brasil.
    • Descobre-se que mais de 1 milhão de segurados têm contratos ativos sem consentimento confirmado.
  • Agosto:
    • Associações como ANAPB e ABPP são apontadas em relatório da CGU por cobranças indevidas e convênios “não supervisionados”.
    • Banco Master e outras instituições são citadas indiretamente por operar carteiras originadas via essas entidades.
  • Dezembro:
    • Denúncias indicam que funcionários da Caixa Econômica foram afastados após barrar ou questionar operações com a carteira do Banco Master.
    • Aparece o nome de assessores políticos ligados ao centrão, especialmente de estados do Norte e Nordeste.

📅 2025 – A crise explode

  • Março:
    • INSS e CGU finalizam levantamento mostrando que R$ 6,3 bilhões foram desviados em fraudes com consignado via associações.
  • 4 de Abril – OPERAÇÃO SEM DESCONTO (PF + CGU + INSS):
    • Deflagrada em DF, SP, MG, PI e BA.
    • Mandados de busca e apreensão contra associações como ANAPB, ABPP e ASPBRASIL.
    • Servidores da Dataprev e intermediários financeiros são alvos de medidas cautelares.
    • Descobertas contas bancárias com movimentações milionárias ligadas a entidades fantasmas.
  • Abril – Maio:
    • Governo suspende todos os descontos em folha para associações.
    • Bancos são notificados a comprovar legalidade de carteiras adquiridas.
    • Banco BRB é questionado sobre intenção de comprar carteira do Master — operação congelada.
    • TCU inicia apuração sobre omissões de controle por parte de seus próprios auditores.
  • Maio:
    • Governo Lula apresenta proposta de reforma legal do consignado, incluindo:
      • Obrigatoriedade de biometria para novos contratos.
      • Revalidação anual de autorizações.
      • Proibição de desconto por entidades sem vínculo direto comprovado com o segurado.

Por trás dessa esbórnia, surgem bancos, fintechs, apoiadas em políticos de todos os partidos. E, atrás deles, uma miríade de associações apadrinhadas por políticos.

💸 Como funcionava o esquema (segundo PF e CGU):

  1. Associações firmavam convênios com Dataprev ou INSS para “representar” beneficiários.
  2. Obtinham acesso a dados de segurados e inseriam descontos em folha, muitas vezes sem autorização.
  3. Usavam esses descontos como “porta de entrada” para oferta de crédito consignado com bancos e financeiras.
  4. Repassavam parte da comissão a políticos, lobistas ou servidores que facilitavam os convênios.
  5. Beneficiários descobriam o empréstimo apenas após o desconto começar — muitos sem saber que haviam autorizado.

E, dando retaguarda a tudo, deputados de todos os partidos. Os diretamente ligados ao Centrão – e ao bolsonarismo – atuando sem limites, através de bancos públicos, Caixa Econômica Federal e Banco de Brasilia. Os ligados a partidos de esquerda abrindo espaço para que confederações conseguissem recursos que compensassem o desmonte comandado pelo Supremo Tribunal Federal.

Até agora apareceram apenas os escândalos dos descontos em folha. Pior que isso, é o crédito consignado de aposentados. Fintechs sabiam quem ia se aposentar e, através de representantes espalhados por todo o país, entravam em contato e convenciam as vítimas a pegar o crédito consignado. A vítima aderia, como aderem hoje, todas as vítimas de bets espalhadas pelo país.

A Caixa Econômica Federal foi alvo de um golpe que, fosse outro o responsável, receberia repercussão contínua da mídia.

O presidente – indicado pelo todo poderoso Artur Lira – indicou o responsável pela Asset Caixa, que se dispôs a adquirir carteiras do Banco Master que, por sua vez, é apadrinhado pelo Senador Ciro Nogueira. Dois funcionários honestos recusaram a operação. Foram afastados. E ficou por isso mesmo. Um dos apadrinhados para a Asset é sócio de Lira em negócios em Alagoas. Os dois funcionários que cumpriram seu dever se perderam no anonimato.

O mesmo Ciro Nogueira propôs o aumento do Fundo Garantidor de Crédito para bancar as peripécias do Banco Master. De repente, tornou-se defensor do ajuste fiscal, propondo aumento de tributação dos grandes bancos – mas apenas porque resistiam ao aumento do FGC. Foi também padrinho da compra do Master pelo BRB do Governo do Distrito Federal.

Não sobrou um poder. No Tribunal de Contas da União, as investigações esbarraram no conselheiro Aroldo Cedraz. Na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), os processos do Master estão parados desde o ano passado. No Banco Central, a intervenção do ex-presidente Roberto Campos permitiu mais um ano de esperneio do Master, aumentando exponencialmente o tamanho do rombo.

