Foi curioso o ataque de Marcos Lisboa a André Lara Resende, por sua proposta de nova política monetária. (Globo)
“Se tiver evidência empírica que sustente a ideia, “olha, analisei 40 países durante 50 anos e dá para baixar os juros sem prejudicar a inflação”, aí, tudo bem. Agora, essas propostas levianas, eu acho que são uma irresponsabilidade com o bem-estar das pessoas. Me lembra o governo Bolsonaro, a cloroquina e a pandemia”.
O ataque chama atenção por expor um contrassenso recorrente do debate econômico brasileiro. André Lara Resende foi um dos formuladores do Plano Real, uma das experiências de estabilização mais bem-sucedidas da história econômica recente.
Rudiger Dornbusch, um dos grandes nomes da economia mundial, foi inicialmente cético em relação à proposta de estabilização defendida por Resende e Pérsio Arida, mas reconheceu publicamente a contribuição dos dois para uma nova abordagem da estabilização brasileira.
John Cochrane, outra referência internacional, considerou a proposta economicamente sofisticada, embora tenha apontado ressalvas quanto à sua viabilidade prática.
Esse episódio mostra que as formulações recentes de Resende chegaram ao debate internacional contemporâneo e são discutidas por economistas de diferentes orientações.
É esse autor que Lisboa equipara, em sua fala, a uma atitude irresponsável como a defesa da cloroquina durante a pandemia sob Bolsonaro.
Há muitas ressalvas técnicas a fazer ao trabalho de Resende. Mas por que tanta virulência? O mercado financeiro conta com dois tipos de guardiões dos privilégios da financeirização. Um deles são os autores de trabalhos técnicos recorrentes, com argumentos repetitivos, tratados como dogmas, apoiados em metodologias que justificam a preponderância do mercado na definição das políticas públicas. O outro reúne os leões de chácara da disputa de opiniões na mídia voltada ao público não especializado.
Lisboa passou a integrar esse segundo grupo.
Já foi mais sutil e eficaz. Nas eleições de 2002 foi mobilizado por Jorge Paulo Lemann para acompanhar o candidato Ciro Gomes. Depois que Ciro saiu da disputa, Lisboa foi para a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, então comandado por Antonio Palocci. A política econômica daquele período desperdiçou uma oportunidade de impulsionar o país, favorecida por um câmbio competitivo e uma inflação relativamente controlada. Palocci manteve uma orientação que dava continuidade à de Pedro Malan, abriu mão dos ganhos da desvalorização cambial e reforçou o bordão da “lição de casa”.
Mais tarde, Lisboa atuou no Unibanco, sob a liderança de Pedro Moreira Salles. Sua passagem também merece ser examinada à luz das decisões sobre operações de arbitragem de juros e câmbio e das falhas de avaliação de risco que as cercaram e levaram à quebra do banco.
Depois, passou pelo Insper e se tornou um formulador de soluções padronizadas que atendiam aos setores mais conservadores. Foi um dos autores da Ponte para o Futuro, conjunto de medidas implementado por Michel Temer que desmontou políticas públicas construídas ao longo de décadas.
Depois desse período, saiu do primeiro plano.
Agora, tenta se recolocar no debate, elevando o tom e rebaixando o nível da discussão, como no ataque a Resende. Escuda-se no mainstream e repete mantras do mercado, sem aprofundar os diagnósticos com ousadia ou rigor.
Suas propostas alternativas — como o aprimoramento de indicadores de políticas públicas — são de uso geral. Não constituem uma alternativa às metas de inflação: podem ser adotadas independentemente do regime de política monetária.
A virulência do ataque sugere dificuldade de se destacar no campo das críticas técnicas e uma tentativa de recuperar o protagonismo perdido. No debate especializado, esse tipo de expediente convence pouco; no circuito midiático, rende manchete.
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