Veja o mapa abaixo.

O poder das bets completa esse quadro dantesco de apropriação da poupança popular. Hoje em dia, segundo dados do Banco Central, metade da renda do brasileiro é comprometida com endividamento, uma bomba que vai estourar em um ponto qualquer no futuro.

A extensão dos consignados a trabalhadores de empresas privadas completará o ciclo: endividam-se com as bets, pegam o crédito consignado para apagar o incêndio, e por 6, 7 anos, comprometerão sua renda com o consignado.

À medida que esses escândalos vão explodindo, fica claro a falta de defesas do Estado brasileiro. O suicídio institucional da década de 2010, a brincadeira de derrubar presidentes, que teve a participação de todo o sistema de controle – STF, PF, MPF, Lava Jato, imprensa e o escambau – levou a isto: um país capturado na base pelo crime organizado e no topo pelo sistema político.

Estamos em um clima de fim de baile, onde todo o pudor foi recolhido, com Ministros do Supremo indo aos últimos bailes da Ilha Fiscal, em conferências suspeitas, bancadas por patrocinadores suspeitos, para se encontrar com empresários suspeitos em lugares selecionados, sem se dar conta da gravidade do momento e de sua responsabilidade em defesa da democracia.

Esse quadro provocará o crescimento exponencial do sentimento de revolta da população que, em algum ponto do futuro, explodirá em nova onda moralista, que será devidamente apropriada por aventureiros como os da Lava Jato, para também tirar seu quinhão.

Acordem! Haverá um aventureiro que explodirá em um ponto qualquer do futuro, conduzido pelo clamor popular.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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11 Comentários
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  1. João

    8 de maio de 2025 10:14 am

    polícia civil
    A polícia civil é terrorista
    A polícia civil foi dominada por uma juíza
    A polícia civil é feminina
    Debochar do comerciante
    A pessoa não aceita a polícia civil
    Sacar
    Penhorar
    Os estados são rio de janeiro e minas gerais
    A polícia civil deverá ser morta
    CÓDIGO PENAL
    DECRETO-LEI N. 2848, DE 7 DE DEZEMBRO DE 1940

  2. Carioca

    8 de maio de 2025 1:39 pm

    Faltou o aumento de numero de deputados, e seu efeito cascata nas ALs…
    que por uma dessas coincidências da vida, claro, a autora do projeto é filha de Eduardo Cunha … mera e pura coincidência

  3. Jotapontomarcelo

    8 de maio de 2025 2:24 pm

    Nassif desde o golpe na Dilma facilitada por aqieles q tinham(e tem)as chaves da Constituição o País só desce ladeira abaixo,mesmo com Lula estabilizando muita coisa,tá um sofrimento exterminar ou colocar esses fantasmas de volta ao armário e quem subiu q nem um foguete?Os setores improdutivos financeiros !!!Quem ainda dá algum tipo de freio na baderna é o STF mesmo q pontualmente e precariamente infelizmente é ele,não gosto de escrever certas coisas mas estamos em um ponto de não inflexão em q só um sobreviverá!!!

  4. evandro condé

    8 de maio de 2025 6:23 pm

    1) Nassif continua (insiste?) em não incluir o judiciário.
    2) Sobre as transformações desejadas e necessárias para o país, segue o que paga o governo federal ( que paga bem). Claro que advogados são mais fundamentais.

    “De acordo com o edital, a oportunidade é para atuar na área de Métodos Computacionais e Estatísticos Aplicados.

    Para participar, é necessário que o candidato tenha doutorado na área de Ciência da Computação, Matemática Computacional, Estatística, Epidemiologia, Demografia ou áreas afins.

    Ao ser admitido, o profissional deverá cumprir jornadas de 40 horas semanais e contará com remuneração mensal de R$ .6.180,86 a R$ .13.288,85.”

  5. evandro condé

    8 de maio de 2025 6:29 pm

    Vou me corrigir, já pedindo desculpas: o Nassif realmente falou do judiciário, mas foi brando, em meu pobre entender.

  6. Lênin and The Ulianovs

    8 de maio de 2025 8:44 pm

    Não é crime, Nassif, é capitalismo.

    Capitalismo de periferia.

  7. Rui Barbosa

    8 de maio de 2025 9:17 pm

    Se Lula não parar de fazer campanha para ser ex- presidente, nosso destino será uma ditadura venezuelana com um caudilho vestido de farda. O Congresso Nacional é o foco do golpismo que busca aumentar a representação de estados tradicionalmente dominados pela direita e viabilizar mais um impedimento presidencial ou a realização à força do sonho parlamentarista que coroaria a tomada do poder pelo legislativo. Lula tem que demitir todos os ministros que representam partidos que fingem apoiá-lo e contar ao povo o que está acontecendo, convocando a população a refletir e agir contra mais um golpe institucional que já está em andamento. Seu sempre sorridente “menino de ouro”, que Lula resolveu conduzir à presidência do Banco Central continua a fazer o dever de casa, criando uma recessão artificial para reforçar a trama golpista contra seu governo.

  8. José de Almeida Bispo

    9 de maio de 2025 7:59 am

    Onde houver possibilidade de safadeza, vai haver safadeza.

  9. Ciro Moroni Barroso

    9 de maio de 2025 12:28 pm

    UM PAÍS CAPTURADO NA BASE PELO CRIME ORGANIZADO E NO TOPO PELO SISTEMA POLÍTICO — Esse CAPITALISMO DE PERIFERIA — (em poucas palavras) é o resultado dos golpes de Estado de 1964/66/69 — Conduzidos por Oficiais Militares que foram conduzidos pelas agências de inteligência dos EUA… Entretanto, estas agências de inteligência não representam a Sociedade Norte-Americana, elas se instalam nas Instituições — e chegam mesmo a matar alguns presidentes dos EUA — !
    Em seguida, os políticos fisiológicos dos anos 80, 90, etc, conduziram nos bastidores sorrateiros de seus países, esse mundinho de cifras paralelas, verbas usurpadas, rentismo cruel, recursos dos cidadãos desviados, politicas estatais de mafiosos, etc — Estes políticos fisiológicos foram induzidos por agências internacionais de inteligência do mundo dos negócios — ter Caixa-2 é uma ordem natural, todos devem ter super-caixas-2 — estas políticas sorrateiras, desumanas, foram conduzidas por Corporações Multinacionais ao longo do séc. XX —
    Estas Corporações não pertencem ao Capitalismo comercial e industrial das classes burguesas em ascensão — Elas foram criadas a partir do Capitalismo Financeiro das Dinastias Bancárias do final do séc. XIX —
    Esta na hora de se reeditar, e de se lançar em toda parte, A INTERNACIONAL CAPITALISTA, de René Dreifuss [Ed. Esp.&Tempo, 1984], e A TRILATERAL [Hugo Assman et al, Vozes, 1979] — Precisamos reforçar esta interpretação para os cidadãos educados, e junto aos nossos políticos e partidos (“de esquerda”) — Discursos formais de “justiça social”, e burocracias estatais, não vão conseguir resolver nosso gigantesco problema, conforme o alerta do Nassif…

  10. Pedro Eneas do Nascimento Neto

    9 de maio de 2025 4:27 pm

    O que vou comentar agora é com PROFUNDO respeito.

    1) Será que com tantos instrumentos à mão – como CGU, PF e algum naco do TCU – o governo atual não estaria sendo um tanto pernicioso com a notória necessidade de enfrentamento, assim como você não estaria sendo benevolente com o Planalto?

    2) Talvez colocar na “conta do adversário” todos os males de algo não seria esconder também seus eventuais defeitos?

    3) Será que a tal “conciliação de classes lulista”, capitaneada pelo próprio, não ruiu lá em 2010, ao final do Lula 2, e o presidente esteja querendo reeditar algo que não existe mais?

    4) Se o Lula disputar 2026, e por sorte nossa conseguir a vitória, ainda caberia insistir no modelo do Lula 3 no eventual Lula 4?

    5) O PT tem um nome que possa aglutinar a esquerda para 2030, numa perspectiva de eventual vitória do Lula em 2026? Apostar do Haddad seria a chave para a derrota em 2030? Ou com a saída do Lula da vida POLÍTICA é dado como certo a vitória da direita abutre?

  11. LUIZ CLAUDIO PONTES

    10 de maio de 2025 4:24 pm

    Os bancos, sempre os bancos e seus interesses escusos. Ao andarem pelas ruas do RJ os idosos são constantemente abordados por empresas de crédito. Alvos fáceis, eles sucumbem ao encantos dos gentis recepcionistas dessas lojas especializadas em agiotagem. O assédio e tão grande que por vezes os promotores dessas empresas saem no tapa por um cliente. Além dos aposentados, também são achacados os BPCs, Bolsa Família e funcionários público, já que essas categorias têm dinheiro certo na conta Todos caem nas garras dessa gente mal intencionada e mal se consegue caminhar ileso pelas calçadas da cidade sem ser abordado assintosamente por esses agiotas. Até banco da milícia já se beneficia desses incautos e nada é feito para proteger o consumidor. Enquanto tivermos juros astronômicos, Bets do Tigrinho e instituições financeiras mas mãos de criminosos o país não sai desse buraco e a inadimplência vai explodir antes do fim do ano provocada por essa insanidade coletiva

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